Há dualidades nas gestões CONSERVADORAS de Jundiaí?

conservadoras

Ao analisar a dinâmica política de Jundiaí, uma cidade que figura entre as de menor vulnerabilidade socioeconômica do país, observa-se um cenário de tensões e contradições. A gestão municipal, marcada por uma predominância de forças conservadoras, tem implementado políticas que, embora possam apresentar resultados em indicadores agregados, frequentemente perpetuam mecanismos de exclusão, gentrificação e apagamento cultural, exigindo uma avaliação crítica sobre seu compromisso real com o bem-estar social inclusivo.

O espectro ideológico local é ilustrado pelas eleições de 2024, que consolidaram a hegemonia de partidos de direita. O prefeito eleito, Gustavo Martinelli (União), venceu o candidato do PL, José Parimoschi. As duas legendas são conservadoras. Por outro lado, a candidatura do professor Higor Codarin (PSOL) representou uma voz progressista, defendendo pautas como educação libertadora e justiça social, mas com expressividade eleitoral limitada. Essa configuração revela um ambiente político onde agendas transformadoras encontram dificuldade de se articular como alternativa de poder, enquanto as gestões são majoritariamente orientadas por uma visão que prioriza a eficiência gerencial e o desenvolvimento econômico, nem sempre atenta às desigualdades estruturais.

Apesar dos investimentos recordes em saúde, que saltaram de R$ 486 milhões para R$ 1,1 bilhão entre 2017 e 2024, com a descentralização de serviços e ampliação da cobertura da Estratégia Saúde da Família, e do aumento de 74% no orçamento da assistência social no mesmo período, persistem questões profundas de exclusão. A “requalificação” do centro histórico, com um plano de R$ 50 milhões que visa melhorar paisagem, segurança e comércio, carrega em si o risco da gentrificação. Esse processo, ao valorizar imóveis e impor adequações custosas, pode invisibilizar e deslocar populações de baixa renda, moradores tradicionais e pequenos comerciantes, aprofundando a segregação socioespacial sob o discurso da “revitalização”. O apagamento de memórias e identidades é outra frente de conflito. Iniciativas como a Rota Turística Afro e a programação do Mês da Consciência Negra, com marchas e homenagens a personalidades negras, mostram um esforço oficial de reconhecimento. No entanto, tais ações, muitas vezes circunscritas a datas simbólicas, podem não ser suficientes para reverter séculos de invisibilidade nem para garantir políticas substantivas de reparação e equidade racial.

Na educação, a pressão por métricas de desempenho e a lógica da eficiência propostas pelas vertentes conservadoras tendem a objetificar alunos, transformando‑os em números e prejudicando uma formação crítica e humanística. A prioridade a rankings e resultados pode obscurecer a necessidade de uma educação verdadeiramente inclusiva, que valorize a diversidade e promova a autonomia intelectual. Da mesma forma, a proteção às populações vulneráveis – como comunidades negras, periféricas e LGBTQIAP+ – frequentemente fica restrita a programas pontuais, sem um enfrentamento radical das estruturas que produzem sua vulnerabilidade.

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A política jundiaiense, embora exiba avanços em investimentos públicos e indicadores sociais, opera em um campo tensionado entre gestões viés conservadoras – que enfatizam a ordem, o desenvolvimento econômico e a eficiência administrativa – e demandas progressistas por inclusão substantiva, justiça territorial e reconhecimento da diversidade. A superação das exclusões, da gentrificação e dos apagamentos históricos exige mais do que políticas setoriais bem‑intencionadas; requer uma inflexão crítica no projeto de cidade, que coloque o bem‑estar social universal, a saúde pública integral, a educação emancipatória e a proteção efetiva das populações vulneráveis no centro da ação governamental. Só assim Jundiaí poderá construir uma trajetória que não apenas melhore índices, mas verdadeiramente inclua e dignifique todos os seus habitantes. É preciso ir muito além da tal colônia italiana, lembrando que teremos eleições majoritárias neste ano!

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE

Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetrasPara saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.

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