Costumo dizer por aqui que sou cego. E, para quem acompanha minhas crônicas, provavelmente essa informação já não é nenhuma novidade. Mas existe uma coisa sobre não enxergar que continua aparecendo nas minhas conversas do dia a dia: a surpresa das pessoas quando me veem fazendo coisas que, para mim, são simplesmente parte da rotina.
Pegar ônibus sozinho, ir à padaria, trabalhar, usar uma ferramenta, resolver minhas coisas… Para algumas pessoas, parece que cada vez que faço algo do dia a dia, acabei de realizar uma façanha olímpica. E eu entendo. Muitas vezes, essa surpresa vem mais da falta de convivência com pessoas cegas do que de qualquer outra coisa. Às vezes, quando alguém fica muito impressionado, tenho vontade de brincar: “Calma! Eu só fui comprar pão. Ainda não escalei o Everest! Se eu aparecer com um pão francês e uma bandeirinha no topo, aí vocês podem se impressionar.”
O que essa situação me faz perceber é que, muitas vezes, as pessoas confundem não enxergar com não ser capaz. Talvez isso aconteça porque fomos ensinados a acreditar que determinadas coisas só podem ser feitas de uma única maneira. E, quando descobrem que existe outro jeito, parece que o cérebro dá aquela famosa travada: “Mas como assim? Ele fez isso sem enxergar?”
Eu mesmo gosto de desafiar essas ideias. Uma das coisas que faço é praticar Jiu-Jitsu. Sou faixa branca e treino com pessoas que enxergam. E, quando conto isso, aparece outra pergunta: “Mas como você luta sem enxergar?”
A resposta está justamente em aprender a perceber o mundo de outras formas. No Jiu-Jitsu, uso o tato, a audição, o equilíbrio, a memória corporal e, principalmente, a técnica. E também conto com uma habilidade muito importante: saber apanhar com dignidade e voltar ao treino na semana seguinte como se nada tivesse acontecido. Porque no Jiu-Jitsu a gente pode sair do treino andando normalmente por fora e fazendo um inventário completo das dores por dentro.
No último treino, resolvi fazer uma pergunta aos meus professores. Primeiro, ao Marcos, o Marcão, faixa-preta: o que ele pensou quando me viu chegando pela primeira vez, querendo aprender Jiu-Jitsu? Ele contou que havia feito um propósito com Deus de ajudar e transformar a vida das pessoas. Quando cheguei ao tatame, percebeu que ensinar uma pessoa cega seria um desafio, mas também uma oportunidade de fazer a diferença na minha vida. Só que ele descobriu que seria uma transformação para os dois.
Marcão precisou se reinventar. O que antes era ensinado principalmente pela visão passou a envolver tato, audição, contato físico e outras formas de ensinar. Ele entrou no tatame para me ensinar a lutar, mas acabou descobrindo que ensinar também é aprender a enxergar novas possibilidades. E olha que interessante: eu cheguei para aprender Jiu-Jitsu e ele acabou ganhando um aluno que não enxerga e ainda dá trabalho.
Depois fiz a mesma pergunta ao professor Elton. Para ele, também foi um desafio, porque nunca havia ensinado uma pessoa com deficiência visual. Ele disse que me ver enfrentando meus próprios desafios e estando ali no tatame já é uma motivação. E ainda falou algo que me fez pensar: por não depender da visão, às vezes consigo aprender determinados movimentos até com mais facilidade do que alguns alunos que enxergam. Confesso que essa parte eu gostei bastante. Afinal, depois de tanto tempo ouvindo que não conseguiria fazer as coisas por ser cego, finalmente descobri uma vantagem competitiva.
Até os dois entram na brincadeira. Quando vão rolar comigo, às vezes vendam os próprios olhos para experimentar como é lutar sem enxergar. E eu acho isso incrível, porque inclusão também é estar disposto a experimentar, aprender e se colocar no lugar do outro. Quando eles colocam a venda, por alguns momentos, estão jogando o mesmo jogo que eu, seguindo as mesmas regras que eu: sem enxergar, precisando confiar no tato, na audição e na percepção para descobrir o que está acontecendo. E, naquele momento, eles não estão apenas tentando entender como é lutar sem enxergar; estão entrando no meu mundo e enfrentando o desafio pelas minhas regras.
No fim, percebi que o tatame ensina muito mais do que golpes. A vida também é um tatame. Às vezes, entramos nela olhando para um obstáculo e pensamos: “Eu não consigo”. Outras vezes, alguém olha para nós e decide que não conseguiremos. Mas talvez o obstáculo não seja tão grande quanto parece. Talvez só precisemos encontrar outra maneira de enfrentá-lo.
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No Jiu-Jitsu, quando caímos, aprendemos a levantar. Quando uma posição não funciona, procuramos outra. Quando o adversário parece mais forte, usamos técnica, paciência e estratégia. Na vida não é diferente. Às vezes a gente leva um tombo, dá uma respirada, ajeita o quimono e continua. E, se estiver muito difícil, pelo menos podemos fingir que foi tudo parte da estratégia.
Então, se hoje existe alguma coisa que você acredita não conseguir fazer, não transforme o obstáculo em uma sentença. Experimente, adapte-se, peça ajuda, tente de outra maneira. Não permita que o medo, o preconceito ou até mesmo aquilo que você imagina sobre seus próprios limites decida antecipadamente onde você pode chegar.
Porque a vida é igual ao tatame: você pode até cair, pode até perder algumas lutas, pode até sair dela cheio de dor e pensando “por que eu fui inventar isso?”. Mas, enquanto tiver coragem para continuar, a luta ainda não terminou.(Foto: IA Gemini)

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA
É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.
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