Golpes digitais crescem quase 30% em Jundiaí. E eles começam antes do Pix

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Os golpes digitais cresceram quase 30% em Jundiaí em 2025, segundo levantamento divulgado pelo Procon municipal. O número chama atenção por si só. Fraudes bancárias estão entre os principais problemas relatados, enquanto técnicas de engenharia social se tornam cada vez mais sofisticadas, inclusive com simulação de voz e deepfakes. Mas existe algo por trás desses números que merece nossa atenção, porque muitos golpes não começam quando a vítima faz o Pix. Começam alguns minutos antes!

Imagine receber uma ligação supostamente do banco informando que uma movimentação suspeita acabou de acontecer na sua conta. Você precisa agir agora. Ou uma mensagem de alguém da família dizendo que trocou de número e precisa urgentemente de dinheiro. Ou ainda uma oportunidade de investimento aparentemente extraordinária, mas disponível somente pelas próximas horas.

As histórias mudam. As tecnologias evoluem. Os personagens são diferentes, mas existe um elemento recorrente: a urgência. Em muitos golpes, o criminoso tenta fazer a vítima acreditar que não existe tempo suficiente para pensar. E isso ajuda a explicar por que pessoas inteligentes, instruídas e acostumadas a lidar com dinheiro também podem ser vítimas.

O principal alvo pode não ser a sua conta – Quando pensamos em segurança financeira, normalmente imaginamos senhas fortes, biometria, autenticação em duas etapas, limites para transferências e cuidado com links suspeitos. Tudo isso continua sendo importante, mas existe outra camada de proteção que merece cada vez mais atenção: o nosso processo de decisão.

Quanto mais convincente se torna a tecnologia, mais perigoso fica acreditar que reconheceremos um golpe simplesmente porque alguma coisa “parece estranha”. Muitas vezes, o criminoso não precisa vencer a segurança do banco. Precisa vencer a nossa capacidade de parar, analisar e conferir.

E algumas emoções são particularmente eficientes para isso:

O medo: “Existe uma movimentação suspeita na sua conta.”

O afeto: “Pai, troquei de número. Preciso da sua ajuda.”

A autoridade: “Estamos entrando em contato pelo setor de segurança do banco.”

A oportunidade: “Essa condição termina hoje.”

Histórias diferentes. Mesmo mecanismo: faça primeiro. Pense depois. Por isso, existe uma frase que considero importante para qualquer decisão financeira: quanto maior a pressão para decidir rápido, maior deve ser a sua disposição para decidir devagar.

Alguns minutos podem proteger milhares de reais – Recebeu uma ligação urgente supostamente do banco? Desligue e procure a instituição pelos canais oficiais. Um familiar pediu dinheiro de um número diferente? Confirme diretamente com a pessoa utilizando um contato que você já possuía. Recebeu uma oportunidade extraordinária de investimento? Pesquise antes de transferir qualquer valor. Isso não significa viver desconfiando de tudo. Significa criar uma pequena distância entre o estímulo e a decisão. Às vezes são apenas alguns minutos, mas, financeiramente, esses minutos podem valer milhares de reais.

Famílias também podem combinar regras previamente: pedidos inesperados de dinheiro precisam ser confirmados por outro canal; senhas e códigos de autenticação nunca são compartilhados; alterações de dados bancários são verificadas diretamente com a instituição; decisões financeiras extraordinárias não são tomadas sob pressão.

Em educação financeira, falamos muito sobre aprender a ganhar, organizar e investir dinheiro. Precisamos falar também sobre como protegê-lo. E proteger dinheiro em 2026 exige mais do que conhecer tecnologia, exige compreender como nosso próprio comportamento pode ser manipulado.

E se o Pix já tiver sido feito? Aqui acontece uma inversão importante: antes dos golpes, desacelere. Depois dele, acelere. Se houver uma fraude envolvendo Pix, entre imediatamente em contato com sua instituição financeira pelos canais oficiais e conteste a transação, solicitando o acionamento do Mecanismo Especial de Devolução (MED). Também é recomendável registrar Boletim de Ocorrência e preservar mensagens, comprovantes e demais evidências.

O MED pode possibilitar a recuperação integral ou parcial dos valores em casos elegíveis, mas a devolução não é garantida. Por isso, agir rapidamente depois de identificar a fraude é fundamental. E talvez exista uma lição importante justamente nesse contraste! Antes da transferência, o criminoso quer acelerar você. Depois da transferência, quem precisa ser rápido é você.

Os golpistas estão aperfeiçoando imagens, vozes, histórias e tecnologias. Nossa defesa também precisa evoluir. E uma das formas de fazer isso começa com um hábito surpreendentemente simples: não permitir que outra pessoa determine a velocidade das nossas decisões financeiras. Porque o golpe pode terminar quando o dinheiro sai da conta, porém, muitas vezes, ele começou antes. No instante em que alguém conseguiu convencer você de que pensar não era uma opção.(Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

KAUÊ CARVALHO

É pós-graduado em Finanças Pessoais, especialista na Lei do Superendividamento do Brasil e cursa MBA em Inteligência Artificial para Gestão e Negócios. Atua há mais de seis anos ajudando pessoas físicas e jurídicas a reestruturarem suas vidas financeiras, com visão global e adaptada às diferentes realidades de contexto. @kauecarvalhoconsultor 

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