O cenário político recente brasileiro revela uma transformação importante na organização da direita (e suas vertentes) nacional. Se, de um lado, a consolidação de um eleitorado conservador e pragmático tem impulsionado novas lideranças nos espaços executivos e legislativos, de outro, a pauta de costumes permanece como um dos principais dispositivos de mobilização política, especialmente nas redes sociais. Mais do que um conjunto de opiniões sobre comportamento, família ou moralidade, essa agenda opera como uma linguagem política capaz de produzir pertencimentos, estabelecer antagonismos e organizar percepções sobre direitos, Estado e cidadania.
É nesse terreno que ganha relevância a emergência de discursos que procuram negar conceitos jurídicos e sociológicos já consolidados. A afirmação de que “o feminicídio não existe”, acompanhada da formulação aparentemente universalista segundo a qual “toda morte importa”, não deve ser compreendida apenas como uma opinião isolada sobre legislação penal. Ela integra uma gramática política mais ampla, na qual a especificidade das desigualdades de gênero é substituída por uma ideia abstrata de igualdade entre indivíduos. O problema dessa operação discursiva está justamente no deslocamento produzido pela linguagem. Ao afirmar que toda morte possui o mesmo valor, o argumento parece, à primeira vista, defender uma universalidade incontestável. Entretanto, universalizar não significa necessariamente produzir igualdade. Quando diferenças concretas de contexto, vulnerabilidade e recorrência são apagadas em nome de uma categoria abstrata de “vida”, a desigualdade deixa de aparecer como problema estrutural e passa a ser tratada como uma sucessão de acontecimentos individuais.
O feminicídio é um dos principais campos em que essa disputa semântica se manifesta. A recusa da direita costuma partir da ideia de que o homicídio já seria suficiente para nomear o assassinato de uma mulher e que a criação de um qualificativo relacionado ao gênero produziria uma espécie de fragmentação da igualdade jurídica. Nessa perspectiva, o assassinato seria explicado fundamentalmente pela conduta individual do criminoso, e não por relações sociais marcadas pela misoginia, pela violência doméstica, pela desigualdade de poder ou pelo menosprezo à condição feminina.
Essa leitura, entretanto, confunde igualdade formal com igualdade material. O reconhecimento jurídico de determinadas formas de violência não significa afirmar que uma vida vale mais do que outra. Significa reconhecer que determinadas formas de violência possuem condições sociais específicas de produção e, portanto, exigem instrumentos específicos de prevenção, investigação e responsabilização.
No ordenamento jurídico brasileiro, o feminicídio foi incorporado ao Código Penal pela Lei nº 13.104/2015 e posteriormente recebeu tratamento legislativo mais rigoroso. A categoria não se aplica indistintamente a toda mulher assassinada. Ela está vinculada a circunstâncias que caracterizam o crime como decorrente de violência doméstica e familiar ou de menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Trata-se, portanto, de uma categoria jurídica destinada a nomear uma modalidade específica de violência letal.
A discussão se torna ainda mais complexa quando incorporamos o transfeminicídio. Se o feminicídio permite nomear a dimensão de gênero de determinados assassinatos de mulheres, pensar o transfeminicídio significa reconhecer que mulheres trans e travestis também são atingidas por formas específicas de violência letal, atravessadas pela transmisoginia, pela desumanização e pela recusa de sua existência social e de gênero. Não se trata de estabelecer uma hierarquia entre vítimas, mas de compreender que diferentes corpos podem estar submetidos a diferentes regimes de violência. A fórmula “toda morte importa”, quando utilizada para apagar essas diferenças, produz novamente o mesmo efeito: transforma desigualdades historicamente produzidas em acontecimentos individuais e impede que a violência seja compreendida em sua dimensão estrutural. Nomear o transfeminicídio, portanto, não significa fragmentar a universalidade da vida; significa ampliar a capacidade de reconhecer como determinados corpos são sistematicamente expostos à morte, à violência e à exclusão. Nesse sentido, a disputa em torno da palavra é também uma disputa pelo reconhecimento de quem pode ser plenamente reconhecida como sujeito de direitos.
