A SABEDORIA de conviver

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Ele poderia ter respondido. Aliás, durante alguns segundos, todos esperaram que respondesse. A frase havia sido desagradável, talvez até injusta. Dessas que chegam à mesa sem pedir licença e permanecem pairando sobre as pessoas, esperando que alguém as transforme numa discussão. Alguns desviaram os olhos, outros prepararam silenciosamente seus argumentos e houve quem demonstrasse, pela expressão, a expectativa quase curiosa de assistir ao conflito. Ele respirou, olhou para quem havia pronunciado aquelas palavras e perguntou com sabedoria: você está bem? A pergunta desmontou a discussão antes que ela começasse. Não porque fosse uma estratégia. Nem porque ele desejasse demonstrar superioridade. Simplesmente havia percebido alguma coisa que os demais não perceberam. Por trás daquela agressividade existia uma pessoa profundamente entristecida.

Talvez ele tenha aprendido isso com o tempo. Ou talvez já soubesse havia muitos anos. Nunca descobriremos. Mas naquela noite ficou evidente que existem pessoas capazes de escutar muito além das palavras. E talvez essa seja uma das grandes habilidades sociais que podemos desenvolver ao longo da vida. Vivemos durante décadas acreditando que saber conversar significa saber falar. Aprendemos palavras, argumentos, maneiras de explicar nossas ideias, recursos para convencer, persuadir e defender posições. Entretanto, demoramos muito para descobrir que algumas das pessoas mais interessantes que encontramos não são necessariamente aquelas que melhor falam.

São aquelas diante das quais conseguimos falar. Existe uma diferença imensa. Há pessoas que ocupam todos os espaços da conversa e outras que criam espaço para que alguém exista dentro dela. Talvez a maturidade emocional e a sabedoria comecem um pouco aí. Não necessariamente na idade, porque os anos, sozinhos, não garantem sabedoria. Conhecemos jovens capazes de uma extraordinária sensibilidade e pessoas idosas que atravessaram décadas sem aprender a ouvir. O calendário registra o tempo vivido, mas não consegue medir aquilo que fizemos emocionalmente com esse tempo. Envelhecer é inevitável para quem continua vivendo. Amadurecer é outra história. O desenvolvimento humano talvez possa ser compreendido justamente nessa distância entre uma coisa e outra.

Durante a vida, acumulamos experiências emocionais. Descobrimos o entusiasmo da chegada e a tristeza das partidas. Conhecemos amizades que pareciam eternas e outras que terminaram sem explicações suficientes. Amamos pessoas que permaneceram e outras que se foram. Fomos acolhidos, rejeitados, elogiados, criticados, compreendidos e, algumas vezes, profundamente mal interpretados. Tudo isso deixa marcas. Mas as marcas não produzem sempre os mesmos resultados. Algumas pessoas transformam experiências dolorosas em muros. Outras, em janelas. Talvez uma das grandes possibilidades do envelhecimento seja justamente transformar parte daquilo que doeu em capacidade para compreender a dor do outro.

Quem já perdeu talvez consiga reconhecer mais rapidamente o silêncio de quem está perdendo. Quem já teve medo pode aprender a não ridicularizar o medo alheio. Quem já precisou recomeçar talvez seja menos apressado ao julgar aquele que ainda está procurando forças. Não porque todo idoso seja naturalmente compreensivo. Não é. Mas porque uma vida longa oferece muitas oportunidades para aprender sobre a fragilidade humana. E, quando essas oportunidades são verdadeiramente elaboradas, alguma coisa muda na maneira de estar com os outros.

A pessoa começa a descobrir que nem toda provocação merece resposta. Que nem todo silêncio significa desprezo. Que determinadas pessoas precisam de companhia e não de conselho. Que algumas discussões terminam melhor quando ninguém vence. A sabedoria mostra que pedir desculpas não diminui ninguém. Que mudar de opinião não significa fraqueza. E que existem momentos nos quais um abraço consegue dizer aquilo que nenhuma frase seria capaz de organizar. São aprendizagens simples apenas na aparência.

Talvez precisemos de uma vida inteira para aprender algumas delas. As habilidades sociais são frequentemente imaginadas como competências para falar bem, fazer amizades, participar de grupos, resolver conflitos ou expressar opiniões. Tudo isso é importante. Mas existe uma dimensão mais delicada: conviver exige perceber o outro. Perceber quando aproximar. Perceber quando recuar. Saber perguntar. Saber esperar. Saber discordar sem humilhar. Saber estabelecer limites sem destruir vínculos. Saber dizer “não” sem transformar a recusa numa agressão. Saber dizer “preciso de você” sem sentir vergonha da própria vulnerabilidade. Isto é sabedoria…

Talvez grandes habilidades sociais sejam justamente aquelas que tornam possível permanecer inteiro diante do outro sem precisar diminuí-lo para isso. E isso não é pouco. Passamos grande parte da juventude procurando aprovação. Queremos pertencer, ser reconhecidos, escolhidos, admirados. Sofremos quando somos excluídos e, algumas vezes, modificamos excessivamente nosso comportamento para caber em grupos nos quais talvez nunca tenhamos realmente pertencido.

