Há momentos em que a vida não está exatamente ruim. Está apenas apertada. Os dias continuam acontecendo, o trabalho segue exigindo respostas, os compromissos chegam pontualmente e as pessoas continuam esperando de nós aquilo que aprenderam a receber. A agenda funciona. O telefone toca. As mensagens chegam. As tarefas são cumpridas. Por fora, tudo parece obedecer a uma normalidade bastante convincente.
Por dentro, entretanto, alguma coisa começa a pedir espaço. Talvez seja cansaço. Talvez seja decepção. Talvez seja simplesmente o peso de ter permanecido forte por tempo demais em lugares onde gostaríamos, por alguns instantes, de não precisar ser fortes.
Trabalho e amor possuem uma estranha capacidade de ocupar grandes territórios da existência. Quando estão bem, dão sentido aos dias. Quando se complicam ao mesmo tempo, parecem conspirar para que a vida inteira perca um pouco da cor.
No trabalho, surgem as cobranças, os desencontros, as expectativas nem sempre razoáveis. Há responsabilidades que aceitamos e outras que, sem perceber, foram sendo colocadas sobre nossos ombros. Aos poucos, aquilo que deveria produzir realização começa a produzir apenas obrigação. E então chegamos em casa esperando encontrar no afeto um lugar de repouso.
Mas o amor também tem seus ruídos. Também existem silêncios, ausências, expectativas, pequenas incompreensões. Existem palavras que deveriam ter sido ditas e outras que talvez tenham sido ditas demais. Há dias em que gostar de alguém não significa necessariamente conseguir alcançar esse alguém.
É quando a tensão profissional encontra a tensão afetiva que começamos a cometer um engano perigoso: imaginar que a vida se resume àquilo que está nos preocupando. Não se resume. Nunca se resumiu. Talvez seja justamente por isso que, algumas vezes, seja preciso viajar.
Não estou falando das grandes viagens planejadas durante meses, dos destinos extraordinários ou das fotografias cuidadosamente preparadas para convencer os outros de que estamos felizes.
Falo simplesmente de partir. Arrumar algumas roupas, fechar uma mala, atravessar uma estrada, olhar pela janela e permitir que a paisagem mude. Há algo profundamente restaurador em perceber que o mundo continua depois da esquina onde deixamos nossos problemas.
As árvores não sabem das nossas reuniões. As estradas desconhecem nossas discussões. O céu não pergunta quantas tarefas ficaram pendentes. O café tomado em algum lugar desconhecido não exige explicações sobre o relacionamento, sobre o trabalho, sobre as decisões que ainda não conseguimos tomar.
Durante algumas horas na vida, somos apenas alguém sentado diante de uma janela. E isso pode ser uma pequena forma de liberdade. Viajar não resolve necessariamente os problemas. E talvez seja importante dizer isso. Nenhuma estrada deveria receber a responsabilidade de consertar aquilo que somente nós poderemos enfrentar quando voltarmos.
Mas mudar de lugar pode mudar o ângulo. E, às vezes, era apenas o ângulo que estava nos faltando. De longe, algumas urgências diminuem. Certas pessoas deixam de parecer tão poderosas. Alguns conflitos revelam seu tamanho verdadeiro. Percebemos que determinadas cobranças profissionais eram exageradas, que certas expectativas afetivas estavam nos ferindo e que vínhamos oferecendo energia demais para situações que devolviam muito pouco.
A distância tem uma pedagogia silenciosa. Ela não responde. Ela mostra. Mostra, por exemplo, que trabalhar muito não significa necessariamente viver bem. Que ser indispensável para todos pode ser uma maneira sofisticada de abandonar a si mesmo. Que responsabilidade não deveria significar disponibilidade permanente. E que nenhuma profissão, por mais importante que seja, merece ocupar todos os cômodos da nossa existência.
O mesmo vale para o amor. Amar não deveria significar viver em permanente estado de vigilância, tentando interpretar gestos, ausências, palavras ou silêncios. O amor precisa de presença, mas também de ar. Precisa de encontro, mas não deveria exigir desaparecimento de si.
Talvez algumas viagens nos devolvam justamente isso: a lembrança de que existíamos antes das preocupações que hoje parecem enormes. Em algum momento da viagem, sem que percebamos exatamente quando, o humor começa a mudar. Pode acontecer diante de uma comida diferente. Em uma conversa inesperada. Numa caminhada sem destino. Em uma música ouvida no carro. Num fim de tarde em que não precisamos chegar a lugar algum.
De repente, rimos. E talvez tenhamos até nos esquecido de como era bom rir sem culpa. É um instante pequeno, quase banal, mas profundamente importante. Porque aquele riso nos informa alguma coisa: a alegria ainda está ali. Não desapareceu.
Estava apenas cansada. Então começamos a compreender que restaurar o humor não significa negar os problemas. Significa impedir que eles adquiram o monopólio da nossa existência. Há uma enorme diferença.
