Se beber, não coloque CERVEJA no bebedouro

cerveja

Como já visto nas crônicas anteriores, em redação tudo pode acontecer. Quem já viveu o fechamento de um jornal sabe que a pauta nem sempre termina onde o lide começa. Não vou me lembrar do ano exato, mas ocorreu um fato totalmente aleatório envolvendo cerveja e um bebedouro, coisa que só faz sentido nos bastidores do jornalismo. Foi na época em que o arquiteto Ivan Gutierrez assinou o projeto da nova redação e dos demais setores do quase saudoso Jornal da Cidade.

Eu havia sido transferido, alguns meses antes, para o Departamento de Suplementos, um dos primeiros setores a receber o novo layout. Enquanto isso, a equipe da redação geral foi deslocada para o andar superior, onde antes funcionava o Departamento Comercial, reduto em que os executivos de vendas planejavam suas estratégias. Eles, por sua vez, foram remanejados para a nova área instalada no imóvel ao lado da sede do JC.

Em uma tarde de verão — talvez de sol forte, embora nem de longe comparável ao dos dias atuais — estacionou no pátio do jornal uma Kombi (ou seria uma van?) carregada de divulgadoras da cerveja Kaiser (aceito patrocínio para a coluna…). O veículo trazia inúmeras embalagens da versão long neck e, naturalmente, chamou a atenção do povo trabalhador do jornal.

As promotoras percorreram todos os corredores do jornal, na Praça da Bandeira, distribuindo uma long neck para cada colaborador que aceitasse participar da ação promocional. Quando chegaram à redação geral, o clima foi de comemoração. Afinal, jornalista dificilmente recusa uma boa pauta… e muito menos uma cerveja grátis. Encerrada a ação de marketing, elas voltaram para o veículo e seguiram viagem.

Até aí, tudo certo.

Há apenas um detalhe que ainda não havia entrado nesta reportagem: a cerveja estava em temperatura ambiente. Traduzindo para o vocabulário dos apreciadores da bebida, estava quente. E cerveja quente, convenhamos, perde boa parte da graça. Surgiu então a pauta do momento: como gelar aquelas long necks?

Outra questão também entrou em debate: seria correto beber durante o expediente? Pela CLT e pelo bom senso, evidentemente que não. Mas a redação do JC, às vezes, parecia funcionar em um universo paralelo, onde a criatividade frequentemente conseguia furar qualquer bloqueio lógico.

Como eu havia comentado, já trabalhava em outro departamento, mas sempre dava uma escapada para visitar os antigos colegas da redação geral. Naquele dia subi as escadas levando minha long neck. Assim que abri a porta, encontrei uma pequena reunião editorial — não para discutir manchetes, mas para encontrar uma solução capaz de transformar cerveja morna em uma bebida minimamente digna de ostentar malte, lúpulo e fermento.

Na redação provisória havia um daqueles bebedouros de galão, modelo torre, com duas opções: água natural ou gelada. Foi a clássica situação de juntar a fome com a vontade de comer… ou, no caso, juntar a sede com a vontade de beber uma cerveja bem gelada.

A criatividade entrou em campo.

Retiraram o galão de água, esvaziaram o reservatório e, pouco depois, ouviu-se a sequência de estalos das tampinhas sendo abertas. Em poucos minutos, o dispenser já não recebia água, mas uma generosa mistura de malte, lúpulo e fermento da marca Kaiser (ei, continua valendo o patrocínio da coluna…). A ideia era transformar o equipamento em uma espécie de chopeira improvisada.

Na teoria, parecia brilhante.

Na prática, nem tanto.

A experiência não chegou nem perto de entregar uma cerveja “trincando”, muito menos atingiu a lendária temperatura “canelinha de pedreiro”, aquela em que a garrafa fica completamente esbranquiçada, lembrando a marca de cal deixada nas pernas dos profissionais da construção civil. O resultado ficou muito aquém do esperado.

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Se não me falha a memória, tudo aconteceu em uma sexta-feira à tarde. O Jornal da Cidade não circulava às segundas-feiras, e o plantão de sábado costumava ser bastante tranquilo. O problema é que o sabor da cerveja resolveu fazer plantão também. Ficou impregnado na serpentina interna do bebedouro e, por mais que o galão de água fosse recolocado e litros de água fossem dispensados depois da reposição, os primeiros copos ainda carregavam um discreto — e inconfundível — retrogosto de Kaiser. Sobrou trabalho para a equipe de limpeza, que precisou de muita paciência para eliminar o “happy hour” instalado dentro do equipamento, sem terem conhecimento do ‘causo’.

A peraltice nunca virou manchete. Pelo menos, não houve advertências, suspensões ou qualquer outra punição oficial. O episódio permaneceu restrito aos bastidores da redação, como tantas histórias que jamais chegaram às páginas do jornal. O que ficou, literalmente, foi um leve amargor nos copos de água durante alguns dias, apesar de todo o empenho das meninas da limpeza. E também uma lição que merece entrar para o manual de redação — ou, quem sabe, para o guia dos apreciadores da bebida: “Se a cerveja estiver quente, jamais transforme o bebedouro da firma em uma chopeira improvisada.”

MIGUEL ÉDI GOMES

É jundiaiense, tem 54 anos. É formado em jornalismo pela UniFaccamp e atualmente faz parte da equipe da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

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