O câncer não me matou. A PAUTA POLICIAL quase…

câncer

Há retornos ao trabalho que a gente imagina de um jeito. O meu foi diferente. Depois de dois anos afastado para tratar um câncer, com a remissão da doença, voltei ao Jornal da Cidade em outubro de 2007. Era 15 de outubro. Eu deveria estar pensando em recuperar o ritmo da redação, reencontrar os colegas, colocar as pautas em dia, lembrar onde ficava cada coisa e, principalmente, reaprender a conviver com o fechamento.

Mas o Fábio Fulan, que era um dos editores, tinha outros planos para mim.

— Você vai para a editoria de Polícia.

Olhei para ele, provavelmente com a mesma expressão de quem acaba de receber uma intimação.

— O câncer não me matou e você me coloca na Polícia logo na volta?

Rimos.

Eu sempre procurei fugir da editoria policial. Não por falta de interesse jornalístico. Pelo contrário. Mas porque tenho uma característica pouco recomendável para esse tipo de cobertura: sou meio dissimulado e tenho um senso de perigo bastante duvidoso.

Naquela época, eu ainda assinava como colaborador. Segundo a alta cúpula, eu não poderia ser repórter porque ainda estava na faculdade. O detalhe é que a exigência legal já havia caído. Mas algumas coisas demoram mais para morrer do que outras. Especialmente certas ideias produzidas em Brasília — e aqui peço licença às antas, que não têm culpa nenhuma disso.

Pois bem…

Meu retorno ao JC, mais precisamente à editoria de Polícia, coincidiu com uma pauta que, convenhamos, não era exatamente uma recepção de boas-vindas. Naquela semana aconteceria, em Jundiaí, a primeira audiência envolvendo integrantes do Primeiro Comando da Capital, o PCC, pelos ataques de 2006. Entre os presos que seriam ouvidos estava Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, então apontado como uma das principais lideranças da organização. Curiosidade: as datas do julgamento de Marcola – dias 11, 12 e 13 de maio do próximo ano – foram divulgadas ontem(25), enquanto este texto era preparado para ser publicado. Coincidências…

E havia um detalhe que tornava a pauta ainda mais importante para nós: a primeira onda de ataques, em maio de 2006, havia começado por Jundiaí. Ou seja: a cidade seria palco de uma audiência que reunia Judiciário, Polícia Militar, Polícia Civil, sistema prisional, imprensa, curiosos e um enorme aparato de segurança. E eu, recém-saído de dois anos de tratamento, recém-chegado à editoria de Polícia, estava escalado para cobrir. Não era exatamente a pauta que eu teria escolhido.

Mas jornalista não escolhe muita coisa. Jornalista recebe pauta. E raramente recebe junto um teste de sanidade. Durante a semana, fomos construindo a cobertura. Linha do tempo dos ataques, contexto, informações sobre a audiência, movimentação policial. A matéria exigia suíte, atualização e atenção aos detalhes.

Até que chegou sexta-feira, 19 de outubro. Confesso: fiz tudo o que estava ao meu alcance para atrasar a saída da redação. Arrumei uma coisa. Depois outra. Provavelmente até reorganizei alguma gaveta que não precisava ser reorganizada. Mas sirene não respeita procrastinação de repórter.

Por volta das 9h30 ou 9h40, começaram a chegar os primeiros sons. A audiência estava marcada para as 10h. O Jornal da Cidade, naquela época ficava próximo à Avenida Jundiaí, uma das entradas da cidade. Primeiro veio uma. Depois outra. O barulho foi aumentando. Eu ainda tentava ganhar alguns minutos. Até que veio o helicóptero.

Pronto, acabou a negociação comigo mesmo. O fotógrafo Marcelo Zeferino já estava descendo. Peguei minhas coisas e fui atrás. Entramos no possante do JC — com o Rodrigo, se a memória não estiver pregando uma peça — e partimos atrás do comboio que transportava Marcola e os demais presos.

Naquele momento, a lógica jornalística era simples: se eles tinham viaturas, sirenes, carros mais potentes e autoridade, provavelmente chegariam ao Fórum muito antes de nós. E nós precisávamos chegar antes. Não necessariamente antes do comboio. Antes da porta fechar. A ideia foi cortar caminho. Sugeri ao motorista que entrasse pela Siqueira, enquanto eu e o Marcelo desceríamos na esquina da Rosário para correr até o Fórum, na Rua da Imprensa. Plano perfeito? Na teoria.

Na prática, envolvia dois jornalistas, um motorista, um carro do jornal, uma manobra pouco ortodoxa e uma coleção de motoristas provavelmente desejando longa vida às nossas respectivas mães. Descemos e corremos. Hoje penso que talvez aquela tenha sido a última vez em que minhas pernas aceitaram uma ordem sem discutir. Chegamos à barreira policial.

