DROGAS: Pesquisa traça perfil de pessoas em situação de rua

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O Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina de Jundiaí(FMJ) realizou pesquisa para descrever as variáveis sociodemográficas e clínico-epidemiológicas da população em situação de rua e avaliar os fatores associados ao uso de drogas ilícitas em Jundiaí. O estudo foi realizado entre 2022 e 2023 e divulgado agora pelo SciELO (Scientific Electronic Library Online), biblioteca digital de acesso aberto que reúne revistas e artigos científicos de alta qualidade. A coordenadora do trabalho foi a dentista Marília Jesus Batista de Brito Mota(foto ao lado), que tem mestrado e doutorado em Saúde Coletiva pela Unicamp. O trabalho de campo e a investigação foram conduzidos pelo pesquisador Gabriel Vinícius Reis de Queiroz, com a colaboração da equipe do Consultório na Rua de Jundiaí. O Jundiaí Agora entrevistou Marília, que contou com o apoio de Gabriel(foto abaixo), mestrando pela FMJ, para as respostas:

Os participantes foram entrevistados em quais bairros?

As entrevistas foram realizadas em diferentes pontos da cidade onde havia maior presença de pessoas em situação de rua. Parte da coleta ocorreu em abrigos e equipamentos da assistência social, como a Casa de Passagem e o Centro POP. Outra parte importante aconteceu diretamente nos territórios de atuação do Consultório na Rua, especialmente em cenas de uso público de substâncias e locais com maior concentração desse público, como Fepasa, Sorocabana, São Camilo, Ivoturucaia, entre outros. A proposta foi justamente não restringir a pesquisa aos equipamentos institucionais, mas também alcançar as pessoas nos territórios onde elas efetivamente viviam, circulavam e permaneciam.

Quanto tempo levou este trabalho de campo?

O trabalho de campo(foto ao lado) como um todo durou pouco mais de um ano. Antes de iniciarmos propriamente as entrevistas, tivemos aproximadamente dois a três meses de ambientação nos territórios, acompanhando a equipe do Consultório na Rua em suas atividades. Nesse primeiro momento, a preocupação não era chegar às pessoas falando imediatamente sobre a pesquisa ou aplicando questionários, mas conhecer os territórios, compreender suas dinâmicas e, principalmente, construir vínculo e confiança com as pessoas que estavam nesses espaços. Depois desse período inicial de aproximação, iniciamos as entrevistas, e a coleta de dados ocorreu entre agosto de 2022 e setembro de 2023. Esse processo foi importante porque estamos falando de uma população que vivencia diferentes situações de vulnerabilidade e que, muitas vezes, tem motivos para desconfiar de abordagens institucionais. A presença continuada nos territórios facilitou o vínculo,  diálogo e a participação na pesquisa.

Vocês sofreram algum tipo de agressão? Teve morador de rua que se recusou a responder?

Não sofremos agressões durante o trabalho de campo. Tivemos, sim, algumas recusas, o que é absolutamente esperado e foi sempre respeitado, já que a participação foi voluntária. Também ocorreram situações em que a pessoa inicialmente não quis participar, mas, em outro momento da pesquisa, após novos encontros e maior aproximação, decidiu participar. Em outros casos, encontramos pessoas que estavam sob efeito intenso de álcool ou outras substâncias e que, naquele momento, não apresentavam condições adequadas para responder à entrevista. Nesses casos, a entrevista não era realizada e, quando reencontrávamos essa pessoa em outro dia, em condições adequadas e havendo interesse, ela podia ser novamente convidada. Houve ainda pessoas que simplesmente disseram que não queriam participar e essa decisão foi respeitada sem qualquer insistência. Não temos um número consolidado de recusas.

A maioria dessas pessoas é de outras cidades? Contaram os motivos para virem para Jundiaí?

A pesquisa não investigou especificamente a cidade de origem dos participantes nem os motivos que os levaram a vir para Jundiaí. Portanto, não podemos afirmar, com base nos nossos dados, que a maioria seja de outras cidades. Inclusive, pessoas que estavam apenas de passagem por Jundiaí, seguindo para outros lugares, não foram incluídas no estudo. O que investigamos foram os motivos relatados para estar em situação de rua, que é uma questão diferente. Entre os mais frequentes apareceram o uso de substâncias psicoativas, tragédias pessoais, violência doméstica e rompimentos familiares.

Esclareceram por que preferem morar nas ruas a procurar as redes assistenciais da cidade?

