As aventuras de um CEGO na rua

cego

Ser uma pessoa com deficiência, no meu caso a cegueira, faz a gente passar por situações que, para quem está olhando de fora, parecem cenas de comédia. O problema é que, na hora, a vontade mesmo é desaparecer igual personagem de desenho animado logo depois da vergonha. Quem vê um cego andando sozinho com a bengala acha bonito e pensa: “nossa, que independência!”. E realmente temos independência para fazer compras, atravessar ruas, trabalhar, estudar e resolver nossa vida. Mas ninguém imagina os desafios escondidos nas calçadas brasileiras, que parecem mais pistas de obstáculos de um programa de televisão.

Já aconteceu comigo de bater em um poste e pedir desculpas achando que tinha esbarrado em alguém. O pior é quando você percebe, segundos depois, que pediu licença para um objeto de cimento que nem educação tem para responder. Também existem os famosos sacos de lixo. Dependendo do formato, da altura e do vento, eles parecem perfeitamente uma pessoa parada. Aí lá vou eu: “Desculpa, moço…”. Quando encosto e sinto o plástico gelado, já percebo que conversei educadamente com o lixo. Literalmente.

Amigos com baixa visão também vivem essas aventuras urbanas. Um deles me contou que já pediu informação para um manequim de loja. E o manequim, extremamente educado, permaneceu imóvel e em silêncio o tempo inteiro. Outro já ficou esperando uma pessoa sair da frente para passar… e era uma placa de promoção.

Mas existe uma experiência que une praticamente toda pessoa cega: o infarto gratuito causado por cachorros atrás de portão. Você está andando tranquilamente, concentrado na rua, tentando sobreviver aos buracos da calçada, quando do nada um cachorro resolve latir exatamente do seu lado. Não importa o tamanho do animal. Naquele momento, nossa mente transforma um pinscher em um pitbull do tamanho de um cavalo. O corpo inteiro arrepia, a bengala quase voa da mão e o coração já começa a revisar todos os pecados da vida.

E não para por aí. Tem também aqueles momentos de puro terror psicológico. Às vezes alguma coisa encosta no nosso braço do nada e, em meio segundo, nossa mente cria um filme completo: “Pronto. É um monstro assassino, um bicho gigante ou o espírito da floresta vindo me buscar”. Quando vamos ver, era apenas uma folhinha caindo da árvore com toda a delicadeza do mundo. Mas o susto já aconteceu, o coração já foi a 200 por hora e a dignidade ficou pelo caminho.

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Outra clássica é o cego conversar com alguém na rua achando que a pessoa ainda está ali, enquanto ela já foi embora há um tempão. Você continua explicando, agradecendo e sendo simpático… sozinho. Quem passa acha que você enlouqueceu de vez.

Apesar de tudo isso, aprendemos a rir das situações. Porque se for para passar vergonha, que pelo menos renda uma boa história depois. A verdade é que pessoas com deficiência visual desenvolvem independência, coragem e senso de humor quase no mesmo nível. Afinal, viver no Brasil sendo cego é praticamente participar de um reality show surpresa todos os dias.

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA

É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.

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