Podemos reconhecer aquilo que nos machuca e, ainda assim, comer algo gostoso. Podemos estar preocupados e contemplar uma paisagem bonita. Podemos amar alguém e perceber que determinada relação precisa mudar. Podemos enfrentar dificuldades profissionais sem transformar nossa profissão em sentença.
A vida suporta contradições. Nós é que, muitas vezes, exigimos dela definições absolutas. Ou estamos felizes ou estamos infelizes. Ou tudo funciona ou nada funciona. Ou permanecemos ou desistimos. Mas talvez a maturidade comece quando descobrimos os territórios intermediários. Podemos estar cansados e continuar esperançosos.
Podemos estar decepcionados e ainda desejar. Podemos não saber exatamente o que fazer e, mesmo assim, começar alguma coisa. É aí que entra a proatividade. Não aquela proatividade empresarial, tantas vezes transformada em palavra bonita para exigir ainda mais produtividade de pessoas já exaustas.
Falo de uma proatividade existencial. A decisão simples de participar novamente da própria vida. Escolher um passeio. Telefonar para alguém querido. Voltar a ouvir música. Caminhar. Conhecer um lugar. Sentar-se ao sol.
Planejar algo que produza expectativa boa. Recusar aquilo que já sabemos que nos faz mal. Conversar com quem precisa ser ouvido. Dizer aquilo que precisa ser dito.
E, sobretudo, parar de esperar que todas as circunstâncias estejam resolvidas para nos autorizarmos a sentir prazer novamente. Talvez esse seja um dos equívocos mais cruéis que cometemos conosco: adiar a alegria até que tudo esteja em ordem.
Mas tudo nunca estará completamente em ordem. Sempre haverá alguma pendência. Alguma preocupação. Alguma pessoa difícil. Alguma incerteza. Algum medo esperando resposta. Se condicionarmos nossa alegria à inexistência dos problemas, estaremos condenando a felicidade a uma espera interminável.
Por isso, talvez viajar seja apenas uma metáfora bonita para algo ainda mais necessário: voltar a se mover. Porque a tristeza prolongada imobiliza. A tensão endurece. A decepção estreita horizontes. E, quando permanecemos tempo demais dentro dos mesmos problemas, começamos a acreditar que eles são o tamanho do mundo.
Não são. O mundo é muito maior. E nós também somos. Depois de alguns dias, chega a hora de voltar. A mala talvez seja a mesma. Os problemas provavelmente estarão esperando. O trabalho continuará tendo suas exigências. O amor ainda precisará de conversas, escolhas, delicadeza e talvez coragem.
Mas quem retorna pode não ser exatamente quem partiu. Não porque tenha encontrado todas as respostas. Talvez tenha encontrado algo melhor: algum espaço dentro de si.
E nesse espaço cabem novamente possibilidades. A possibilidade de reorganizar o trabalho sem permitir que ele consuma a vida. A possibilidade de amar sem se abandonar. A possibilidade de estabelecer limites. De fazer escolhas. De recuperar prazeres esquecidos. De construir projetos novos. De compreender que algumas situações merecem insistência e outras merecem encerramento.
E, principalmente, a possibilidade de esperar coisas boas outra vez. Esperança não é acreditar ingenuamente que tudo dará certo. Esperança é continuar admitindo que algo pode dar certo. É uma pequena abertura deixada na janela. Uma disposição para o amanhã.
Talvez a viagem termine assim. Sem grandes revelações. Sem promessas extraordinárias. Sem fotografias capazes de explicar o que aconteceu. Apenas alguém voltando para casa um pouco mais leve. Alguém que descobriu, entre estradas, conversas, paisagens e pequenos prazeres, que ainda consegue sorrir.
PARA OUTROS ARTIGOS DE AFONSO MACHADO CLIQUE AQUI
E isso já é muito. Porque há momentos em que recuperar a alegria não significa voltar a ser quem éramos. Significa descobrir quem ainda podemos ser. A viagem termina. A vida continua. O trabalho estará lá.
O amor também. Mas, entre um e outro, existe alguém que não deveria ser esquecido. Nós mesmos. E talvez seja justamente quando voltamos a cuidar dessa pessoa que alguma coisa muito delicada começa novamente a nascer. Primeiro, uma vontade.
Depois, um pequeno entusiasmo. Em seguida, um plano. Um sorriso. Uma expectativa. Até que, quase sem perceber, aquilo que parecia perdido reaparece discretamente. A esperança. E ela não chega fazendo barulho. Apenas se senta ao nosso lado e parece dizer: ainda há estrada. Então seguimos…(Foto: Cemrecan Yurtman/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO
É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.
VEJA TAMBÉM
PUBLICIDADE LEGAL É NO JUNDIAÍ AGORA
ACESSE O FACEBOOK DO JUNDIAÍ AGORA: NOTÍCIAS, DIVERSÃO E PROMOÇÕES











