A transformação do padrão de consumo e a ascensão das plataformas de e-commerce estão redefinindo a função dos centros urbanos, convertendo áreas de convivência em meros suportes para a circulação de mercadorias e dados. É o que aponta o artigo científico “O esmaecimento da urbanidade como efeito da funcionalização do espaço urbano”, de autoria de Marco Alexandre Ribeiro Fernandes, mestrando da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), e de Manoel Lemes da Silva Neto, professor doutor da mesma instituição. O trabalho analisa como o centro histórico de Jundiaí perde sua vitalidade social, mesmo mantendo uma movimentação diária intensa de pessoas.
Segundo os pesquisadores, a redução de urbanidade não é resultado do esvaziamento populacional ou do abandono físico do centro, mas de uma profunda alteração do seu sentido de uso. A área central passou a funcionar como uma grande estação de transbordo e infraestrutura logística. Com o avanço de aplicativos de entrega, agências de coleta de e-commerce e corridas por aplicativo, as ruas e praças se tornaram extensões operacionais (“chão de fábrica”) do mercado digital.
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A pesquisa utiliza a definição do geógrafo francês Jacques Lévy para conceituar urbanidade não como um valor simbólico, mas como um equilíbrio dinâmico de fatores espaciais: densidade, diversidade, copresença, permanência e fricção social. No centro de Jundiaí, esse equilíbrio é rompido à medida que a circulação contínua e a busca por fluidez operacional sufocam a permanência das pessoas no espaço público. A praça deixa de ser um local de estar, encontro e convivência para se transformar apenas em ponto de deslocamento e travessia rápida.
O estudo destaca que o processo é agravado pelo uso algorítmico do território por corporações-plataforma. Empresas organizam fluxos de entregadores e otimizam rotas segundo lógicas de eficiência que não dialogam com a história ou a memória da cidade. Ao mesmo tempo, comércios tradicionais do centro são pressionados pelo custo do metro quadrado ou substituídos por pontos de apoio logístico e de retirada de encomendas.
Os autores concluem que o enfraquecimento da vida urbana é um efeito estrutural desse modelo e alertam para a necessidade de políticas públicas de preservação territorial e valorização dos usos tradicionais, garantindo que o espaço urbano continue sendo um bem coletivo de convivência, e não apenas uma infraestrutura subordinada à logística corporativa.
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