Pois é… eu, na absoluta certeza — alimentada exclusivamente pelas vozes da minha cabeça — de que as crônicas dos bastidores já não tinham mais público, eis que, entre todas as mensagens que recebi, a da minha irmã a Shirlene Silva Pettian, a Shil, me deixou emocionado e com a certeza de continuar: “Vou sentir falta!”. Ou do jornalista Jamilson Tonolli: mas, eu lia!
A Shill sempre foi meu porto seguro de ideias e socorro nos vários momentos de desespero: saúde, afetivo, financeiro e, claro, educacional. Inclusive é autora do texto da contra capa do meu livro-reportagem do TCC Gestão de Crise Para Jornalistas Principaiantes. Então volto. Mas não exatamente como o “Dia do Fico”. Prefiro a versão da Fênix dos X-Men — porque drama, convenhamos, combina mais comigo e com jornalista raiz.
Voltar a escrever as crônicas talvez faça mais sentido agora do que quando ela começou. Porque, olhando para trás, todas aquelas histórias aparentemente soltas acabaram formando algo maior: um universo próprio, cheio de personagens verídicos improváveis, caos cotidiano, humor involuntário e bastidores que sobreviveram ao tempo — e a algumas reuniões que deveriam ter sido e-mails.
E é justamente aí que entra a comparação com a Saga da Fênix dos X-Men.
A Fênix nunca foi apenas sobre destruição ou retorno. Era sobre transformação. Sobre alguém que atravessa fases, perde partes de si, exagera, implode, reaparece diferente — mas ainda carregando a essência original. E talvez a coluna tenha seguido exatamente esse caminho.
Cada uma das crônicas publicadas foi quase um “mutante” daquele universo: o Fusca lotado da imprensa, os equívocos inocentes, os cinzeiros pedagógicos, os tombos históricos, os improvisos da Denise, os personagens excêntricos da redação, o caos elegante dos suplementos, as broncas, os brigadeiros, os deadlines e até os pequenos desastres sociais. Tudo isso construiu uma mitologia própria — sem superpoderes, mas com algo talvez mais raro: humanidade. E cafeína. Muita cafeína, além da cerveja e do bombeirinho na rede de botecos do Zé (qualquer um aberto é da rede).
O humor nunca foi fuga da realidade. Pelo contrário. Funcionou como lente de aumento para enxergar o jornalismo além da notícia fria. As crônicas mostraram que, por trás das manchetes, existiam pessoas tentando sobreviver ao fechamento, à correria e às próprias trapalhadas — algumas delas dignas de prêmio, outras de processo administrativo.
E talvez seja justamente por isso que a coluna mereça continuar: porque encontrou um tom raro. Não era apenas nostalgia. Não era apenas humor. Não era apenas jornalismo. Era a mistura dos três — como toda redação caótica e minimamente funcional costuma ser.
A “Fênix” desse universo não precisaria voltar grandiosa ou épica. Bastaria retornar como sempre foi: observando o cotidiano, transformando bastidor em narrativa e rindo daquilo que, no fundo, todo jornalista já viveu — mesmo quando jura, em ata e sob testemunha, que não.
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Além disso, existe algo poderoso em revisitar essas histórias hoje: elas ajudam a preservar um tipo de jornalismo que praticamente desapareceu. As redações barulhentas, os personagens folclóricos, o improviso analógico, os erros humanos sem filtro digital. As crônicas acabaram virando um registro afetivo de uma época — quando “subir matéria” ainda parecia uma missão espacial.
E talvez o maior argumento para continuar escrevendo seja exatamente esse: ainda existem muitas histórias entre uma linha e outra.
A Fênix sempre volta porque algumas histórias simplesmente se recusam a terminar. E, sejamos honestos, jornalista também tem uma leve dificuldade em encerrar texto.

MIGUEL ÉDI GOMES
É jundiaiense, tem 54 anos. É formado em jornalismo pela UniFaccamp e atualmente faz parte da equipe da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
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