E aqui entra uma informação importante para entender o repórter que eu era em 2007: eu ainda tinha pernas boas e juízo ruim. Pulei a barreira. Do outro lado, um policial militar apontou para mim aquilo que, na minha memória, continua tendo o tamanho de um canhão. Eu levantei o crachá de imprensa. Era a minha credencial.

Naquele instante, eu provavelmente achei que o meu crachá fosse o escudo do Capitão América, feito de vibranium. Não era. Se aquela arma resolvesse contrariar a minha estratégia de reportagem, não seria o crachá que me salvaria. Mas jornalismo tem dessas coisas. Às vezes, a coragem é apenas a falta de tempo para pensar. Conseguimos passar.

Marcelo foi para a posição de fotografia e eu tratei de fazer aquilo que todo repórter faz quando percebe que conseguiu chegar ao local: tentar parecer que estava ali porque tinha planejado tudo desde o começo. O comboio chegou tão rápido quanto a minha falta de noção. O transporte entrou. E, assim que as portas de aço do Fórum começaram a descer, percebemos uma pequena falha no planejamento. Nós estávamos do lado de fora. A pauta havia entrado. Nós, não.

E não foi por termos corrido pouco. Foi por ordem expressa da PM, para segurança de todos. A audiência seria de portas fechadas. E foi ali, do lado de fora do Fórum, que começou a verdadeira cobertura. Porque uma coisa é cobrir uma audiência. Outra é cobrir o que acontece em volta dela.

A matéria publicada naquele dia ganhou o título de “Cidade vai do medo à calmaria”. O texto registrou o forte aparato policial, os curiosos que se aglomeraram para acompanhar a chegada dos presos, a movimentação na Rua da Imprensa e o contraste entre a tensão da operação e a rotina da cidade.

Havia policiais civis e militares, agentes fortemente armados, barreiras, viaturas e toda aquela liturgia que acompanha uma operação de segurança de grande porte. E havia também o cidadão comum. Gente que parava para olhar. Gente que queria saber quem estava chegando. Gente que perguntava. Gente que simplesmente apareceu porque ouviu sirene.

O curioso é que, para quem estava na rua, aquilo parecia quase um acontecimento extraordinário. Para nós, jornalistas, era uma pauta. Uma pauta daquelas que fazem o telefone tocar, o editor perguntar “já temos o quê?”, o fotógrafo procurar uma posição melhor e o repórter começar a fazer contas mentais sobre espaço, horário e fechamento.

A matéria também registrou um aspecto que sempre me chamou atenção no jornalismo: enquanto uns estavam ali por obrigação institucional, outros por curiosidade e alguns por medo, havia quem estivesse simplesmente trabalhando. O comércio funcionava. A cidade continuava. O Fórum estava cercado, mas Jundiaí não parou. Talvez por isso o título tenha ficado tão adequado. Do medo à calmaria. Do aparato policial à rotina. Da expectativa da chegada à porta de aço fechada. E, para mim, de uma recuperação de dois anos para uma editoria que eu havia passado a vida tentando evitar.

Hoje, olhando para aquela sexta-feira, acho graça da sequência dos acontecimentos. Voltei de um tratamento de câncer e fui colocado na Polícia. Recebi uma pauta sobre o PCC. Tive de acompanhar um comboio de presos. Corri pelas ruas de Jundiaí. Pulei uma barreira policial com um crachá na mão enquanto um policial apontava uma arma na minha direção. E ainda achei tudo isso perfeitamente compatível com uma sexta-feira normal de trabalho. Talvez o problema nunca tenha sido a editoria de Polícia. Talvez o problema fosse o repórter.

Porque, no fundo, eu já tinha aprendido uma coisa durante aqueles dois anos de tratamento: a vida é imprevisível. Só não imaginava que, na minha volta, ela resolveria provar isso com sirenes, helicóptero, comboio e um homem armado olhando para mim enquanto eu erguia meu crachá como quem dizia: “Calma, chefe. É só imprensa” .Hoje, pensando bem, talvez eu não tivesse exatamente coragem.

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Talvez tivesse apenas uma combinação perigosa de juventude, adrenalina, obrigação profissional e um senso de perigo que nunca foi dos mais confiáveis. Mas uma coisa é certa: o câncer não me matou. E aquela pauta também não. Embora, olhando à distância, acho que os dois tenham chegado perigosamente perto.

MIGUEL ÉDI GOMES

É jundiaiense, tem 54 anos. É formado em jornalismo pela UniFaccamp e atualmente faz parte da equipe da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

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