EXCOMUNHÃO

excomunhão

Écône é um vilarejo pequeno demais para o peso histórico que carrega. Foi ali, na Suíça, que Marcel Lefebvre fundou sua fraternidade em 1970, recusando o Concílio Vaticano II. Um concílio é uma assembleia solene de bispos de toda a Igreja, convocada para decidir sobre doutrina, disciplina ou reforma litúrgica, cujas decisões têm autoridade vinculante para todos os fiéis católicos. E foi ali, na manhã de 1º de julho deste ano, que a história voltou a se repetir quando dois bispos da Fraternidade São Pio X consagraram outros quatro sem autorização de Roma, contrariando um pedido pessoal do papa Leão XIV(foto) feito por carta um dia antes. Vinte e quatro horas depois, o Dicastério, órgão da Cúria Romana responsável por uma área específica de governo da Igreja, nesse caso, para a Doutrina da Fé, publicou o decreto que eu já imaginava desde que acompanho esse movimento: excomunhão automática para os seis religiosos envolvidos, e a declaração formal de que a Fraternidade se encontra em estado de cisma.

Não é a primeira vez. Em 1988, Lefebvre fez o mesmo gesto e recebeu a mesma pena. Naquela ocasião, um nome brasileiro esteve ao seu lado no altar: Dom Antônio de Castro Mayer, então bispo de Campos, no Rio de Janeiro, que coconsagrou os quatro bispos junto com Lefebvre e foi excomungado da mesma forma. É esse ato, feito há trinta e sete anos, que explica boa parte do que vejo hoje no eixo Rio–São Paulo, o legado de Castro Mayer pavimentou o terreno para que o estado de São Paulo se tornasse o maior reduto desse tradicionalismo extremista no país, com o Priorado Padre Anchieta, na capital, funcionando como polo administrativo de capelas espalhadas por Campinas, Itapetininga, Ribeirão Preto e, historicamente, também em Jundiaí, no Carmelo de São José.

A esse tronco histórico se soma hoje um combustível novo, a presença digital de Dom Carlo Maria Viganò. O ex-núncio apostólico (espécie de embaixador oficial da Santa Sé)nos Estados Unidos foi excomungado por cisma em 2024, por recusar publicamente a legitimidade do papa e do próprio Concílio Vaticano II, e desde então tornou-se uma das vozes mais consumidas pelas alas católicas radicais no Brasil, alimentando redes de desinformação e teorias conspiratórias contra o Magistério. Viganò não integra formalmente a FSSPX, mas sua retórica é a mesma que ecoa nas capelas do interior paulista com a rejeição ao diálogo ecumênico, desconfiança de qualquer pauta de direitos humanos, e a ideia de que a Igreja pós-conciliar seria uma espécie de traição.

Em suas redes sociais, Viganò destilou ataques violentos à própria Igreja ao classificar o Concílio Vaticano II como um “câncer ideológico, teológico, moral e litúrgico”, insuflando uma cruzada contra a modernização da fé. Alinhado às correntes da extrema-direita global, o prelado (autoridade de alto escalão) radicalizou sua militância digital ao direcionar ofensas explícitas à política institucional norte-americana, chegando a rotular a então vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, como um “monstro infernal” em cartas abertas aos fiéis. Essas declarações ultrajantes evidenciam o descolamento dessa ala radical do Evangelho e alimentam o reduto de intolerância que ecoa nas capelas conservadoras do interior paulista, minando o diálogo democrático e as políticas de direitos humanos.

O contraste com o estilo do atual pontífice não poderia ser maior. Leão XIV assumiu o papado cultivando uma imagem propositalmente próxima da juventude, aparece de tênis Nike em documentários oficiais do Vaticano, fala abertamente de sua paixão por tênis de quadra, herdou e mantém ativa a conta @Pontifex nas redes sociais, e chegou a reproduzir, sorrindo, o gesto de um meme viral diante de um grupo de jovens no Vaticano. Não é ordem do acaso, é estratégia deliberada de comunicação, pensada para reduzir a distância entre o trono de Pedro e uma geração que vive on-line. Justamente por isso a reação da FSSPX incomoda tanto. Enquanto o centro da Igreja tenta se aproximar do mundo contemporâneo com Nike, tênis de quadra e memes, a periferia mais radical do catolicismo tradicionalista reage na direção oposta, recuando para um púlpito de latim e véus onde certas vidas seguem sendo tratadas como desvio.

Eu escrevo sobre esse fenômeno há mais tempo do que gostaria. Em 2018, publiquei um artigo, a convite do antropólogo e amigo, Estevão Fernandes, em que tentava entender por que certas pautas de gênero atravessavam com tanta força salas de aula brasileiras vindas de discursos eclesiásticos que, à primeira vista, pareciam distantes da política nacional.

periodicos.ufam.edu.br – Para isso, me apoiei nas leituras de Sara Garbagnoli, pesquisadora que dedicou boa parte de sua obra a mapear como o Vaticano construiu, ao longo de décadas, uma retórica específica contra o que passou a chamar de “ideologia de gênero”. Garbagnoli mostrou algo que hoje me parece ainda mais evidente, essa retórica não nasceu como reação a um fenômeno social espontâneo, mas foi articulada deliberadamente como estratégia discursiva de contenção, depois exportada para episcopados de todo o mundo, inclusive o brasileiro. O que vejo hoje na aliança entre FSSPX, o legado de Castro Mayer e a militância digital de Viganò é a versão mais radicalizada e menos disfarçada dessa mesma matriz que eu já apontava há sete anos.

LEIA OUTROS ARTIGOS DE SARA WAGNER YORK

Porque o cisma de Écône não é uma disputa entre missa em latim e missa em português, nem entre um papa que usa tênis e bispos que preferem sotaina, é uma disputa sobre quem tem autoridade para decidir o que é humano, o que é família, o que é corpo legítimo. E é justamente onde a Igreja apaga a distinção entre fé e Estado que a vida de pessoas trans e travestis costuma ser a primeira a pagar o preço.

O que a excomunhão declara, no fim das contas, é um limite: a intolerância não cabe na comunhão com Roma, ao menos não oficialmente. Mas no interior de São Paulo, essa intolerância continua tendo capela, horário de missa e um influenciador excomungado para alimentá-la pela tela do celular. A lei canônica pode excluir seis homens da comunhão sacramental. Quem vai excluir o discurso que eles deixam plantado nas cidades onde passaram décadas pregando?(Foto: Pontifex_pt)

SARA WAGNER YORK

É psicanalista, jornalista, pedagoga, biomédica, doutora e mestra em Educação/ UERJ. PosDoc UNESP/ FAPESP. Primeira travesti a ancorar no jornalismo brasileiro. Imortal da Academia de Letras do Rio de Janeiro e percursora nas discussões das cotas trans no Brasil.

VEJA TAMBÉM

PUBLICIDADE LEGAL É NO JUNDIAÍ AGORA

ACESSE O FACEBOOK DO JUNDIAÍ AGORA: NOTÍCIAS, DIVERSÃO E PROMOÇÕES