Quem nunca dançou a famosa valsa vienense pelo menos uma vez na vida? O compositor Johann Strauss, como todos os demais compositores, tinha na alma a sensibilidade para captar aquilo que nossos olhos não veem. E imortalizou o célebre rio europeu na música que ganhou o mundo. O Danúbio naquela época tinha coloração verde-acinzentada, não muito diferente do que é hoje. Mas torná-lo azul como as águas oceânicas refletia de forma perfeita o espírito musical da Áustria de então, junto aos seus castelos, palacetes, pontes, praças, jardins. O Danúbio precisava ser azul! E o título levou inspirações para todos os continentes.

Mas o azul fluvial nunca ficou restrito ao Danúbio. Strauss apenas deu mais luminosidade e coroou. Nós, desde pequenos, nos acostumamos a imaginar e pintar os rios de azul. Assim está na maioria dos mapas, quadrinhos e obras de arte. Até nas bandeiras, e o maior exemplo está na bandeira de Jundiaí.

Quando começou a associação das águas dos rios à cor dos oceanos? Parece algo simples ou até bobo. Mas a cor azul diz muito mais do que as explicações técnicas acerca dos efeitos da luz solar na atmosfera e no mar. O azul vem dos mais profundos e misteriosos canais universais, ligando o interno humano ao externo. Já muito antes dos avanços dos estudos na área da Psicologia e da espiritualidade, a cor azul era usada para designar os aspectos espirituais do homem, de Deus, do cosmo. É a cor que leva à meditação, ao transcendental, aos sonhos. Representações de anjos sempre estiveram juntas às cores branco e azul. No decorrer dos anos muitas igrejas, deixando as antigas cores escuras, passaram a ser pintadas de branco e azul – estranhamente de vinte anos para cá começaram a mudar isto, o que também em nada altera a representação do azul, ele é imutável.

Além do aspecto espiritual, o azul penetra pelos nichos da literatura, das marcas… quantas poesias e canções ressaltam os mistérios desta cor? O céu azul, sinônimo de dias tranquilos, de paz… paz celestial, azul-celeste. Nós aqui olhamos para o firmamento azul-celeste e do espaço, o planeta azul, também reproduzido numa famosa canção sertaneja. Embora o azul das águas marinhas não seja consequência direta do céu azul, o que está embaixo é ligado ao que está em cima. E no meio dessas ligações estão todas as peças do quebra-cabeça da envolvente cor. Não foi preciso estudar esse quebra-cabeça para se chegar ao Danúbio Azul. Foi o automático. Nós todos somos automáticos e questionamos… para que se importar com a cor azul aos rios? Sabemos que não são, mas nas representações sempre os visualizaremos como azuis. Por mais que repudiemos a romantização, ela está numa gaveta dentro de nós e usamos inconscientemente. Continuaremos pintando os rios de azul por mais que olhemos diariamente a tonalidade de suas águas, sempre com cores escuras, marrom, cinza, preto. Assim como não buscaremos saber como está o rio Danúbio hoje. Aliás, nem nos lembramos dele quando vemos os ônibus daquela empresa paulista chamada Danúbio Azul. O que nos satisfaz é o soar agradável da palavra. E de agradável em agradável, passamos reto pela realidade de nossos rios.

Deixemos por uns instantes o azul. Os rios podem ter tonalidades esverdeadas, cinza, até um cinza meio azulado. Assim como os mares. O Mar Negro é escuro. O Mar Vermelho é algo puxado do marrom para o vermelho, devido à presença de ferro. Mas a predominância nas águas oceânicas, devido aos raios solares, é o tom azulado. Afinal, qual a cor de nossos rios? Sabemos que o Negro é cor escura e o Solimões é marrom, barrento, por isso não se misturam quando se encontram. Fora estes dois clássicos, não sabemos as cores de nossos rios, digo aqui, paulistas. Porque a maior parte está poluída. O Danúbio já tinha poluição na época de Strauss. O Tâmisa foi despoluído, mas ninguém comenta sua cor. Como ninguém comenta do “Velho Chico”, do rio Paraná. Nem do Tietê, quando se fala em Tietê imediatamente lembramos as espumas. Até que chega alguém aqui, criativo e, querendo dar um basta, “lacra” dizendo “uns 50 tons de cinza em todos os rios”. E nessa, onde ficou o azul? No nosso hábito, romantizado, simbólico, poético. A cor que representa o infinito, a serenidade, a paz celestial, a mansidão do oceano, também se imortaliza revestindo nossos rios, aqueles de água doce, que fornecem a água que bebemos, que deve estar transparente. Nem azul, nem barrenta, nem em tom algum de cinza. A água é vida. A vida veio das águas. A vida veio do azul aqui de baixo, mas inicialmente lá de cima; relembrando, o que está abaixo também está acima. Vice-versa. Nossos rios não são azuis. E o Danúbio, que também não é azul, sempre nos lembrará: o céu azul é uma ilusão de ótica, mas existe. Nossos olhos enxergam sua existência, assim como em nossa imaginação, os rios tornam-se azuis, o que deveria nos motivar a lutar pela despoluição de todos eles… não se tornarão azuis, mas próximos do nosso imaginário. Strauss estava certo.(Foto: www.gullitours.it)

GEORGE ANDRÉ SAVY

Técnico em Administração e Meio Ambiente, escritor, articulista e palestrante. Desenvolve atividades literárias e exposições sobre transporte coletivo, área que pesquisa desde o final da década de 70.

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