Agosto acaba. VIOLÊNCIA contra mulheres não…

agosto

Senta aqui e pega um café. Pode assoprar. Agosto termina. O calendário vira. A violência, não. Em Jundiaí, uma média de 5,5 casos de violência contra a mulher é registrada por dia. O número, por si só, já deveria provocar incômodo. Mas ele também precisa ser lido com cuidado, porque registro não significa necessariamente que a violência aumentou na mesma proporção. Pode significar também que mais mulheres estão conseguindo romper o silêncio, procurar ajuda e acessar a rede de proteção. Durante muito tempo, a ausência de denúncia foi confundida com ausência de violência. Não era.

O Agosto Lilás existe justamente para ampliar essa conversa. Durante o mês, campanhas, palestras e ações públicas procuram informar sobre os diferentes tipos de violência e divulgar os caminhos para buscar proteção. Em Jundiaí, a rede de atendimento envolve diferentes serviços e mecanismos de proteção às mulheres. O problema é que a violência não acompanha o calendário das campanhas. Ela não começa em agosto e, principalmente, não termina quando setembro chega.

A Lei Maria da Penha transformou a maneira como o Brasil passou a reconhecer e enfrentar a violência doméstica e familiar contra a mulher. Aquilo que durante décadas foi tratado como assunto privado ou “briga de marido e mulher” passou a ser reconhecido como violação de direitos e responsabilidade do Estado. Mas nenhuma lei, sozinha, consegue interromper um ciclo de violência.

Denunciar é importante, mas é apenas uma etapa. Uma mulher pode registrar uma ocorrência, conseguir uma medida protetiva e ser encaminhada para a rede de atendimento e, ainda assim, continuar com medo. Muitas precisam enfrentar dependência econômica, preocupação com os filhos, ausência de moradia, pressão familiar e as consequências emocionais de anos de violência. Por isso, proteção não pode significar apenas afastar o agressor. Precisa significar criar condições para que a mulher consiga reconstruir a própria vida.

Também precisamos falar sobre aquilo que acontece antes da agressão física. Controle, humilhação, ameaça, isolamento, perseguição, violência patrimonial e violência psicológica não são detalhes de um relacionamento difícil. São formas de violência previstas pela própria legislação e, muitas vezes, aparecem muito antes de uma agressão que deixa marcas visíveis.

É justamente por isso que campanhas como o Agosto Lilás são importantes. Mas elas não podem funcionar como um compromisso anual que começa no dia 1º e termina no dia 31. Informação precisa continuar circulando, profissionais precisam continuar preparados, os serviços precisam continuar acessíveis e a rede de proteção precisa continuar funcionando quando as luzes da campanha forem apagadas.

Talvez o maior desafio seja justamente esse: não transformar a conscientização em um evento. Porque falar sobre violência durante um mês é importante. Garantir que uma mulher encontre acolhimento, proteção e possibilidades reais de romper o ciclo durante os outros onze meses é indispensável.

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Os 5,5 casos registrados diariamente em Jundiaí nos lembram disso. Por trás de cada ocorrência existe uma história. Existe uma mulher que, em algum momento, precisou decidir entre continuar suportando aquilo que vivia ou procurar ajuda. E, quando ela procura o Estado, não está pedindo apenas que alguém registre o que aconteceu. Está dizendo que precisa ser protegida.

Por isso, o encerramento do Agosto Lilás deveria provocar mais do que uma última publicação nas redes sociais. Deveria provocar uma pergunta incômoda: o que acontece com essa mulher quando agosto termina?

Porque setembro chega. Depois outubro, novembro e dezembro. A violência continua acontecendo em dias comuns, dentro de casas comuns, em relacionamentos que muitas vezes parecem normais para quem observa de fora. E nós precisamos continuar olhando.

Desta vez, não vamos repetir o café. Mulheres morrendo? Todos os dias. A violência ainda se repete. Agosto termina, o lilás vai embora e o calendário muda de cor. O vermelho, esse não costuma respeitar o calendário.(Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

ANDRÉIA MELO

É guarda municipal há 14 anos, especialista em atendimento humanizado às mulheres em situação de violência. Idealizadora e presidente da Casa de Alices – Centro de Atendimento e Acolhimento à Mulher. Atuou como vice-presidente do CAIS Jundiaí. Idealizadora do Programa Guardiã Maria da Penha onde atuou como coordenadora por 2 anos, instrutora na formação de profissionais da segurança pública em violência de gênero e direitos humanos, unindo experiência prática e reflexão jurídica no enfrentamento das desigualdades estruturais. E-mail: [email protected]. Telefone: 11 975559986. Conheça a Casa de Alices clicando aqui. 

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