Atropelamentos de animais são mapeados em avenida de Jundiaí

Pesquisadores fizeram o mapeamento de atropelamentos de animais e a análise da história de vida deles como indicadores para implementação de medidas atenuantes na avenida Navarro de Andrade, em Jundiaí. O estudo – feito por Ananda Theodoro e Eleonore Zulnara Freire Setz(ambas da Unicamp); Vânia Plaza Nunes, do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, e Carlos Henrique de Freitas, do Centro Universitário do Planalto de Araxá – foi publicado recentemente pela Revista do Instituto Florestal. O Jundiaí Agora entrevistou Vânia(foto ao lado):

Quando esse trabalho foi feito?

Esse trabalho se iniciou em 2023 e foi feito para avaliarmos se alguns pontos que haviam sido indicados por moradores sobre a quantidade frequente de animais de pequeno porte atropelados na avenida significaria que a mudança do ambiente havia facilitado esse tipo de ocorrência. Na época eu era superintendente da Fundação Serra do Japi. Têm sido cada vez mais comum e rápida as mudanças ambientais de áreas de florestas mudando fortemente a paisagem e aqui em Jundiai isso não é diferente. Cada vez mais a fragmentação, a supressão de vegetação tem contribuído para atropelamentos em várias vias da cidade e do entorno como rodovias de grande circulação. O risco para fauna é grande e associado a muitos outros fatores tem contribuído para uma diminuição de animais de várias espécies. Muitas vezes achamos que só são cães e gatos em áreas com urbanização crescente são atropelados. Mas, os animais silvestres são muitas vezes mais afetados. Hoje claramente temos a certeza do grande risco da defaunação e em Jundiai e região isso nos parece já está acontecendo há um bom tempo. Na ocasião, procuramos os técnicos da então Unidade de Gestão em Mobilidade e Transporte(UGMT) e eles disseram que iriam providencias apenas sinalização de algumas áreas…

Mas a publicação da pesquisa na Revista do Instituto Florestal só ocorreu recentemente. Qual a importância desta revista?

A revista é importante porque trata de temas que falam diretamente da questão florestal em suas várias fisionomias, importância e riscos cada vez mais frequentes e intensos devido a fragmentação, remoção e substituição de ambientes fundamentais para por exemplo a vida silvestre. O Instituto Florestal é um órgão de pesquisa e conservação do nosso estado e tem um histórico relevante de trabalhos pela restauração e conservação de florestas.

Por que dedicar um estudo à avenida Navarro de Andrade?

Recebemos várias denúncias de que nessa via, entre a Prefeitura e o Parque Centenário, ocorreram atropelamentos em um curto período de tempo. Isto aconteceu especialmente após o asfaltamento da avenida e as construções novas que foram feitas na região, principalmente às que ficam às margens da avenida. Na estrada de Santa Clara e outras vias locais, após asfaltamento, aconteceu o mesmo. A instalação de sinais específicos de trânsito, informações sobre risco de atropelamentos de animais silvestres em especial, e outros recursos do sistema de tráfego de veículos ajudaram a diminuir fortemente o número de casos. Então resolvemos avaliar cientificamente este caso vindo da comunidade, mesmo que fora da Serra do Japi, porque precisamos de corredores de fauna, áreas conectadas por toda região e isso esta cada vez mais distante de ser realidade.

Vocês realizaram percursos semanais de carro nestas vias. Por quanto tempo?

Sim, durante um ano uma aluna da Graduação da Unicamp, Ananda Theodoro, sob a orientação da professora Eleonore, do Departamento de Ecologia do Instituto de Biologia da Unicamp, fez essa pesquisa(as duas na foto acima). Um trecho de aproximadamente 3,1 quilômetros de extensão, totalizando 139,5 km percorridos em 45 semanas. A metodologia já foi utilizada em outros estudos de atropelamentos semelhantes como aponta os artigos citados na publicação.

Foram encontrados 18 animais de 13 espécies diferentes atropelados. São números altos?

São números que preocupam. Pelo levantamento feito é um número bem alto em relação a inúmeros trabalhos do Brasil e de outros países, o mais alto pesquisado. Se pensarmos que antes das intervenções humanas, construções, asfaltamento, construção de muros altíssimos e ausência de área nas laterais da pista para segurança em muitos trechos, não haviam relatos de atropelamentos podemos sim dizer que é um número precisava ser considerado e soluções alternativas precisam ser buscadas.

Quais espécies mortas? Silvestres e domésticos?

