Há dores que gritam. Outras, mal conseguem sussurrar. Vivemos em uma sociedade que aprendeu a classificar quase tudo — sucesso, fracasso, urgência, produtividade — e, inevitavelmente, passou a classificar também a dor. Criamos escalas invisíveis, comparações silenciosas, julgamentos travestidos de bom senso. Passamos a medir sofrimentos como se fossem objetos empilháveis: este é maior, aquele é menor; este é legítimo, aquele é exagero. Mas a dor não aceita régua. Não se deixa pesar. Não se submete ao olhar de quem está de fora. Ainda assim, insistimos.
Quando alguém perde alguém, esperamos um tempo “adequado” de luto. Alguns meses parecem aceitáveis; anos, já soam como apego excessivo. Há quem diga que é preciso “seguir em frente”, como se a dor fosse um desvio e não um território permanente que se aprende a habitar. O que poucos admitem é que o luto não diminui — ele muda de forma. E ninguém, absolutamente ninguém, pode definir quando essa mudança deve acontecer.
A dor de quem perde um pai não é comparável à dor de quem perde um filho. Mas também não é comparável à dor de quem perde um amor, um projeto, um sentido. Não porque sejam iguais, mas porque não são comparáveis. O erro começa exatamente aí: na tentativa de comparar. Há dores que recebem acolhimento imediato. São socialmente reconhecidas. Um diagnóstico grave, um acidente, uma morte. Para essas, há silêncio respeitoso, flores, abraços.
Outras dores passam despercebidas. A depressão que não tem rosto. A ansiedade que não sangra. A solidão de quem está cercado de gente. A dor de quem acorda todos os dias sem vontade de existir, mas com a obrigação de funcionar.
Essas costumam ouvir conselhos. “Isso é falta de fé”. “Você precisa ser mais forte”. “Tem gente em situação pior”. Como se a dor aceitasse argumento lógico. Talvez porque a sociedade valorize mais o sofrimento que pode ser explicado do que aquele que apenas é sentido. Aquilo que não se vê tende a ser minimizado. Aquilo que não se vive tende a ser relativizado.
Criamos, assim, uma pedagogia cruel da dor: aprendemos desde cedo que só algumas dores merecem respeito. As outras devem ser engolidas, resolvidas rapidamente, superadas em silêncio. Mas a dor não é educável. Ela não aprende a se comportar. Para quem sente, ela ocupa tudo. Para quem observa, ela quase nunca parece proporcional. E é nesse abismo que surgem os julgamentos mais violentos.
A dor emocional costuma ser a mais desacreditada. Talvez porque ela confronte a ilusão de controle que tanto prezamos. Se um osso quebra, ele pode ser engessado. Se a pele sangra, pode ser costurada. Mas o que fazer com a dor que mora no pensamento? Com a angústia que não encontra causa clara? Com o vazio que não responde a estímulos?
Preferimos chamar de fraqueza. Ou de drama. Ou de exagero. É mais fácil do que admitir que há dores que não sabemos cuidar. O curioso é que, em algum momento, todos sofremos. Cada um à sua maneira, por sua causa, em seu tempo. A vida é democrática nesse ponto: ninguém passa ileso. O que muda é o tipo de dor, a linguagem que ela usa, o espaço que lhe é concedido.
Ainda assim, seguimos insistindo em hierarquias. “Isso não é nada”. “Você vai superar”. “Eu já passei por coisa pior”. Talvez sem perceber que, ao fazer isso, não diminuímos a dor do outro — apenas aumentamos sua solidão. Porque sofrer já dói. Mas sofrer sem ser reconhecido dói mais.
A verdade incômoda é que a dor do outro sempre nos parece administrável. Vista de fora, ela parece suportável, controlável, até pedagógica. Vista de dentro, ela é absoluta. Não deixa espaço para comparação, apenas para sobrevivência.
E talvez seja justamente isso que nos falte como sociedade: a humildade diante da dor alheia. Não para entendê-la completamente — isso é impossível — mas para respeitá-la sem a necessidade de medi-la. Para aceitar que há dores que não se explicam, apenas se atravessam. E que ninguém sai de uma travessia igual a quem entrou.
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Quando aprendermos que a dor do outro não precisa ser compreendida para ser validada, talvez nos tornemos menos duros, menos apressados em julgar, menos convictos de nossas próprias certezas. Porque, no fim, todos sofremos. Por perdas, por ausências, por excessos. Por aquilo que foi, por aquilo que não foi, por aquilo que jamais será. E a dor — essa mestra silenciosa — nos lembra, sem pedir licença, que não há sofrimento pequeno quando ele ocupa um coração inteiro.
Talvez o maior sinal de humanidade não seja entender a dor do outro, mas reconhecer, com respeito e silêncio, que ela existe — mesmo quando não conseguimos tocá-la.(Foto: Ana Bregantin/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO
É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.
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