O uso de curativos tradicionais no tratamento de feridas pode causar desconforto aos pacientes e dificuldades que atrasam a recuperação. O banho e a substituição dos curativos costumam incomodar ou até arrancar o tecido novo em formação, por exemplo. Outra desvantagem é a limitação dos movimentos, pois os curativos geram atrito nos ferimentos localizados em áreas de articulação, como o cotovelo. A fim de melhorar a qualidade de vida de pacientes em tratamento de feridas, pesquisadores da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Unicamp desenvolveram uma tecnologia biocompatível, segura e não poluente. Na prática, trata-se de um curativo líquido aplicável diretamente na região lesionada. A tecnologia cria uma película protetora transparente sobre o ferimento em até 45 segundos, dispensando o uso de gaze, esparadrapo ou outros elementos sobre a ferida e acelerando a cicatrização natural do machucado. O tempo de recuperação do paciente pode diminuir em até 50%, segundo os pesquisadores. A Faculdade de Medicina de Jundiaí(FMJ) participou dos estudos que resultaram no curativo em spray. O Jundiaí Agora entrevistou Vinícius Querência, coordenador do Núcleo de Inovação Tecnológica(NIT), da faculdade:
Como foi essa colaboração da FMJ nestes estudos?
A colaboração da FMJ ocorreu especificamente na etapa de testes e validação pré-clínica. A concepção, desenvolvimento e propriedade intelectual da formulação química foram realizadas pela empresa Dermbio Biotech. A contribuição da FMJ concentrou-se na execução da avaliação biológica do desempenho do curativo aplicado via equipamento portátil (electrospray) durante o período experimental de 14 dias onde a equipe de pesquisa realizou o acompanhamento e a análise padronizada do tecido por meio de macroscopia (acompanhamento visual e dimensional da lesão), imaginologia (registro e processamento de imagem do processo cicatricial) e histologia e histomorfometria (análise microscópica quantitativa e qualitativa do tecido em regeneração para mensuração da evolução cicatricial).
Na prática, o que o curativo representará para médicos e enfermeiros?
Caso os achados observados no modelo pré-clínico venham a ser confirmados em ensaios clínicos humanos futuros, a tecnologia poderá oferecer alternativas operacionais ao manejo tecidual. Sob o ponto de vista da prática assistencial, a formação de uma membrana bioabsorvível aplicável diretamente na ferida tem como proposta teórica evitar a dependência de coberturas convencionais como gaze, esparadrapo ou ataduras e também poderia eliminar a necessidade de trocas frequentes de curativos. Para a equipe de saúde, isso pode significar a simplificação dos protocolos de manipulação da lesão e menor tempo despendido por atendimento. No entanto, o impacto real na rotina hospitalar e ambulatorial depende de validação epidemiológica e clínica em humanos.
O curativo poderá ser usado também pela própria pessoa machucada, substituindo gaze, esparadrapo e ataduras no uso doméstico?
A definição do perfil de uso (se para aplicação exclusivamente profissional ou se liberado para autoaplicação pelo paciente) dependerá dos resultados dos ensaios clínicos com seres humanos, bem como da regulamentação final que for aprovada pela Anvisa. A indicação do modo de aplicação e a adequação da apresentação do dispositivo ao consumidor final caberão às definições regulatórias e comerciais da empresa Dermbio.
Quando o produto chegará ao mercado?
A estimativa de tempo para a chegada do item ao mercado depende do planejamento da empresa para o cumprimento de todas as fases de testes clínicos em humanos, submissão de dossiê técnico e aprovação formal junto à Anvisa.
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