A situação de rua é um fenômeno complexo, atravessado por diferentes trajetórias pessoais e vulnerabilidades e não pode ser compreendida simplesmente como uma escolha entre permanecer na rua ou procurar um serviço ou rede assistencial. Nem sempre é uma preferência estar na rua. É muito importante compreender esta questão, pois muitas vezes julgamos erroneamente a condição de estar na rua ou minimizamos como se fosse apenas pelo fator financeiro, como falta de recursos para estar em uma “casa”. Porém, existem fatores mais complexos, que envolvem a saúde mental relacionados com esta condição. Os dados evidenciam que não há uma recusa generalizada da rede de atendimento: cerca de 58% disseram procurar os serviços de saúde quando precisam, e a maioria avaliou positivamente os serviços que já utilizou. Por outro lado, 22,6% relataram dificuldades relacionadas à forma como foram tratados. Então, a relação dessas pessoas com a rede é muito mais complexa do que simplesmente “preferir ficar na rua”.  É bom lembrar que a existência de um serviço não significa, por si só, que ele consiga responder às necessidades de todas as pessoas que estão nas ruas.

Foram entrevistadas 270 pessoas. Pouco mais de 85% foram homens. Isto foi aleatório ou existem mais homens vivendo nas ruas?

Nós entrevistávamos as pessoas que encontrávamos nos diferentes territórios e equipamentos e que atendiam aos critérios da pesquisa e aceitavam participar. Ao final, 85,2% dos participantes eram homens e 14,8% mulheres, mostrando uma predominância masculina bastante expressiva na população que conseguimos acessar. Mas é importante dizer que nossa amostra foi por conveniência, e não uma amostra aleatória de toda a população em situação de rua de Jundiaí. Por isso, não podemos afirmar que exatamente 85% de todas as pessoas em situação de rua da cidade sejam homens. Mas em outros estudos observamos que a maioria das pessoas em situação de rua são homens,

80,4% dos entrevistados já usaram ou fazem uso de drogas ilícitas. É um número alto para vocês?

Sim, é um número elevado e foi um achado importante da pesquisa. Mas é preciso fazer uma distinção: esses 80,4% incluem tanto quem fazia uso quanto quem já havia usado alguma substância ilícita ao longo da vida. No momento da pesquisa, 66,3% relataram uso e 14,1% disseram já ter usado.  Também é importante não reduzir a situação de rua ao uso de drogas. A pesquisa mostrou uma realidade muito mais complexa, marcada também por violência, sofrimento mental, problemas de saúde e vulnerabilidade social.

Que substâncias seriam essas?

As principais substâncias relatadas foram crack, maconha e cocaína. O crack apareceu em 48,1% dos entrevistados, a maconha em 41,5% e a cocaína em 33%. Também houve relatos de ecstasy e drogas inaladas, mas em proporções menores. É importante lembrar que uma mesma pessoa podia fazer uso de mais de uma substância, então esses percentuais não devem ser somados.

Campanhas quem orientam a população a não dar esmolas são comuns. Pessoas em situação de rua e que são viciadas acabam usando a esmola para comprar drogas?

O estudo não investigou como as pessoas utilizavam o dinheiro recebido nas ruas, então não podemos afirmar que a esmola seja destinada à compra de drogas. O que os dados mostram é uma realidade mais complexa: o uso de substâncias está relacionado a diferentes situações de vulnerabilidade social. Inclusive, encontramos que não receber benefícios socioassistenciais esteve associado a uma maior chance de uso de substâncias ilícitas. Isso não significa que receber dinheiro impeça o uso de drogas, mas reforça que proteção social, acesso à renda e garantia de direitos fazem parte das estratégias de cuidado. Campanhas que orientam a população a procurar ou acionar a rede socioassistencial podem contribuir para aproximar essas pessoas dos serviços, mas é importante evitar a ideia de que toda ajuda financeira será necessariamente convertida em drogas, porque nossa pesquisa não sustenta essa afirmação.

Quando são citadas porcentagens sobre sofrimento mental, problemas no sono, desconforto digestivo e doença respiratória, seriam estes sintomas que essas pessoas sentem com o uso das drogas? Ou as drogas aliviariam estes sintomas?

Não podemos fazer nenhuma dessas afirmações a partir dos resultados, uma vez que não foi nosso objetivo. O que identificamos foi uma alta frequência de diferentes condições de saúde nessa população: 83% relataram sofrimento mental, 77,4% problemas no sono, 34,8% desconforto digestivo e 31,5% doenças respiratórias. Mas esses problemas não podem ser atribuídos diretamente ao uso de drogas. Inclusive, sofrimento mental, problemas no sono e desconforto digestivo não apresentaram associação estatisticamente significativa com o uso de substâncias ilícitas na nossa análise. Portanto, o estudo mostra que existe uma importante carga de adoecimento nessa população, mas não permite dizer que as drogas causaram esses problemas ou que eram utilizadas para aliviá-los.

Foram entrevistadas pessoas usuárias de drogas e que tem o ensino médio completo ou mais. O que este dado quer dizer?

