ESTRANHEZA TEMPORÁRIA. A depressão merece todo nosso respeito

estranheza temporária

Pensei que todos os leitores fossem plenamente alfabetizados, mas percebo que isso é pedir muito, porém como o destemperado sou eu, prefiro continuar meus atalhos, ainda que os julgamentos sejam infelizes e insensatos. Não diria que é da Natureza humana, mas que é da pouca compreensão humana. Isto fica mais apropriado. A crônica da semana passada foi a maneira que encontrei para dizer que minha estranheza temporária tem nome e é uma doença que eu aprendi a respeitar.

Quando expus a depressão, pensei em alertar aos desprevenidos, porque ela vai se instalando lentamente e vai dando sinais de que está se tornando robusta, forte e muito ardilosa. Ela trabalha na surdina, não deixando claro seu avanço e, de repente, quando perdemos o controle da situação ela já é senhora de nossas emoções e de nossos pensamentos.

Confesso que a sensação de imobilidade e tristeza é desagradável, porém um fato que mais me assusta ainda, pois ainda convivo com ela, é uma dor pesada e fria; uma dor num lugar indeterminado, que perpassa corpo e espírito, que atormenta e machuca por ser muito grande e intermitente (coisa que só quem já experimentou sabe exatamente do que estou falando) que eu prefiro dizer que é algo que dói na alma.

Sim, essa estranheza temporária acarreta numa vontade zero. Se depender de mim, fico 24 horas na cama. Às vezes sinto fome, outras nem tanto. Como estou inativo (sem atendimentos, sem leituras, sem aulas, sem compromissos) por recomendação médica, procuro cumprir o tratamento à risca e apenas me dedicar a minha recuperação, postulando que minha saúde é meu bem maior e, minha saúde mental, tem prioridade em tudo. Mas sinto falta de leitura, de bons filmes, de contatos verdadeiros e intensos.

Leituras e filmes terei muito tempo para repor aquilo que estou postergando. Aulas e orientações, também. Mas abraços, sorrisos e acolhimentos seriam bem vindos. Os verdadeiros, como os da última quarta-feira(1), quando resolvi sair para levar flores a uma amiga: aquele abraço me remeteu ao passado longínquo, ao passado recente e me assegurou um futuro promissor. É deste tipo de contato humano que falo.

Entretanto, como iniciei contando, alguns amigos acreditam que ao expor minha estranheza temporária acabei me fragilizando, me mostrei fraco e, que assim, ficaria marcado por um senha de doente mental ou desequilibrado. São interpretações que merecem ser respeitadas, por serem interpretações, mas não significa que sejam verdadeiras: ao contrário, foi preciso muita coragem e muita força para contar aquilo por que passa uma pessoa depressiva.

O fato de eu ser um profissional da saúde mental não me afasta da categoria de humano. O psicólogo não é um super-homem, mas uma pessoa comum com conhecimento e domínio de técnicas profissionais que permitem seu desempenho profissional. Ter medo, ter saudades, ter problemas de memória não é privilegio deste ou daquele humano: é uma das características do humano. Um profissional da saúde mental, que pertence ao gênero humano, na escala zoológica, pode, sim, passar por este caminho e deve ter sabedoria para superá-lo. Simples assim.

Lógico, é claro, que incomoda aos que se sentem humanos superiores. Pena. Lamento muito. Mas sou humano de outra categoria e como tal sinto dor, choro, amedronto-me diante do perigo, percebo lapsos, caio em vacilos, reconheço minhas limitações frente a essa estranheza temporária e temo por coisas que não domino. Sou um humano padrão, nada diferente da maioria. Minha lucidez se estabelece quando reconheço meu lugar no Mundo e, em especial, quando mantenho minha vontade de lutar por meus processos futuros. Sou chato com isso. Tenho Fé.

Então, diante disso, os comentários que me julgaram imprudente, perdem sua força. Obrigado, aceito-os, reverei meus posicionamentos, mas não seria eu. Agradeço pela leitura. Mas seguirei sendo o que enfrenta de modo transparente esta dor de alma, que apenas eu posso sentir e somente eu consigo aquilatar o tamanho dela. Continuo chorando, continuo tendo meus vacilos, continuo na luta; ainda que os gatilhos sejam inesperados, sou o mesmo, apenas avariado, no momento. Obrigado pela leitura.

No mais, o que falar? Que tenho descoberto pessoas maravilhosas que algumas já circulavam ao meu redor, mesmo que eu não conseguisse perceber. Encontrei pessoas que mereceriam ser chamadas de humanas por excelência (dedicam às ultimas horas da noite, quando os bebês estão dormindo, para me encorajar; veem direto do serviço para me dar apoio; atendem-me, em seus locais de serviço, com carinho e mandam mensagens para saber se cheguei bem em casa; ligam para parabenizar pelo dia de minha primeira profissão e dizem que são o que são por minha causa) e serei eternamente grato por isso.

Realmente não é o fim. É uma etapa. É uma estranheza temporária causada pela depressão, como disse no começo deste artigo. Obrigado Biga, Wilson, Pires, Silvana, Gabi, Nanci, Bete P., Alex, “Los Hermanos”, Kauan, “amor em tela” e todos os que acreditam nesta dor e nesta doença. Vocês me mostram que sairei deste lugar e tomarei posse do que é meu. Esta certeza é fortalecida pela amizade que vocês dedicam a mim: saberei ser grato, no meu plano de futuro; sempre confiei na humanidade, apesar de meus critérios rigorosos de seleção, porém nunca percam de vista que sei ser amigo e ser grato.

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Finalizo dizendo que, diante de tantos remédios, de tantos cuidados, de tanta terapia, sigo no caminho da Fé. De uma fé inabalável, profunda e sincera, sem misticismo e sem fantasias: os santos não descem para falar comigo, nem os orixás, nem os gnomos e fadas. Uma Fé madura, real e compromissada, que me mantém em pé e esperançoso. Unir a fé à ciência é uma receita inebriante e fortalecedora. Assim sigo meu caminho.

Termino agradecendo aos amigos, aos companheiros, aos parceiros, aos conhecidos, aos vizinhos e aos filhos da puta que me acompanham. Cada um de vocês é responsável pela minha recuperação e minha estabilidade mental. Com vocês todos, mais a Ciência que delimita meu tratamento e a Fé que indica meu caminho, logo estarei pronto para novas e grandes aventuras. Obrigado, mesmo.(Foto: zhuanlan.zhihu.com)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO 

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology. Aluno da FATI.

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