E voltamos para o início dos anos 1990. Logo depois do Carnaval, a redação do Jornal de Jundiaí estava daquele jeito: fervendo. Repórteres pra cá, entrevistados pra lá, fotógrafos correndo, o telex batendo mais rápido que escola de samba no recuo da bateria e uma falação digna de final de Copa com o Brasil em campo. Essa redação foi palco de um equívoco inocente que cometi.
O mobiliário deste departamento? Balcões brancos de fórmica, onde mal cabiam dois jornalistas (mas a gente se espremia com dignidade). Eu, além de arriscar uns textos, também diagramava — e respondia diretamente à lendária Ivete Maria Aniquiário, que já nos deixou e agora, com toda certeza, coordena fechamento na Redação Celestial.
Ivete era quem fazia a reserva dos anúncios e distribuía as matérias conforme a importância: abre, retranca, linha fina, olho… E sexta-feira era um capítulo à parte: tínhamos que fechar o jornal de sábado e ainda adiantar o de domingo, com os suplementos Estilo, Jotinha e o mítico Modulinho de classificados — que, graças a Deus, não eram feitos por nós.
Algumas editorias viviam sua própria vida, sem nos preocupar: Théo Conceição reinava nas sociais, Marco Sapia domava a editoria de Polícia, e Mônica Gropelo comandava as variedades.
Como eu ajudava a Mônica, aprendi a avaliar releases que chegavam pelo Correio (e-mail? Só em filmes de ficção científica), além dos cadernos de TV enviados pelas emissoras. Às vezes, a Mô deixava uns “buracos” na página, e eu ia lá rebocar. Tudo zen: selecionava, calculava, diagramava e mantinha a paz no universo.
Até que chegou a sexta-feira e equívoco se aproximava.
Era por volta das 19h — aquele horário em que tudo dá errado ao mesmo tempo — quando Ivete percebeu minha ausência na bancada. Eu estava na sala da Mônica, dentro de um “aquário” de divisórias.
“Édiiiiiiii!”, ela gritou, com aqueles olhos que já diziam “corre que o desastre está vindo”. Voltei voando e expliquei: faltava matéria para fechar a página de domingo. “Você vai ligar na casa dela e mandar ela voltar e passar o material que falta”, disse Ivete. É bom lembrar: não existia celular, nem analógico. Era no fixo, raiz. Como diz minha irmã Shill Silva Pettian: quem pode manda, e quem é esperto obedece.
Eu e Mônica sempre tivemos uma relação ótima, cheia de apelidos nada ortodoxos. No terceiro toque, uma voz de pré-adolescente atendeu — a sobrinha da Mô. “Oi, aqui é o Édi da redação. A Mônica está?”. Educado, simpático, quase um príncipe. A menina tampou o bocal e anunciou: “Vó, o Édi do jornal!”. Eu juro que entendi “Mô”. E então… aconteceu. Do outro lado responderam: “alô?”
E eu, no automático do desespero editorial: “ô sua biscate, cadê as matérias pra fechar suas páginas? A Ivete tá me comendo a alma!”. A resposta veio afiada como facão de feira: “aqui é a mãe da Biscate. Vou procurar a biscate e mando ela voltar pra resolver a página”. Equívoco concretizado. Se eu fiquei branco? Não. Fiquei transparente.
A Ivete olhou pra minha cara e decretou: “a dona Adelaide quem atendeu!!!!”. Pronto: terceiro enfarte imaginário. Mônica é quase da minha altura, ex-atleta de vôlei, saudável, vegetariana. Eu calculava mentalmente qual parede seria melhor pra bater a cabeça. Mas ela optou por algo pior: a tortura psicológica.
Meia hora depois ouvi o ronco da DT (que funcionava sem chave, como toda moto raiz) chegando no portão do JJ. Não tive para onde correr. Ela entrou rindo, dizendo: “PQP! Chamar minha mãe de biscate!”. Eu estava suando frio, mas mantendo o profissionalismo. Ela entregou matéria, foto, até extra. Página fechada. Vida que segue… ou quase.
Um mês depois, coincidiu plantão meu, dela, do Marco Sapia e da Cláudia Marin. Mônica nos convidou para um café da tarde na casa dela. A mãe, dona Adelaide, tinha preparado lanches naturais maravilhosos. Eu, inocente, achei que o maior desafio seria entrar numa casa com um cachorro da raça Fila (eu tenho medo até de pincher). Mas a cachorra era mais educada que muito adulto. Entrei.
E aí veio a tortura 2.0. “Mãe, este aqui é o Marquinho, a Claudinha — que a senhora já conhece — e o Édi, que te chamou de biscate”, falou Mônica para dona Adelaide. Quarto enfarte do semestre. Fiquei tão pálido que quase pedi pra Fila me engolir e me guardar ali dentro, quietinho. E olha que naquela época eu era tão magro que cabia.
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Dona Adelaide me olhou nos olhos e disse: “fica tranquilo, filho. Por causa dela já me chamaram de coisa muito pior”. As vozes delas eram idênticas. Daquele dia em diante, eu sempre perguntava se estava falando com a mãe ou com a filha. Não que eu tenha parado de cometer gafes — algumas por telefone, outras ao vivo — mas dona Adelaide era puro afeto, um coração gigante. Sempre me tratou como filho. Saudades.

MIGUEL ÉDI GOMES
É jundiaiense, tem 54 anos. É formado em jornalismo pela UniFaccamp e atualmente faz parte da equipe da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
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