É engraçado como algumas pessoas parecem conhecer minha deficiência visual melhor do que eu mesmo. De vez em quando, alguém me olha fazendo alguma coisa e solta: “Você não é cego coisa nenhuma, está mentindo!”. E olha que não fico ofendido com isso, não. Mas, ultimamente, tenho parado para pensar nessas situações.
Esses dias, fui até uma mercearia que fica a uns 50 metros da minha casa. Entrei no estabelecimento e ouvi um homem que estava na porta dizer que eu só podia estar mentindo. Segundo ele, eu tinha entrado direitinho, atravessado a rua sem ser atropelado e chegado ao meu destino. Pelo visto, para provar que sou cego, eu deveria ter batido no poste, derrubado uma prateleira e voltado para casa de ambulância!
Na rua, também já ouvi comentários porque ando com o celular na mão. Parece que, para algumas pessoas, cego só pode usar bengala e andar com os braços esticados, como se estivesse procurando uma parede no escuro. Se pegar um celular, pronto! Foi desmascarado!
Mas deixa eu explicar algumas coisinhas. Primeiro, atravessar uma rua não é simplesmente sair andando e confiar na sorte. A gente presta atenção nos sons dos carros, tenta identificar o momento mais seguro, pensa antes de atravessar e, quando necessário, pede ajuda. Não é porque não enxergamos que deixamos de perceber o que acontece ao nosso redor. Aliás, em certas ruas, até quem enxerga deveria pensar duas vezes antes de atravessar!
E sobre o celular, a tecnologia está aí para isso. Existem leitores de tela que falam o que aparece no aparelho. Posso mandar mensagens, ouvir notícias, mexer nas redes sociais e fazer várias outras coisas. Não preciso enxergar a tela para usar o celular, assim como não preciso enxergar o fogão para preparar alguma coisa, desde que tenha os cuidados e as adaptações necessárias.
Claro que não somos todos iguais. Cada pessoa com deficiência tem suas próprias habilidades, dificuldades e maneiras de fazer as coisas. Também sentimos medo de errar, de sofrer acidentes e de passar por situações complicadas. A diferença é que aprendemos a encontrar nossos caminhos, cada um do seu jeito.
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No fim das contas, acho curioso que algumas pessoas precisem ver um cego tropeçar para acreditar que ele não enxerga. Quando conseguimos fazer alguma coisa sozinhos, parece que estamos enganando alguém. Mas não estamos enganando ninguém. Estamos apenas vivendo.
E fica aqui uma pergunta: será que o problema está em quem não enxerga ou em quem só consegue acreditar na deficiência quando ela aparece o tempo todo? Porque, sinceramente, se para provar que sou cego eu precisar sair tropeçando por aí, vou acabar ficando mais conhecido na emergência do hospital do que na mercearia do bairro!

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA
É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.
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