Dois CEGOS, três baldeações e uma missão na rua 25 de Março

dois cegos

Dizem que a vida é uma aventura. Eu concordo, mas acrescentaria: algumas aventuras vêm com dois cegos, três baldeações de trem, uma ladeira interminável e um destino chamado 25 de Março. Para quem não conhece, essa rua, em São Paulo, é uma das regiões comerciais mais famosas do Brasil. Um verdadeiro labirinto de lojas, barracas, galerias e gente por todos os lados. Lá, você encontra de tudo: brinquedos, roupas, eletrônicos, artigos para casa e, se bobear, até aquilo que você nem sabia que precisava comprar.

Pois bem, eu e um amigo decidimos encarar essa epopeia. E um detalhe importante: nós dois somos cegos. Mas isso não nos impediu de sair de casa, pegar o trem e enfrentar cerca de três baldeações na ida e mais três na volta. Porque, convenhamos, se é para viver uma aventura, que seja completa.

Ao chegar na região, descemos toda a ladeira da Porto Geral, uma rua movimentadíssima que parece ter sido projetada para testar a coragem de qualquer ser humano. Imagine a cena: barracas ocupando as calçadas, pessoas andando em todas as direções, carros passando, obras surgindo do nada, postes estrategicamente posicionados, sacos de lixo, barulhos ensurdecedores, cachorros latindo e filas que pareciam não ter fim.

E lá estávamos nós, desviando de tudo isso com a habilidade de dois ninjas urbanos. Meu amigo conhecia o caminho melhor do que eu, o que foi uma bênção. Afinal, quando dois cegos resolvem explorar a 25 de Março, é bom que pelo menos um deles saiba onde está indo.

Entramos em lojas, enfrentamos filas, procuramos elevadores, encontramos saídas escondidas e, em alguns momentos, tivemos a sensação de que estávamos participando de uma caça ao tesouro. Só que o tesouro, no nosso caso, era resolver nossos compromissos e conseguir voltar para casa inteiros.

O mais bonito de tudo foi perceber a quantidade de pessoas dispostas a ajudar. A todo momento alguém perguntava: “Vocês precisam de ajuda?”, “Para onde vão?”, “Posso acompanhar vocês?”. Essas pequenas atitudes fizeram toda a diferença e mostraram que, em meio ao caos da cidade grande, ainda existe muita gente boa.

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E foi justamente aí que veio a reflexão do dia. Quantas vezes escuto pessoas sem deficiência dizendo que morrem de vontade de ir a São Paulo, mas não vão por medo? Medo do trânsito, da multidão, de se perder, de não saber o caminho.

Eu e meu amigo, dois cegos, enfrentamos tudo isso. Sentimos medo, sim. Mas não deixamos que ele nos paralisasse. Fomos, resolvemos o que precisávamos e voltamos para casa seguros e salvos.

A vida é assim: cheia de ladeiras, obstáculos, barulhos e caminhos desconhecidos. Mas, se esperarmos o medo desaparecer para agir, talvez nunca saiamos do lugar. Coragem não é não sentir medo. Coragem é sentir medo e, mesmo assim, continuar andando.

E hoje, entre uma baldeação e outra, aprendemos que os maiores objetivos só são alcançados por quem decide enfrentar os próprios obstáculos, sejam eles quais forem.(Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil – Edição: ChatGPT)

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA

É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.

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