Colchas de retalhos e MULHERES INTEIRAS

colchas

Senta aqui pra um café, porque hoje vamos falar sobre como a sociedade aprendeu a admirar mulheres que costuram os próprios rasgos como colchas de retalhos ao invés de se perguntar quem continua rasgando o tecido. A sociedade não se contenta em exigir que mulheres sobrevivam. Ela também espera que sobrevivam da maneira certa. Espera que encontrem sentido na dor, aprendam com a violência e retornem ao mundo mais fortes do que partiram. É uma exigência cruel travestida de elogio. Chamam isso de superação. Chamam de resiliência. Mas existe um problema nessa narrativa: ela desloca o olhar da violência para a capacidade da vítima de suportá-la. Em vez de questionar quem produziu o rasgo, passamos a admirar a habilidade de quem conseguiu costurá-lo.

Foi depois de muitos anos que compreendi isso ao lembrar da minha avó. Ainda muito jovem, ela atravessou um oceano fugindo de uma guerra ao lado da mãe. Chegou ao Brasil carregando perdas que jamais deixaram de existir. Trabalhou na colheita de café, conheceu um tipo de exaustão que não admite escolhas e, quando o dia finalmente terminava, costurava colchas de retalhos.

Ela não costurava para ensinar uma lição sobre resiliência. Costurava porque os tecidos eram poucos, porque era preciso aproveitar o que havia sobrado e porque sobreviver quase nunca tem poesia. Anos depois, foi ela quem me ensinou a costurar. Não como quem transmite um ofício, mas como quem oferece uma forma silenciosa de reorganizar aquilo que parecia impossível de colocar em ordem. Naquela época, eu ainda não conseguia nomear algumas das minhas próprias rupturas. Hoje percebo que ela jamais tentou transformá-las em virtude.

Em algum momento, desaprendemos essa diferença. Transformamos estratégias de sobrevivência em metáforas inspiradoras e passamos a contar histórias de mulheres como se a violência tivesse produzido nelas alguma grandeza especial. Não produziu. A violência não aperfeiçoa ninguém. Ela interrompe projetos, modifica trajetórias, destrói referências, corrói a confiança e deixa marcas que nem sempre podem ser vistas. Ainda assim, seguimos esperando que mulheres devolvam ao mundo uma versão fortalecida de si mesmas, como se sobreviver não bastasse e fosse necessário justificar a própria dor produzindo uma história inspiradora.

É por isso que a imagem da colcha de retalhos sempre me acompanha. Ela costuma ser apresentada como símbolo de superação, mas essa leitura ignora sua origem. Colchas de retalhos não nascem da abundância. Nascem da escassez. São feitas do que restou. De pedaços que jamais foram pensados para estar juntos. De tecidos diferentes, marcados por histórias diferentes. Elas aquecem, mas isso não significa que nunca tenha existido frio. Cada costura existe porque antes houve um rasgo, e nem todo pedaço consegue ser recuperado.

A vida também é assim. Não voltamos a ser quem éramos antes da violência. Há uma diferença profunda entre restaurar e reconstruir. Restaurar é devolver ao estado anterior. Reconstruir é aprender a existir quando o anterior já não existe mais.

Há um aspecto da reconstrução que raramente recebe a mesma atenção: ninguém se recompõe sozinho. A imagem da mulher que supera tudo por força exclusivamente própria é tão sedutora quanto falsa. Em muitos casos, a continuidade só é possível porque outra mulher sustenta o tecido enquanto alguém ainda tenta encontrar a linha. É isso que fazem as redes de apoio. Elas não eliminam a dor, nem desfazem a violência. Apenas impedem que o rasgo se transforme em abismo.

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Minha avó jamais costurou aquelas colchas pensando em simbolismos. Ela costurava porque era necessário. A metáfora veio depois, quando percebi que, assim como os tecidos, algumas vidas não voltam a ser inteiras da mesma maneira. Ainda assim, podem continuar existindo com dignidade.

É exatamente disso que tantas mulheres precisam: não de discursos sobre força, nem de elogios à resiliência, mas do direito de existir sem que a dor precise produzir beleza, lições ou inspiração para merecer respeito. Pode deixar a xícara na mesa. Não há mais tempo para outro café. Enquanto admiramos a costura, continuamos fingindo não ver quem segura a tesoura.

ANDRÉIA MELO

É guarda municipal há 14 anos, especialista em atendimento humanizado às mulheres em situação de violência. Idealizadora e presidente da Casa de Alices – Centro de Atendimento e Acolhimento à Mulher. Atuou como vice-presidente do CAIS Jundiaí. Idealizadora do Programa Guardiã Maria da Penha onde atuou como coordenadora por 2 anos, instrutora na formação de profissionais da segurança pública em violência de gênero e direitos humanos, unindo experiência prática e reflexão jurídica no enfrentamento das desigualdades estruturais. E-mail: [email protected]. Telefone: 11 975559986. Conheça a Casa de Alices clicando aqui. 

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