Com o tempo, algumas pessoas começam a fazer outra pergunta. Em vez de “será que eles gostam de mim?”, passam a perguntar: “Eu gosto de quem me torno quando estou com essas pessoas?”. É uma mudança extraordinária. Talvez uma das conquistas emocionais mais importantes do desenvolvimento humano seja perceber que pertencer não pode exigir o desaparecimento de si mesmo.

Há amizades que acolhem. Há outras que consomem. Há grupos que nos permitem crescer e aqueles diante dos quais permanecemos constantemente tentando provar nosso valor. A maturidade pode trazer uma habilidade social particularmente preciosa: selecionar relações. Não por arrogância. Por cuidado. Chega um momento em que o tempo começa a ganhar outro significado. Talvez alguém aos 20 anos possa imaginar que haverá infinitas oportunidades para conversar, reconciliar-se, viajar, visitar amigos ou simplesmente sentar-se demoradamente ao lado de alguém querido.

Aos 70 ou 80, o tempo pode ser percebido de outra maneira. Não necessariamente com tristeza. Talvez com precisão. Algumas pessoas idosas tornam-se excelentes administradoras do afeto justamente porque aprenderam que tempo desperdiçado em ressentimentos intermináveis dificilmente retorna. Escolhem as discussões com sabedoria. Selecionam as preocupações. Perdoam algumas coisas. Afastam-se de outras. Telefonam quando sentem saudade. Dizem “eu gosto de você” com menos cerimônia. Ou pelo menos poderiam fazer isso.

Também há quem envelheça acumulando ressentimentos, conflitos e impossibilidades de aproximação. Por isso não devemos romantizar a velhice. A idade não purifica ninguém. Ela apenas oferece tempo. E o que fazemos com esse tempo continua sendo uma questão profundamente humana. Há idosos difíceis, afetuosos, impacientes, generosos, solitários, sociáveis, rígidos, curiosos, amorosos, desconfiados, divertidos e silenciosos. Como em qualquer outra fase da vida, há pessoas. Mas talvez justamente aí esteja a beleza do desenvolvimento humano: enquanto houver vida psíquica e possibilidade de relação, ainda podemos aprender novas maneiras de estar com os outros.

Uma pessoa pode aprender aos 70 aquilo que não conseguiu aos 40. Pode pedir desculpas aos 80. Pode construir uma amizade nova depois de décadas de isolamento. Pode aprender a demonstrar carinho depois de uma vida inteira educada para escondê-lo. Pode descobrir que dizer “estou triste” exige muito mais coragem do que fingir indiferença. Porque a emocionalidade não é fraqueza. Talvez uma das maiores conquistas do amadurecimento seja justamente deixar de lutar contra aquilo que sentimos. Durante muito tempo, muitas pessoas foram ensinadas a esconder emoções. Homens deveriam ser fortes. Mulheres deveriam suportar. Pais não poderiam demonstrar insegurança. Profissionais não deveriam mostrar fragilidade. Adultos precisariam possuir respostas.

E assim gerações inteiras aprenderam, sem sabedoria, a sentir silenciosamente. Mas emoções silenciadas não deixam necessariamente de existir. Às vezes, transformam-se em irritação. Em afastamento. Em dureza. Em relações que poderiam ter sido afetuosas, mas nunca encontraram linguagem para isso.

Talvez envelhecer também ofereça uma oportunidade de reconciliação com a própria emocionalidade. Há algo profundamente bonito quando uma pessoa que passou décadas escondendo afeto finalmente consegue demonstrá-lo. Quando um pai idoso abraça demoradamente um filho adulto. Quando dois irmãos interrompem uma rivalidade antiga. Quando alguém procura um amigo depois de anos e simplesmente diz: “Senti sua falta”. Talvez grandes habilidades sociais não apareçam apenas nas grandes situações. Elas estão nas pequenas delicadezas.

