BRAILLE continua essencial, apesar do avanço das tecnologias

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No Instituto Jundiaiense Luiz Braille, onde atuo como professor de informática para pessoas com deficiência visual, aprendo diariamente que o Sistema Braille é mais do que um recurso pedagógico. É fundamento. Ao longo das conversas e práticas desenvolvidas com as pedagogas Erika R. Drezza e Ivilana O. C. Rove, reforça-se algo primordial: desde que foi criado, o Sistema Braille tornou-se um padrão mundial de leitura e escrita, garantindo que pessoas com deficiência visual tenham acesso ao conhecimento, à cultura e à educação. Essa compreensão faz parte do nosso trabalho e ecoa naquilo que defendemos dentro e fora da sala de aula.

O Braille é fundamental para a alfabetização e para a inclusão de pessoas cegas ou com baixa visão. É por meio dele que se tem acesso ao mundo letrado e ao aprendizado da ortografia correta. Através do tato, é possível perceber a estrutura das palavras, a acentuação, a pontuação. O Braille proporciona a compreensão literal da grafia, algo que nenhuma voz sintetizada consegue substituir.

Vivemos uma era de avanços tecnológicos impressionantes. Dispositivos e softwares permitem a leitura rápida de livros, documentos e mensagens. A tecnologia facilita, amplia horizontes e traz praticidade. Eu mesmo utilizo esses recursos diariamente, e reconheço o quanto eles são aliados importantes.

Mas há algo que precisa ser dito com clareza: apesar de toda a evolução tecnológica, esses recursos nunca irão substituir o Sistema Braille. A tecnologia ajuda a acessar conteúdos de forma rápida e fácil. No entanto, deve ser compreendida como ferramenta complementar, não substitutiva.

Faço essa reflexão porque existe, sim, um movimento crescente de pessoas cegas que vêm abandonando o Braille e focando exclusivamente na tecnologia. A praticidade da voz sintetizada seduz, a rapidez encanta, e aos poucos os pontos em relevo vão sendo deixados de lado. Muitas vezes isso acontece pela falta de incentivo adequado, pela crença de que o áudio é suficiente ou pela ideia equivocada de que o Braille ficou ultrapassado diante das inovações. O problema é que, quando isso acontece, não se perde apenas um método de leitura — perde-se estrutura de escrita, domínio ortográfico e independência plena na produção textual.

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O Braille continua sendo o instrumento que estrutura a alfabetização, que ensina a escrever corretamente, que permite revisar um texto com autonomia. Como pessoa cega, posso afirmar com segurança que existe uma diferença enorme entre ouvir e ler. Ouvir informa. Ler em Braille forma.

Quando os dedos percorrem os pontos em relevo, há construção real de conhecimento, há independência, há domínio da escrita, e isso impacta diretamente na cidadania. O Sistema Braille, portanto, não é algo ultrapassado diante da modernidade. Ele permanece essencial, sustenta o aprendizado, fortalece a inclusão e garante que a pessoa com deficiência visual seja protagonista da própria história.

Entre tecnologia e tradição, não existe disputa, existe parceria. Mas é nos seis pontos do Braille que começa, de fato, a verdadeira autonomia.(Foto: Thirdman/Pexels)

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA

É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.

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