Eu sempre achei curioso como o mundo anda cada vez mais acelerado — e, ao mesmo tempo, cada vez mais distraído. As pessoas caminham pelas calçadas como se estivessem em outra dimensão: olhos grudados no celular, fones de ouvido no volume máximo, mensagens sendo respondidas com mais atenção do que o próprio caminho. É quase um esporte olímpico atravessar a rua digitando. Agora, imagine esse cenário do ponto de vista de alguém que não enxerga. Eu sou uma pessoa cega e, diferente do que muita gente ainda pensa, eu faço praticamente tudo sozinho: vou ao banco, à feira, à igreja, resolvo minha vida, pego transporte, ando pelas calçadas da cidade com minha bengala branca. Sim, cego anda sozinho — e ando bem. Mas existe um detalhe fundamental nessa autonomia: atenção plena.
Enquanto muita gente pode se dar ao luxo de andar distraída, nós, pessoas cegas, não podemos nos descuidar. Nossa segurança depende da audição ligada no modo máximo, como se fosse um radar humano. Cada som importa. O barulho dos passos, o eco dos ambientes, o movimento das pessoas e, principalmente, o som dos carros.
Atravessar uma rua, por exemplo, não é um ato automático para nós. É uma equação mental: ouvir o fluxo dos veículos, identificar de onde vêm, perceber a aceleração, a desaceleração, o silêncio estratégico que indica uma possível brecha segura. O som do motor sempre foi nosso principal aliado. E aí entram o “plot twist” da modernidade: os carros 100% elétricos.
Silenciosos, tecnológicos, sustentáveis… e quase imperceptíveis para os ouvidos. O que para muitos é sinônimo de avanço, para nós tem se tornado um desafio radical. Esses veículos simplesmente surgem. Não roncam, não avisam, não dão sinais claros de que estão se aproximando. Mesmo com atenção total, eles podem passar despercebidos. E isso muda tudo.
Some-se a isso o crescimento preocupante da falta de atenção dos motoristas. Pessoas dirigindo enquanto mexem no celular, respondem mensagens, trocam músicas, vivem tudo… menos o trânsito. O resultado é um cenário em que o risco aumenta, especialmente para quem depende da audição para se orientar.
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É irônico: enquanto o mundo se distrai cada vez mais, nós precisamos estar mais atentos. Atenção, para nós, não é tendência de mindfulness, não é frase de efeito, não é papo de coaching. É sobrevivência. É mobilidade. É autonomia.
Talvez seja hora de a sociedade desacelerar um pouco, abaixar o volume dos fones, levantar os olhos do celular e lembrar que dividir o espaço urbano exige responsabilidade coletiva. Porque a cidade é de todos — inclusive daqueles que a escutam antes mesmo de poder vê-la. E acredite: quando o silêncio vem rápido demais, ele não é confortável. Ele é assustador.

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA
É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.
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