Distanciamento social: Fraternidade, amizade e admiração

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Há quem diga que a vida só mostra seu peso nas horas de silêncio. Talvez seja verdade. Em tempos de distanciamento social — essa expressão que entrou na rotina como se fosse visita antiga — descobrimos que o silêncio pode falar mais alto que qualquer multidão. Ele nos ensinou que pessoas não se fazem apenas de presença física. Às vezes, consistem de um fio invisível, delicado, firme, que liga o que sentimos ao que lembramos, o que queremos ao que nos falta.

Fraternidade, amizade e admiração: três palavras que sempre estiveram entre nós, mas que ganharam outras cores quando a porta da rua deixou de ser passagem e virou fronteira. Antes, eram conceitos que encostavam os braços uns nos outros num café, se abraçavam em encontros rápidos, se comprimiam em transportes públicos, riam alto em mesas apertadas. Agora, precisaram aprender a atravessar a distância como quem atravessa uma ponte estreita, com cuidado para não perder o equilíbrio, com carinho para não esquecer de onde veio, com coragem para continuar indo.

A fraternidade — essa irmã mais velha das relações humanas — precisou reaprender a caminhar. Antes, ela se fazia no toque espontâneo: a mão no ombro, o aperto de braço, o abraço sem aviso. Agora, com o distanciamento, precisou virar gesto de outra natureza. Tornou-se o “você está bem?” enviado por mensagem num dia comum; a lista de compras deixada discretamente na porta de alguém vulnerável; o telefonema que substituiu o café; a preocupação que, mesmo à distância, não enfraqueceu. Fraternidade virou cuidado silencioso, presença sem corpo, mas não sem alma.

A amizade, por sua vez, transformou-se em algo quase artesanal. Antes era abundante, espalhada, vivida no improviso. Agora, virou peça lapidada: exige intenção, escolha, investimento. Tornou-se aquela videochamada sem motivo, aquela risada que atravessa a tela, aquele “me conta” que não espera resposta perfeita, mas resposta sincera. Amigos, nesses tempos, se tornaram testemunhas umas das outras: das quedas discretas, das pequenas alegrias, do desânimo que aparece sem pedir licença, do fôlego que volta do nada. É bonito perceber como a amizade, mesmo privada da convivência física, não perdeu sua capacidade de reinventar o encontro.

A admiração, então, ganhou sutileza. Admirar alguém à distância é reconhecer sua força não pelos gestos grandiosos, mas pelos pequenos atos cotidianos, quase invisíveis, que não aparecem na vitrine do mundo. Admirar agora é perceber quem continuou sendo gentil mesmo cansado; quem manteve a esperança mesmo quando os dias pareceram repetidos demais; quem se seguiu oferecendo ao outro algo que o mundo inteiro parecia negar: leveza. Admirar é notar que existem pessoas que, mesmo sem abrir a porta de casa, continuam abrindo janelas dentro da gente.

Mas, em meio a tudo isso, também houve o aprendizado da falta. E a falta não deixa ninguém ileso. Faltou o toque, faltou a presença, faltou a espontaneidade dos encontros improvisados que aconteciam entre uma tarefa e outra. Faltou o abraço que não tem equivalente digital, faltou o olho no olho que diz aquilo que nenhuma frase consegue alcançar. Mas a falta, curiosamente, reforçou aquilo que sempre soubemos, mas fingíamos esquecer: que o vínculo não está apenas na presença física, mas naquilo que a presença desperta em nós.

Talvez tenhamos redescoberto que a fraternidade é esse compromisso involuntário com o bem do outro; que a amizade é essa lealdade tranquila que não exige alarde; que a admiração é essa capacidade de enxergar grandeza nos gestos mais simples. E, quando tudo nos foi tirado — o encontro, o toque, a rotina —, percebemos que o essencial continuou: a vontade de permanecer conectados.

Houve dias em que acordamos com a sensação de que o mundo estava um pouco mais estreito. O corredor de casa ficou longo demais, a janela pequena demais, o tempo lento demais. Mas sempre havia aquela mensagem inesperada, aquela foto compartilhada, aquele áudio enviado à noite — uma espécie de abraço enviado por correspondência. Pequenos respiros que lembravam: não estamos sozinhos.

É curioso como o ser humano, mesmo nos períodos de maior isolamento, de distanciamento, encontra maneiras de insistir na presença. Algumas amizades se fortaleceram justamente porque o silêncio deu espaço para conversas mais profundas. Outras se afastaram, não por falta de afeto, mas porque cada um precisou encontrar uma forma própria de sobreviver emocionalmente a esses dias diferentes. E tudo bem. O tempo também sabe escrever suas crônicas, embora às vezes com caligrafia torta.

O que fica, no entanto, é a certeza de que viver é esse exercício contínuo de ajustar-se às distâncias. Às vezes estamos perto e, mesmo assim, desencontrados. Outras vezes, estamos longe, mas surpreendentemente próximos. A fraternidade, a amizade e a admiração sempre foram mais sobre intenção do que sobre proximidade física. Sempre foram mais sobre o que fazemos com o que sentimos do que sobre o que conseguimos tocar com as mãos.

Nos últimos tempos, aprendemos que existem abraços que não precisam de braços, conversas que não precisam de mesa, encontros que não precisam de rua. Descobrimos que a presença tem muitas formas, algumas tão suaves que quase passam despercebidas — mas permanecem. Descobrimos que o afeto, quando é verdadeiro, não se assusta com a distância: aprende a recalcular rota, como quem dirige numa estrada desconhecida, mas sabe exatamente para onde quer voltar.

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E, no fundo, talvez seja essa a grande lição: não voltaremos os mesmos, mas voltaremos juntos. Ou pelo menos com a certeza de que, mesmo quando o mundo parece mais distante, a fraternidade ainda sabe estender a mão, a amizade ainda sabe esperar, e a admiração ainda sabe iluminar. Porque algumas relações — as que realmente importam — não vivem de proximidade. Vivem de permanência. E permanecer, em tempos difíceis, é o gesto mais bonito que alguém pode oferecer.(Foto: Serinus/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO 

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.

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