Canetas emagrecedoras: O ‘clique’ da pressa e o silêncio da saúde

canetas

Quem observa o movimento na Avenida Nove de Julho ou o fluxo de pessoas no Jundiaí Shopping percebe que a nossa cidade, embora preserve o charme do interior e o ar puro da Serra, já adotou o ritmo frenético das grandes metrópoles. Queremos tudo para ontem: o café não pode demorar, a encomenda deve chegar no mesmo dia, a mensagem do Whatsapp precisa ter a resposta imediata o motoboy deve entregar o jantar em 10 minutos. Agora, o corpo tem que se transformar em uma semana. É nesse cenário de urgência que o “clique” das canetas emagrecedoras se tornou a trilha sonora de uma busca perigosa.

Abra sua rede social e veja quantas “influencers” relatam seus êxitos (provavelmente tem muitos outros cuidados envolvidos, você vê só o recorte pomposo, aquele que estimula o like). Entre os amigos, seguramente algum já usou ou está usando. Em contrapartida, nos jornais, sempre tem uma notícia e não é das boas.: “venda de canetas emagrecedoras de fonte duvidosa”, “canetas emagrecedoras sem o aval da Anvisa”, “jovem relata problemas de saúde ao utilizar sem supervisão as famosas canetas emagrecedoras”.

Caminhar pelo Parque da Cidade em uma manhã de sol é ver Jundiaí em movimento. Corredores, ciclistas e famílias buscam, ali, um pouco de fôlego. Mas, se pudéssemos ler os pensamentos por trás de cada par de óculos escuros, talvez encontrássemos uma sombra que nem o sol mais forte dissipa: a pressão implacável pelo corpo ideal. E quem define o que é o corpo ideal? Eu desafio você a fazer uma busca pela internet por fotos de corpos considerados “desejados” para a época…coloque períodos bens diferentes e o resultado vai surpreender.

O corpo perfeito, esteticamente, é o corpo que não existe. É inatingível, comercial, gera lucros e frustrações. Quando ele se torna “popular”, quase como uma linha de produção, ele muda. Porque a sociedade consumista já lucrou com ele e agora precisa “girar”. Quem não lembra das sobrancelhas ultrafinas? Agora, quanto mais grossas e penteadas aparentam saúde? E a febre das progressivas que deu lugar à “rebeldia de ser quem você é”. O loiro anos 2000 movimentou os salões, mas agora seu cabelo pode ser da cor que você mais gostar, pega homens e mulheres, sobretudo os jovens. Descobri que azul é a cor preferida dos mais novos, não importa o sexo. Vá a um evento com jovens e verá muitos cabelos azuis. Isso até que alguma tendência diga que o cabelo roxo é o melhor, mais moderno, comunica bem e está na “moda”. Enquanto essa oscilação era superficial e muito mais estética do que orgânica, estava “tudo bem”, mas o imediatismo não tem limites. Ele é rápido como um raio e ávido por novos lucros.

O problema não reside na ciência — que evoluiu e trouxe medicamentos brilhantes para quem realmente precisa tratar doenças. O perigo mora na mentalidade do atalho. Vivemos uma era em que o resultado imediato vale mais do que o processo seguro. O objetivo não parece ser mais “ter saúde”, mas sim “estar magro” para o próximo evento, para a foto do final de semana ou para saciar a fome de aprovação nas redes sociais.

Nessa maratona a fonte não é mais importante. Nosso vizinho, Paraguai, voltou a ser grande fornecedor de maravilhas que encontramos somente lá (quem viveu a infância dos anos 80 e 90 sabe do que estou falando). Sem contar o compartilhamento de frascos mediante rateio. Afinal, alguém conferiu o que tem dentro? Será medicação? Serão enzimas com algum estimulador metabólico? Pode ser tudo! É quase um Kinder Ovo, porém, as consequências podem ser mais sérias. Nessa corrida contra o espelho, a saúde tornou-se um detalhe irrelevante. Ignora-se o coração acelerado, a náusea constante e o desânimo profundo, desde que o número na balança caia. Trata-se o corpo não como um templo, mas como uma máquina que precisa ser “calibrada” a qualquer custo.

Jundiaí é conhecida por sua qualidade de vida, mas qualidade pressupõe longevidade. o que não combina com soluções de 24 horas. O corpo que se constrói com saúde é um projeto de uma vida inteira, não um “puxadinho” feito às pressas para a próxima estação. Que possamos olhar para o reflexo com menos pressa e mais respeito. Afinal, de que adianta o resultado imediato se não houver saúde para desfrutar o amanhã? Como fica o depois? Está no planejamento?

Precisamos falar sobre o direito de habitar a própria pele sem se sentir em dívida com o mundo. O peso ideal precisa ser pautado na saúde, no seu biotipo, na sua realidade e na sua noção do que é belo, do que é saudável. Não adianta ter um corpo de capa de revista se a mente está exausta de uma guerra que não faz sentido, garanto que daqui há alguns meses teremos outra “febre em busca da beleza”. Que em nossa Jundiaí, entre um café no Centro e uma caminhada na Serra do Japi, possamos cultivar um olhar mais gentil para nós mesmos. Canetas emagrecedoras não são capazes de desenhar uma autoestima saudável se o papel — a nossa mente — estiver rasgado pela pressão de ser quem não somos.

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Não sou contra a ciência e os maravilhosos fármacos, pelo contrário. Apenas convido para uma reflexão: “você tem olhado para sua saúde com a mesma preocupação com que olha para sua silhueta?”. Já ponderou sobre a possibilidade de estar vivendo o sedentarismo e suas consequências? Sedentarismo não traz só aumento de peso, traz muitas consequências físicas e emocionais, garanto que a forma de perder peso pode impactar sua saúde mental, seu bolso e até sua saúde geral, as notícias não me deixam mentir. Dê um “Google” sobre substâncias falsificadas…da bebida alcóolica às canetas milagrosas, não faltarão relatos.

Por isso aproveite o início do ano para colocar na sua rotina mais movimento, mais esportes, mais alegria. Que o seu prato tenha texturas e cores diferentes e que qualquer outra solução seja sua aliada, coadjuvante. Que a gentileza consigo perdure o ano todo, seu corpo é um templo sagrado. Tenha critério e conhecimento sobre tudo que você coloca nele: procedência, necessidade, moderação, equilíbrio e perenidade sejam nossas preocupações. Desejo vida longa a todos!!!(Foto: Caroline Moraes/Ministério da Saúde)

GABRIELA DAYANE PIRES NOGUEIRA

É advogada desde 2013. Atualmente é Procuradora-chefe da Consultoria Jurídica da Prefeitura de Jundiaí. Também é membra da Comissão de Direito Constitucional da OAB Jundiaí e do Executivo do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher. Foi Delegada eleita pelo Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (6ª Conferência Municipal), representante de Jundiaí na 5ª Conferência Nacional em Brasília, para políticas públicas para mulheres. Está no 9º semestre de Odontologia. Instagram: @gabrielapiresnogueira.adv

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