A diferença é fundamental. Homens são, em números absolutos, as principais vítimas de homicídios no Brasil, especialmente em contextos relacionados à violência urbana, conflitos territoriais e criminalidade organizada. Isso, porém, não elimina a especificidade da violência letal sofrida por mulheres dentro de relações domésticas, familiares e afetivas. O lugar em que a violência ocorre, a relação entre vítima e agressor, as motivações e os mecanismos de controle envolvidos constituem elementos relevantes para a compreensão do fenômeno.
É justamente nesse ponto que a retórica universalista se torna politicamente eficaz. A expressão “toda morte importa” é verdadeira em seu sentido mais elementar, mas pode produzir uma consequência política bastante diferente quando utilizada para contestar políticas destinadas a grupos submetidos a formas específicas de violência. O universal, quando mobilizado para apagar a diferença, deixa de funcionar como princípio de igualdade e passa a operar como mecanismo de invisibilização.
A gramática antifeminista contemporânea também costuma articular essa universalização a uma valorização extrema da responsabilidade individual. Em lugar de políticas públicas estruturadas de prevenção, acolhimento e proteção, ganham espaço respostas centradas no indivíduo, como a defesa do armamento feminino, o endurecimento genérico das penas e a responsabilização individual do agressor sem consideração suficiente pelos contextos sociais em que a violência se produz.
Essa mudança não ocorre isoladamente. Ela participa de uma reorganização mais ampla da direita brasileira, cuja força atual não depende exclusivamente de um único partido, de uma liderança nacional ou de uma ideologia homogênea. O campo se tornou mais diversificado, combinando conservadorismo moral, interesses econômicos, força política do agronegócio, defesa do empreendedorismo, capilaridade municipal e legislativa e, sobretudo, um ecossistema comunicacional próprio.
A direita contemporânea aprendeu a operar simultaneamente em diferentes escalas. No plano cultural, mantém forte apelo a discursos sobre família, religião, segurança e autoridade. No plano econômico, aproxima-se de setores que defendem menor intervenção estatal, desregulamentação, liberdade de mercado e proteção da propriedade privada. No plano institucional, constrói presença continuada nos legislativos municipais, estaduais e federal. E, no plano comunicacional, utiliza redes sociais, podcasts, canais próprios e perfis de grande alcance para estabelecer uma relação direta com o eleitorado.
Essa última dimensão talvez seja uma das mudanças mais significativas. A política deixou de depender exclusivamente dos meios tradicionais de mediação. A figura pública pode construir audiência antes de construir uma trajetória partidária. Pode transformar controvérsia em visibilidade, visibilidade em comunidade e comunidade em capital eleitoral. A lógica da comunicação digital favorece, nesse contexto, personagens capazes de produzir identificação imediata, conflito permanente e mensagens de fácil circulação.
É nesse ambiente que alguns atores parecem ter “pulado etapas” da política tradicional. Influenciadores digitais, comunicadores e figuras públicas vinculadas ao discurso antissistema conseguem, em determinadas circunstâncias, converter audiência em votos com velocidade muito superior àquela experimentada por políticos cuja trajetória depende de estruturas partidárias convencionais.
O fenômeno, contudo, possui seu contraponto. A mesma transformação que produz ascensões rápidas também pode interromper carreiras políticas que não conseguem acompanhar a linguagem digital contemporânea. Políticos tradicionais, burocratas e lideranças com forte presença institucional podem perder capacidade de comunicação quando sua linguagem permanece restrita aos códigos convencionais da política.
Há, entretanto, uma terceira possibilidade: a liderança que consegue furar a bolha. O discurso radical de costumes pode produzir engajamento intenso entre o núcleo mais mobilizado do eleitorado, mas a conquista de espaços executivos mais amplos frequentemente exige uma capacidade adicional de diálogo com segmentos moderados e pragmáticos. Nesse ponto, a gestão pública, a infraestrutura, a economia e a entrega concreta de resultados podem funcionar como pontes entre a identidade ideológica e um eleitorado menos interessado na guerra cultural permanente.
