O ano começou quase sem fazer barulho. Virou-se uma folha, trocou-se um número, e pronto. O calendário, obediente, seguiu adiante. Nós fomos atrás, um pouco por inércia, um pouco por esperança. Durante alguns dias — às vezes semanas — ainda tropeçamos na data antiga, escrevemos o ano passado por engano, corrigimos com um risco rápido, como quem pede desculpa ao tempo por ainda não ter acompanhado o passo.
Há algo de curioso nesse ritual silencioso. Esperamos que o ano novo traga consigo uma espécie de milagre discreto, quase invisível, mas profundo. Como se, ao mudar o calendário, algo dentro de nós também se organizasse. Como se os cansaços ficassem do lado de lá da folha arrancada e os medos, educados, respeitassem a virada.
Mas o ano começa… e a vida continua exatamente onde estava. O mesmo café esfria no bule. As mesmas ruas nos reconhecem. As mesmas preocupações sentam-se conosco à mesa, sem pedir licença.
E, ainda assim, insistimos. Dizemos “agora vai”. Fazemos promessas em silêncio, algumas em voz alta, outras só no pensamento, para não constranger o universo. Juramos que este ano seremos diferentes — mais organizados, mais leves, mais corajosos. Prometemos cuidar melhor do corpo, da alma, das relações, do tempo. Prometemos até coisas vagas, dessas que não se sabe bem como cumprir, mas que aquecem o peito por alguns dias.
Talvez porque seja reconfortante acreditar que um novo começo está sempre à distância de uma data. O problema é que o calendário muda rápido demais. E nós mudamos devagar. Muito devagar. Não por preguiça. Não por falta de vontade. Mas porque mudar de verdade exige mais do que virar páginas. Exige atenção, repetição, tropeços, recaídas. Exige continuar mesmo quando o entusiasmo inicial vai embora — e ele sempre vai.
Pouco se fala sobre esse momento: quando o ano já começou há tempo suficiente para perder o brilho de novidade, mas ainda é cedo demais para qualquer balanço. É aí que a maioria das promessas se dissolve, não por falha de caráter, mas por excesso de expectativa. Queríamos mudanças grandes demais, rápidas demais, para um coração que ainda está a aprender a caminhar.
Talvez por isso o ano novo frustre tanto. Esperamos que ele traga aquilo que só nós podemos construir. Mas há uma pergunta que quase nunca fazemos, e que talvez seja a mais importante: o que é que realmente muda quando o ano começa?
Mudam os números, é verdade. Mudam as agendas, os feriados, as metas escritas com letra caprichada nas primeiras páginas. Mudam algumas rotinas. Mudam, para alguns, os cenários. Mas há coisas que não obedecem ao calendário. As saudades não respeitam datas. As dores antigas não se intimidam com fogos de artifício. As ausências continuam ausentes. E os sonhos — ah, os sonhos — esses continuam a bater do mesmo jeito, pedindo tempo, coragem e insistência.
Há quem comece o ano cansado. Há quem comece esperançoso demais. Há quem comece apenas sobrevivendo. E está tudo bem. Nem todo começo precisa ser luminoso. Nem todo janeiro precisa ser grandioso. Às vezes, o maior sinal de que o ano começou é apenas o fato de estarmos aqui. Respirando. Continuando. Mesmo sem saber muito bem como.
O tempo do calendário é organizado, previsível, implacável. Anda para a frente sem olhar para trás. Já o tempo interno é desobediente. Avança, recua, estagna, corre. Há pessoas que ainda vivem acontecimentos de anos atrás como se tivessem acontecido ontem. Há outras que já se despediram do que ainda nem terminou. Há quem só consiga começar o ano em março. Ou em agosto. Ou num dia comum, sem nome, quando algo finalmente fizer sentido.
Talvez por isso a pergunta “o que mudou?” não tenha uma resposta clara. Porque a mudança verdadeira raramente é anunciada. Ela não vem com data marcada, nem com contagem regressiva. Ela acontece em detalhes pequenos: numa conversa que se estende um pouco mais, numa decisão adiada que finalmente é tomada, num limite que aprendemos a respeitar, numa gentileza que oferecemos a nós mesmos sem culpa.
Essas mudanças não cabem em resoluções de ano novo. Elas cabem na rotina. No dia comum. No esforço repetido de quem continua mesmo quando ninguém está vendo.
O ano começa, sim. Mas talvez não seja um ponto de partida. Talvez seja apenas uma continuidade — com um pouco mais de consciência, se tivermos sorte. Um lembrete gentil de que o tempo passa, independentemente de estarmos prontos, e de que a vida acontece enquanto esperamos o momento ideal para começar.
E se este ano não for sobre mudar tudo? E se não for sobre listas longas, nem transformações radicais? E se for apenas sobre prestar atenção? Aos sinais discretos de cansaço. À alegria breve que aparece sem avisar. À necessidade de parar. À coragem de continuar.
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Talvez o ano novo não nos peça grandes gestos. Talvez nos peça apenas presença. Estar onde estamos, com o que temos, fazendo o melhor possível — e isso, por si só, já é muito.
O calendário seguirá em frente, com ou sem a nossa permissão. Mas nós podemos escolher o ritmo. Podemos começar devagar. Podemos recomeçar quantas vezes for preciso. Podemos aceitar que algumas mudanças levam anos, e outras acontecem num instante quase imperceptível. O ano começou.
E talvez isso seja suficiente, por agora. Vivê-lo e vivê-lo bem.(Foto: Boom Photography/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO
É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.
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