Entre 1891 e 1909, os contratos da municipalidade de Jundiahy foram mais do que meras transações burocráticas; foram os alicerces sobre os quais uma cidade moderna começou a erguer-se. Esse arquivo, aparentemente árido, é na verdade um retrato vibrante de uma comunidade em profunda transformação, um projeto de urbanização que revela tanto suas ambições quanto suas contradições.
Os primeiros registros, datados de 1891, lançam as bases fundamentais do progresso: iluminação elétrica, água e esgoto. A recorrência das intervenções na região do Alto do Anhangabaú, objeto de múltiplas medições e divisões, não era um mero acaso. Sinalizava a valorização de novas áreas e a pressão por expansão, desenhando no mapa os futuros bairros. Paralelamente, o ritmo da cidade era marcado pelo som das ferramentas abrindo e reparando ruas como a Barão do Rio Branco, criando uma rede viária que conectava pontos vitais, como a estação ferroviária ao centro. A cidade não apenas crescia – ela se orientava, consciente de seu destino.
Uma leitura atenta desvenda as obsessões da época. A iluminação pública, objeto de sucessivos contratos que evoluíam rapidamente para a “luz eléctrica de incandescência”, era uma questão de segurança, civilidade e status. Caminhar por uma rua iluminada à noite era experimentar o futuro. Da mesma forma, a batalha pela limpeza – com seus editais minuciosos que incluíam roçar largos e “extinguir formigueiros” – era uma guerra contra a desordem e a doença, uma tentativa de domar a natureza em nome do embelezamento e da higiene.
Por trás de cada obra, emergem os personagens que materializavam esses sonhos. Para além de figuras ilustres como o engenheiro Arthur Pio Deschampes de Montmorency, uma multidão de empreiteiros, majoritariamente imigrantes, colocava a mão na massa. Nomes como Nunsio Rubbo, Giuseppe Salgarelo e Miguel Giuntini tornam-se familiares ao longo dos anos, associados à construção de incontáveis sarjetas, bueiros e pontes. Eles eram os artífices e escultores do espaço público, cujas ferramentas traduziam as decisões da Câmara em calçamento, concreto e tijolo.
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Esta era, porém, uma modernização de contrastes profundos. A mesma administração que contratava a energia elétrica e os bondes, preocupava-se em comprar milho para os animais de carga e em alugar pastos. A cidade moderna, com seu mercado e seu matadouro novos, convivia com inescapáveis heranças rurais. E os documentos não omitem as sombras dessa transição: os contratos para “enterramentos de pobres e indigentes” ou para a “condução de cadáveres” falam de uma mortalidade crua e de hierarquias sociais que persistiam mesmo na morte. Em última análise, o arquivo de contratos transcende sua função administrativa. Ele é a crônica de um lugar em mutação, onde a ânsia pelo futuro se media a cada bueiro instalado e a cada lâmpada acesa.
Ler este documento é viajar pela história de como uma cidade foi literalmente assentada, não apenas em bases físicas, mas sobre um conjunto complexo de escolhas, conflitos e sonhos, todos meticulosamente assinados e datados, esperando para ser desenterrados pela nossa leitura.
Nota do autor: este documento está disponível no Arquivo Histórico de Jundiaí.

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE
Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.
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