ELEIÇÕES que desconstroem amizades

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Já passei por inúmeras eleições e pude observar que quem quer que tenha sido o vencedor pouco ou nada mudou, de forma significativa, minha vida. Evidentemente algumas ações foram positivas outras não, mas, de fato, minha rotina e minhas atividades permaneceram as mesmas. Tive que trabalhar muito, sempre, para alcançar meus objetivos e cuidar da minha família que, felizmente, se manteve unida o tempo todo, independente de quem fossem os candidatos vencedores em todas as esferas administrativas. Assim, fazer da sua opinião política um elemento de desconstrução de amizades não faz nenhum sentido.

Lamentavelmente nossas eleições tem se pautado, sobretudo nos últimos tempos, por denunciar as deficiências e fragilidades dos candidatos em detrimento de suas qualidades ainda que sejam poucas ou nenhuma. Vamos escolher aquele que tem menor rejeição. Como qualquer um, literalmente qualquer um, consegue hoje gravar sua opinião e colocar isso nas redes sociais, estamos sujeitos a todo tipo de informação sem nenhum compromisso com a fundamentação, a realidade ou a verdade. É só mais uma opinião muitas vezes inconsequente que repetida sem nenhum critério para usar os termos atuais “viraliza”.

Participo de alguns grupos de WhatsApp nos quais alguns de seus integrantes acharam por bem colocar suas posições políticas acima de quaisquer relacionamentos. Na ânsia de atacar o oponente político muitas vezes os agredidos são outros membros do grupo que têm opinião diferente daquela defendida por quem está postando. A maioria dos grupos é formado nas relações familiares, nas atividades de trabalho ou nas amizades com algum interesse comum, não necessariamente político. Os assuntos ali discutidos, além dos carinhosos “bom dia”, trazem informações relevantes para o grupo e quem os acessa nem sempre está disposto a ouvir, ou ler, agressões muitas das quais não distinguem o objeto da ação dos participantes do grupo. Ao postar ou repostar essas agressões, cujos resultados políticos podem ser irrelevantes, aquele que o faz pode estar comprometendo amizades construídas por muitos anos. A reação dos ofendidos é silenciar nos grupos, ou mesmo sair deles, comprometendo, por vezes de forma definitiva, boas amizades ou relações familiares.

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Não escrevo isso na expectativa de que aqueles que praticam essas ações se deem conta daquilo que estão perdendo ou trocando, mas para indicar que em muitas destas postagens, que talvez o autor nem tenha lido, só passou pra frente, foram absolutamente ofensivas e desrespeitosas com quem pensa diferente ou têm outra opinião, embora acreditem, paradoxalmente, que estão fazendo isso em nome da democracia. Podemos estar desconstruindo amizades de décadas para apoiar, nas eleições, este ou aquele candidato que possivelmente pouco se importará conosco ou com a nossa opinião. A transformação de uma divergência de opinião em uma ruptura de relações pessoais repercute principalmente dentro de cada grupo e ali faz suas vítimas.

Nestes tempos de intensa comunicação digital que tenhamos a sabedoria de sobreviver a ela sem comprometer aqueles que nos são caros.

FERNANDO LEME DO PRADO

É educador

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