Eleições: LGBT+ dá lucro. Quem fica com o dinheiro dos partidos?

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As eleições gerais de 2026 escancaram um paradoxo que a ciência política sabe nomear mas a militância partidária prefere não discutir. Os dados mais recentes do Tribunal Superior Eleitoral registram um crescimento de 57% nas candidaturas de pessoas LGBT+ em relação a 2022, e levantamentos de plataformas de monitoramento eleitoral, como o VoteLGBT, mostram que essas candidaturas não são efeito colateral simbólico, geram engajamento digital orgânico e atraem, em média, 30% mais votos que a média das candidaturas tradicionais das próprias legendas. Em outra matéria já havíamos lembrado que a maioria dos candidatos falam em LGBT+, mas não passa de um gay, ou um/a bissexual, ou ainda um/a trans, enquanto na prática não temos representantes intersexo, aliás  a única representante intersexo da política nacional se retirou da cena para seguir sua jornada acadêmica no doutorado, a co-deputada estadual por São Paulo, Carolina Iara (Bancada Feminista do PSOL). Mas, voltemos à prestação de contas parcial do mesmo pleito, no entanto, expõe o outro lado dessa equação — essas campanhas seguem recebendo as menores fatias do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário. Um eleitorado que rende votos e um corpo que não recebe caixa são, no jogo político brasileiro, a mesma pessoa.

Para entender esse fenômeno, que se repete tanto na micropolítica de cidades do interior paulista, quanto nas assembleias legislativas e no Congresso, prefiro abandonar o vocabulário da inclusão e recorrer à economia política do voto. Duas chaves teóricas iluminam o quadro. A teoria da escolha racional, de Anthony Downs, descreve partidos que não formulam ideologias para vencer eleições, mas vencem eleições para sustentar sua própria sobrevivência financeira e sua fatia de poder — a política como mercado, não como projeto. O tokenismo, de Rosabeth Moss Kanter, descreve a inclusão visível de sujeitos de grupos marginalizados em ambientes de poder em número pequeno o bastante para que funcionem como símbolo, nunca como maioria capaz de alterar a estrutura que os hospeda.

O que interessa é o ponto em que essas duas chaves se encontram, e é aí que reconheço um mecanismo que já venho descrevendo em outros contextos, o partido decide, antes de qualquer corpo LGBT+ entrar em cena, o que esse corpo vale e até onde ele pode ir. Chamo esse tipo de antecipação normativa de prolepCIS quando falo de escola; na arena das eleições, ela opera do mesmo jeito — calcula de antemão o rendimento simbólico de uma candidatura sem nunca cogitar redistribuir a ela poder decisório real. Em tempos de algoritmo que premia identidade e indignação, o corpo LGBTI+ candidato gera clique, militância voluntária e voto nômade, que se converte em quociente partidário e garante à legenda mais dinheiro público no ciclo seguinte. O eleitorado LGBT+ infla a bancada e o corpo que a infla continua de fora do orçamento de campanha.

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Esse extrativismo político (usar a bandeira da diversidade para higienizar a imagem da legenda e acumular capital eleitoral sem jamais redistribuir o poder que esse capital deveria comprar) produz exatamente o que tenho chamado, em outros textos, de subjetividade descartável: a candidatura que serve enquanto rende engajamento e desaparece do orçamento e da lista de prioridades assim que a eleição termina. O tokenizado, na formulação de Kanter, é aceito para validar a imagem moral da instituição, no Brasil de 2026, ele também é aceito para validar seu balanço financeiro, e isso é uma camada de mercantilização que a teoria original de Kanter, formulada para ambientes corporativos americanos, não previu com a mesma nitidez.

Não leio, portanto, o crescimento das candidaturas LGBT+ neste pleito como vitória automática da emancipação democrática. Sem a democratização radical dos recursos internos dos partidos — sem que o dinheiro siga o voto que esses corpos efetivamente rendem —, a inclusão permanece performática e o voto da diversidade continua financiando o mesmo status quo de sempre, agora com maquiagem mais recente. O mercado político já descobriu que a diversidade dá lucro em algumas instâncias, resta saber quando os partidos vão começar a pagar por ela — e a quem.(Foto: José Cruz/Agência Brasil)

SARA WAGNER YORK

É psicanalista, jornalista, pedagoga, biomédica, doutora e mestra em Educação/ UERJ. PosDoc UNESP/ FAPESP. Primeira travesti a ancorar no jornalismo brasileiro. Imortal da Academia de Letras do Rio de Janeiro e percursora nas discussões das cotas trans no Brasil.

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