Esse resultado precisa ser interpretado com bastante cuidado. Ele não significa que ter mais escolaridade leve ao uso de drogas, nem que essas pessoas se frustraram por terem estudado e acabaram nas ruas. Também não podemos concluir o contrário, que a baixa escolaridade e a falta de emprego tenham levado essas pessoas à situação de rua. Ressalto que é um estudo transversal, e por isso como na pergunta anterior, não avalia causa e efeito, pois precisaríamos do tempo ao longo dos anos para ver essa questão. O que encontramos foi uma associação estatística: dentro da população que estudamos, as pessoas com ensino médio completo ou mais apresentaram maior chance de relatar uso atual ou anterior de substâncias ilícitas quando comparadas àquelas com ensino fundamental incompleto. Por isso, escolaridade não deve ser interpretada como causa ou fator de risco para o uso de drogas. Esse achado mostra justamente como essas trajetórias são complexas e precisam ser investigadas para além de explicações individuais ou lineares.

A pesquisa também elenca itens como: mais de um ano em situação de rua; violência; tabagismo e não recebimento de benefício social. Elas se drogam por estes motivos?

O que podemos afirmar é que houve mais pessoas que usam substâncias e já tinham sofrido violência, fumavam, tinham mais de um ano na rua e não recebiam benefício social. Não foi um estudo para ver a causa do uso de substância, mas alguns indicadores de risco e que precisam ser aprofundados em estudos futuros. Esses resultados mostram que o uso de substâncias está inserido em um contexto mais amplo de vulnerabilidade social, e não que exista uma relação simples de causa e efeito. Por exemplo, a violência pode anteceder o uso de substâncias, mas também a própria vivência nas ruas pode aumentar a exposição à violência. Da mesma forma, quanto maior o tempo nas ruas, maior pode ser a exposição a diferentes vulnerabilidades. Como o estudo é transversal, não conseguimos determinar o que aconteceu primeiro. Esses fatores não devem ser entendidos como motivos isolados para o uso de drogas, mas como elementos que se relacionam dentro de um cenário complexo de vulnerabilidade. Ser um estudo transversal significa que avaliamos os indivíduos apenas uma vez, sem fazer um acompanhamento para conhecer antes e depois.

A pesquisa foi feita em 2023 e publicada recentemente. Acreditam que estes números possam ter aumentado?

É possível que esse cenário tenha se modificado, tanto para mais quanto para menos, mas não podemos afirmar isso sem uma nova investigação. Nossa coleta foi concluída em setembro de 2023 e os dados representam a realidade da população estudada naquele período. Depois da coleta existe todo um processo científico de análise dos dados, elaboração do artigo e avaliação por outros pesquisadores até a publicação. Por isso, embora tenha sido publicado recentemente, o estudo deve ser entendido como um retrato epidemiológico daquele momento, embora alguns estudos tragam um aumento na população em situação de rua.

Como a pesquisa de vocês pode ajudar a Prefeitura?

A pesquisa oferece dados locais que podem contribuir para o planejamento e aprimoramento das políticas públicas voltadas à população em situação de rua. Ela permite conhecer melhor o perfil dessa população, suas condições de saúde, situações de violência, uso de substâncias, acesso a benefícios e relação com os serviços. Os resultados apontam principalmente para a importância de fortalecer a articulação entre saúde, assistência social, saúde mental e demais políticas públicas, considerando as necessidades específicas dessa população. Nós também nos colocamos à disposição da Prefeitura e dos diferentes serviços do município para apresentar e esclarecer os resultados da pesquisa. Esse diálogo entre universidade e gestão pública é importante para que o conhecimento produzido possa efetivamente contribuir para o território. Além disso, as pesquisas com a população em situação de rua de Jundiaí continuam sendo desenvolvidas, o que pode trazer novos elementos para compreender as mudanças ocorridas desde a coleta de 2023. Temos interesse em compartilhar também esses novos conhecimentos à medida que forem sendo produzidos. Como foi uma pesquisa conduzida com apoio da Prefeitura e parceria do Consultório na Rua, acreditamos que os dados já estejam sendo usados para a tenção à saúde desta população. Também é importante destacar é que a situação de rua não pode ser explicada apenas pelo uso de drogas. A pesquisa encontrou uma população exposta a diferentes vulnerabilidades, com alta frequência de violência, sofrimento mental, problemas de saúde, pobreza e longos períodos vivendo nas ruas. O uso de substâncias é uma dimensão importante dessa realidade, mas não deve servir para definir essas pessoas ou explicar sozinho suas trajetórias. Estamos falando de uma população muito heterogênea, com histórias e necessidades diferentes. Esperamos que os resultados contribuam não apenas para o planejamento das políticas públicas, mas também para reduzir estigmas e ampliar a compreensão sobre a população em situação de rua, fortalecendo estratégias de cuidado, proteção social e garantia de direitos. A própria produção científica pode contribuir para combater preconceitos e melhorar o acesso e o acolhimento dessa população.(Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

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