Ambos, sendo a maioria das ocorrências foi de aves e mamíferos (nove e oito ocorrências, respectivamente), e também um réptil. Foram atropelados: Bacurau-da-telha, Coleirinho fêmea, Inhambu-chintã, Pica-pau-do-campo, Sanhaço-cinzento, Trinca-ferro, Urubu-de-cabeça-preta, Cachorro-do-mato, Sagui-de-tufo-preto, Galinha-d’angola-de-peito-branco, Cachorro doméstico, Gato doméstico e cobra-corre-campo.

No total, 11 animais carnívoros foram atropelados. O que isto quer dizer? Eles ‘invadem’ a área urbana em busca de alimentos?

Veja, não podemos dizer isso ‘invasão’. Não são os animais que invadem. Eles têm seus ambientes de vida destruídos total ou parcialmente pelos humanos e precisam, assim como nós, de recursos como água, alimento, abrigo. Eles necessitam de acesso a esses recursos. Quando nós fazemos alterações, diversas ao mesmo tempo ou de forma subsequente sem observar o entorno, quebramos o equilíbrio e ampliamos os desafios que os animais já enfrentam naturalmente para sua sobrevivência. Usar termos como invasão dos animais a espaços que eram deles é ampliar a visão antropocêntrica que já existe.

Existiam obstáculos que forçaram estes animais a atravessar a via em pontos mais perigosos?

Sim: muros, cercas e casas. Outro fator que favorecia os atropelamentos era a oferta de alimentos nas margens da avenida, devido ao hábito humano de descarte de resíduos sem responsabilidade. A maioria dos animais quando encontrados nas margens da via estava também em época reprodutiva o que sugere a necessidade biológica de procura de parceiros. Tanto saguis como cachorros, domésticos ou silvestres, são animais que buscam fontes de alimentos variados e no caso do doméstico temos de lembrar da omissão de seu responsável por não mantê-lo dentro dos limites de sua propriedade. O mesmo se aplica ao gato doméstico.

O que pode ser feito para reduzir o número de atropelamentos?

São múltiplos os fatores e para tanto uma análise criteriosa precisa ser feita por toda via, ou seja, estas medidas não podem ser arbitrárias, genéricas e muito menos pontuais. Existem locais específicos que necessitam de medidas distintas para garantir a eficiência das ações e agrupamentos de atropelamentos, o que pode variar no espaço e no tempo como o indicam trabalhos semelhantes em outras regiões do Brasil e do mundo. É muito importante que as características biológicas de cada uma das espécies encontradas mortas sejam observadas para que se possa atuar de maneira significativa na conservação da biodiversidade atendendo as necessidades e criando e implantando mecanismos mitigatórios de risco. Não existe uma única alternativa.

Algo já é realizado em Jundiaí?

Desconheço. Sei por participar de um grupo que já tentou, neste ano, junto à Prefeitura, uma atuação na avenida pesquisada. Mas em outras áreas, como na avenida Antônio Pincinato, infelizmente sempre ocorrem atropelamentos de capivaras. A Secretaria de Planejamento e Meio Ambiente realizou um seminário, trouxe especialistas, mas de fato nenhum avanço aconteceu. Isso é muito preocupante por que cada animal que é vitima de atropelamento é uma vida perdida e mostra a nossa incapacidade de incluir as necessidades da vida silvestres em especial nas políticas públicas locais e regionais.

Este estudo será encaminhado para a Prefeitura?

Eu pretendo encaminhar. Já enviei ao grupo de trabalho que se criou graças ao nosso pedido e do Coletivo Japy junto à Câmara de Vereadores. Mas, repito: ações de fato não prosperaram mesmo com a oferta de apoio das universidades e faculdades nos levantamentos de dados.

O que o motorista deve fazer quando atropela um animal?

Primeiro o motorista deve respeitar as leis de trânsito, a velocidade da via, e também toda sinalização. Sempre dirigir com atenção, desviar em caso de animais fazendo travessias ou alertar outros condutores da presença desses animais nas margens das vias. Se infelizmente um atropelamento acontecer, imediatamente para sinalizar e chamar os responsáveis pela administração da ruas e avenidas narrando os fatos com a correta localização. Se o animal estiver vivo ou voltar, por exemplo, para a mata, é preciso informar isso também para facilitar a busca. Os animais sofrerão muito ate a morte caso não sejam atendidos e cuidados. A responsabilidade pela vida é de todos e constitucionalmente isso já está apontado.

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