O quarto mandamento – “Aponte contradições” – é filho dileto do cinismo pós-moderno da engenharia do consenso. “Você não precisa estar certo, basta que seu adversário esteja errado”. Essa lógica não é nova: era a base da propaganda dos macarthistas nos anos 1950. No Brasil, as manchetes da Tribuna da Imprensa de Carlos Lacerda, onde a obsessão era encontrar uma contradição, um escorregão, um “mas o PT fez pior”. A diferença hoje é a velocidade e a escala. Qualquer vídeo antigo, qualquer declaração descontextualizada pode ser usada para minar a credibilidade de um adversário sem que seja necessário construir qualquer alternativa positiva. Esse método é particularmente danoso para a esquerda, porque nossa tradição é de autocrítica e complexidade. Somos mais vulneráveis à acusação de contradição porque tentamos refletir sobre nuances, enquanto a extrema-direita se apresenta como bloco monolítico, imune à necessidade de coerência lógica.
O quinto mandamento – “Empurre a janela do aceitável” – é talvez o mais perverso, porque opera na estrutura mesma do que a sociedade considera possível. O conceito de Janela de Overton descreve como ideias transitam de “impensável” a “normal” ao longo do tempo. O que a extrema-direita fez, com maestria, foi introduzir propostas tão extremas que redefinem o centro do debate. Quando apresentam um “PL do Estupro”, qualquer proposta menos extrema de redução de direitos parece moderada. Quando defendem o fechamento do Congresso, a defesa de um governo “duro” soa razoável. Isso não é acaso; é um método que já foi usado pela extrema-direita italiana nos anos de chumbo, pela argentina na ditadura, e que hoje ganha contornos de engenharia social. Ao empurrar a janela, a direita consegue que o que antes era rejeitado, como o discurso aberto contra a democracia, passe a ser apenas mais uma opinião.
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O sexto mandamento – “Construa uma nova mídia” – é a concretização do projeto de poder. “Esqueça o Partido Democrata. O verdadeiro inimigo é a mídia”, disse Steve Bannon, o guru da internacional extremista. Aqui, a lição de Gramsci foi digerida em sua essência: a hegemonia se constrói com aparelhos privados. Enquanto a esquerda brasileira mantém seu ativismo concentrado em ONGs temáticas e partidos que mal conseguem falar com suas próprias bases, a extrema-direita ergueu um ecossistema de mídia paralelo: Brasil Paralelo, Revista Oeste, Jovem Pan… (além da tradicional) que forma, informa, desinforma e mobiliza. Não se trata de “comunicação”, no sentido técnico. Na engenharia do consenso, trata-se de guerra cultural. Esse ecossistema opera com uma lógica de “mídia de guerrilha”: descentralizada, mas coordenada; autônoma, mas alinhada; profissional, mas militante.
O sétimo mandamento – “Repita mantras” – é o princípio de tudo. “Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”, frase atribuída a Joseph Goebbels, é o mecanismo fundamental da propaganda autoritária. A extrema-direita não perde tempo com argumentos inéditos; ela extrai do repertório de velhas teorias conspiratórias: o fantasma do comunismo, a fraude eleitoral, o “mito”. E os repete até que se tornem senso comum. No Brasil, vimos isso com a narrativa do “kit gay”, com a história de que o MST seria financiado pela Venezuela, com a tese da fraude nas urnas eletrônicas. Repetidas exaustivamente, essas mentiras criaram uma verdade paralela que sustenta a ação política.
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A neurociência explica o fenômeno: o cérebro humano tende a familiarizar-se com o que é repetido, confundindo fluência de processamento com veracidade. É o chamado “efeito de verdade ilusória”. A esquerda, ao apostar exclusivamente no fact-checking, contrapõe-se a esse efeito de forma muitas vezes inócua, pois o desmentido chega a um público já convencido, enquanto o mantra continua a circular em ambientes fechados. É como tentar apagar um incêndio com um borrifador quando o fogo já se alastrou…(Foto: Rafael Santos/Pexels)

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE
Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.
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