Lembrar o nome. Esperar alguém terminar a frase. Não ridicularizar uma dificuldade. Perceber quem ficou sozinho numa reunião. Dividir atenção. Perguntar antes de aconselhar. Agradecer. Reconhecer um erro. Celebrar sinceramente a conquista alheia. Guardar uma confidência. Não utilizar a fragilidade que alguém revelou num momento de confiança como arma numa discussão futura. Isso também é sabedoria nas relações. Talvez seja uma das formas mais sofisticadas dela. Existe, ainda, outra habilidade que os anos podem ensinar: suportar diferenças. Durante parte da vida, temos enorme necessidade de convencer. Queremos que os outros enxerguem aquilo que enxergamos, compreendam como compreendemos, escolham como escolheríamos.

Depois, talvez descubramos que amar alguém não exige concordar com tudo aquilo que essa pessoa pensa. Essa aprendizagem pode ser libertadora. Um avô pode não compreender inteiramente o mundo do neto e ainda assim interessar-se por ele. Uma pessoa jovem pode discordar das escolhas de alguém mais velho sem tratá-lo como ultrapassado.

Duas gerações podem olhar para a mesma realidade e produzir interpretações diferentes sem transformar a diferença numa guerra. Quando existe habilidade social, a divergência não precisa terminar em rompimento. Pode terminar em curiosidade. “Por que você pensa assim?” . Talvez esta seja uma das perguntas mais socialmente habilidosas que podemos fazer.

Não “como você consegue pensar assim?”, carregada de reprovação. Mas verdadeiramente: “Por quê?” Conte-me. Ajude-me a compreender. Talvez eu continue discordando depois. Mas quero conhecer o caminho que levou você até aí. Quantas relações seriam diferentes se aprendêssemos isso mais cedo. E quantas ainda podem tornar-se diferentes se aprendermos mais tarde. Porque o desenvolvimento humano não possui uma última aula. Enquanto encontramos pessoas, continuamos aprendendo sobre pessoas. E sobre nós mesmos. Às vezes, uma nova amizade revela uma parte nossa que desconhecíamos.

Uma perda reorganiza prioridades. Uma conversa muda uma certeza antiga. Um conflito mostra que ainda precisamos aprender a controlar impulsos. Um pedido de desculpas devolve uma relação que parecia terminada. Um gesto de afeto modifica um dia inteiro.

Talvez envelhecer emocionalmente bem não signifique tornar-se imune às emoções. Muito pelo contrário. Pode significar permitir-se senti-las sem ser governado inteiramente por elas. Sentir raiva sem precisar destruir. Sentir tristeza sem ter vergonha. Sentir medo e pedir companhia. Sentir alegria sem diminuí-la para parecer sério. Sentir saudade e procurar. Sentir amor e dizer. Isso exige coragem. E talvez exija também uma espécie de liberdade interior que vamos construindo lentamente. No final daquela noite, alguém perguntou ao homem por que ele não havia respondido à provocação.

Ele sorriu. Não parecia possuir nenhuma teoria extraordinária sobre o assunto. Disse apenas: “Há alguns anos eu teria respondido. Hoje prefiro saber o que está acontecendo antes de decidir contra quem estou brigando”. Todos riram. Mas havia alguma coisa séria naquela frase. Talvez os anos não lhe tivessem ensinado a evitar conflitos. Tinham lhe ensinado a escolher quais conflitos mereciam sua energia. E, principalmente, a perceber que algumas pessoas que parecem querer uma briga estão apenas procurando, de maneira desajeitada, alguém que perceba sua dor.

Antes de ir embora, aproximou-se novamente da pessoa que havia feito o comentário desagradável. Conversaram durante alguns minutos. Ninguém ouviu o que disseram. Nem precisava. Na saída, despediram-se com um abraço. Talvez seja isso. Passamos boa parte da vida aprendendo a falar. Outra parte tentando ser ouvidos. E, se tivermos alguma sorte e disposição para aprender, chegamos a um momento em que descobrimos algo ainda mais importante: escutar.

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Escutar palavras. Escutar gestos. Escutar ausências. Escutar aquilo que alguém consegue dizer e, algumas vezes, aquilo que ainda não encontrou coragem para pronunciar. Não sei se podemos chamar isso de sabedoria. Talvez seja uma palavra grande demais. Podemos simplesmente chamar de habilidade humana. Aquela capacidade delicada de chegar perto sem invadir, afastar-se sem abandonar, discordar sem humilhar, proteger sem controlar, ajudar sem diminuir e amar sem possuir.

E se os anos conseguirem nos ensinar ao menos uma parte disso, talvez envelhecer possa significar muito mais do que acumular tempo. Pode significar aprender, finalmente, uma das tarefas mais difíceis de toda a existência: estar verdadeiramente com os outros, aí sim com sabedoria.(Foto: Taís Alves/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO 

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.

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