Essa combinação talvez seja uma das chaves para compreender a reorganização atual da direita brasileira. O radicalismo discursivo não desaparece; ele pode permanecer como mecanismo de mobilização da base. Ao mesmo tempo, determinadas lideranças procuram apresentar-se como administradoras, gestoras ou representantes de uma racionalidade prática, deslocando parcialmente o foco das disputas culturais para a eficiência administrativa.
O resultado é uma arquitetura política na qual diferentes linguagens podem coexistir. A guerra cultural mobiliza; o pragmatismo eleitoral amplia; a comunicação digital capilariza; a presença institucional consolida. A força política não está necessariamente em escolher uma dessas dimensões, mas em fazê-las operar conjuntamente.
É justamente essa combinação que merece atenção quando observamos o avanço de discursos antifeministas. A questão não está apenas na existência de opiniões contrárias ao feminismo, mas na possibilidade de que determinadas formulações se transformem em linguagem institucional e política pública. Quando categorias destinadas a reconhecer desigualdades concretas são apresentadas como privilégios ideológicos, cria-se uma disputa sobre a própria legitimidade de políticas de proteção.
O risco é que a guerra cultural substitua progressivamente o debate programático. Em uma arena política dominada pelo engajamento, a complexidade de temas como saúde, educação, tributação, segurança pública e proteção social pode perder espaço para mensagens concebidas prioritariamente para gerar identificação e conflito. O antagonismo passa, então, a valer não apenas como instrumento retórico, mas como método de construção de comunidade política.
Há ainda uma consequência institucional importante. A proliferação de candidaturas assentadas fundamentalmente sobre a imagem individual pode enfraquecer a função dos partidos como espaços de formação política, elaboração programática e construção coletiva. Quando o capital eleitoral está concentrado na personalidade de um indivíduo, a relação entre mandato, partido e projeto político pode se tornar mais instável.
Por isso, compreender a nova direita brasileira exige olhar para além da oposição convencional entre esquerda e direita. É necessário observar as gramáticas que organizam o discurso, os mecanismos digitais que produzem visibilidade, as redes econômicas e territoriais que sustentam as muitas candidaturas e as formas pelas quais determinadas controvérsias culturais são convertidas em capital político.
O antifeminismo, nesse cenário, pode funcionar como uma das linguagens por meio das quais a direita reorganiza sua relação com o eleitorado. Ao contestar categorias como feminicídio, misoginia, patriarcado, transfeminicídio e violência de gênero, determinados discursos não estão apenas discutindo palavras ou dispositivos legais. Estão disputando quem possui legitimidade para nomear a violência, quais diferenças sociais podem ser reconhecidas pelo Estado e quais vidas podem aparecer como politicamente vulneráveis.
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A disputa, portanto, é também semiótica, uma vez que nomear uma violência é produzir uma forma de inteligibilidade sobre ela, e recusar seu nome não elimina necessariamente o fenômeno; pode sim, alterar a maneira como ele será percebido, mensurado, denunciado e, principalmente, enfrentado. Uma gramática do antifeminismo encontra a reorganização contemporânea da direita, mas ambas operam sobre a disputa pelos sentidos. Não se trata apenas de saber quem vencerá uma eleição, mas quem conseguirá definir as palavras pelas quais uma sociedade compreenderá a si mesma.
Acreditamos que a questão política mais profunda do nosso tempo esteja entre a disputa pelo poder que passa também a ser uma disputa pela possibilidade de nomear a realidade, e como sabemos, quem controla a gramática não controla apenas o discurso, passa a disputar as próprias condições de existência do que pode ser reconhecido como problema, como direito e como violência.(Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)

SARA WAGNER YORK
É psicanalista, jornalista, pedagoga, biomédica, doutora e mestra em Educação/ UERJ. PosDoc UNESP/ FAPESP. Primeira travesti a ancorar no jornalismo brasileiro. Imortal da Academia de Letras do Rio de Janeiro e percursora nas discussões das cotas trans no Brasil.
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