Há uma cena que acontece com certa frequência e que, confesso, já virou até motivo de risada lá em casa. Estamos caminhando juntos quando alguém olha para minha esposa e dispara, com toda a boa intenção do mundo: “Nossa! Que Deus te abençoe por cuidar dele”. Ou então: “Você é uma guerreira!”. As vezes ainda completam: “Ainda bem que ele tem você para ajudá-lo”, como se ela fosse minha cuidadora. Nessa hora, eu fico pensando se a pessoa sabe que, antes de sairmos de casa, fui eu quem resolveu um problema no celular dela, procurei um documento que ela não encontrava, alcancei alguma coisa no armário ou dei aquele empurrãozinho para ela tomar uma decisão. Sim, isso acontece com bastante frequência.
Minha esposa até brinca que, “de vez em quando, esquece que eu tenho deficiência visual”. E a melhor parte dessa frase é que ela não ignora minha cegueira. Significa que ela enxerga primeiro quem eu sou. Ela sabe das minhas limitações, claro. Mas também conhece minhas capacidades, meu senso de humor, minhas teimosias, minhas qualidades e meus defeitos — como acontece em qualquer casamento. Nossa relação não é de cuidadora e paciente. É de marido e mulher, dois adultos que dividem alegrias, problemas, tarefas e responsabilidades. Um ajuda o outro. Simples assim.
O curioso é que muita gente ainda acredita que o maior desafio da minha esposa é ser casada com um homem cego. Eu diria que o maior desafio dela é aguentar minhas piadas repetidas e minhas opiniões sobre onde as coisas deveriam ficar guardadas. Isso, sim, exige paciência! A deficiência faz parte da minha vida, mas não ocupa o papel principal. Ela influencia algumas situações, sem dúvida, mas não define quem eu sou, nem determina o valor que tenho para minha família, para meu trabalho ou para minha comunidade.
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Talvez esteja na hora de mudarmos o foco. Em vez de olhar primeiro para a deficiência e só depois para a pessoa, poderíamos fazer o contrário. Enxergar capacidades, habilidades, sonhos, caráter e força de vontade. A deficiência existe, mas ela vem depois.
Eu sou cego. Esse é um fato. Mas não é minha identidade inteira. É apenas um detalhe entre tantos outros que compõem a pessoa que sou. E, quem sabe, quando essa cidade aprender a olhar as pessoas dessa maneira, deixaremos de tratar quem está ao nosso lado como uma cuidadora ou uma heroína apenas por nos amar. Porque o amor verdadeiro não enxerga super-heróis. Enxerga pessoas.(Foto: Eren Li/Pexels)

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA
É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.
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