Junho chegou com aquele clima de fogueira acesa, comidas à base de milho, quentão, vinho quente e, claro, uma boa dança de quadrilha. Festas juninas!!! Fui criado nessa tradição nos bons tempos do Quadradão, no fim da antiga Rua Maceió, na Vila Maria Genoveva, no tradicional bairro da Agapeama.
Aquele finalzinho de rua se dedicava de corpo e alma ao “arraiá”. Era buscar bambus na lagoa do Samarone, ali na divisa entre Jundiaí e Várzea Paulista; a criançada colando bandeirinhas na linha 10, amarradas entre os postes; as mães empenhadas nas comidas que seriam servidas — saudade do bolo de cenoura com chocolate da “tia” Marina Darci Godoy Costa Curta. Tinha também a busca por retalhos de madeira na serraria do meu padrinho de crisma, o saudoso Primo Filippini, a seleção musical do “tio” Mané Wood, sempre atualizada, e aquela noite agradável, geralmente fria, perfeita para um legítimo arrasta-pé.
As mesas emendadas na casa da “tia” Darci, esposa do “tio” Mané, eram um espetáculo à parte. As travessas se revezavam com bolos, tortas, pinhão (não sou muito fã), pipoca (muitaaaa!), amendoim torrado — o famoso “quebra-cama” —, bolo de milho, vinho quente, quentão (minha mãe me traumatizou com essa bebida) e tantos outros quitutes preparados pela mulherada: minha mãe, dona Elisabete; minha irmã, Sueli; “tia” Antonieta; dona Antônia; “tia” Lourdes; “tia” Zara; “tia” Iracema; e muitas outras “tias” que adotei ao longo da vida e que faziam a festa acontecer. Era comida para alimentar a rua inteira e ainda sobrar para São João levar na sacola.
Depois da fogueira montada, o “tio” Nicão sempre decretava:
— Nada de jogar bambu no meio do fogo!
E, claro, a molecada interpretava aquilo como um desafio oficial da comissão organizadora. Bastava ele virar as costas para começar o campeonato de quem fazia o bambu estourar mais alto. Parecia final de campeonato de rojão.
Sobre o trauma do quentão, quando minha mãe autorizou que eu experimentasse a bebida, aos 12 anos, fui com aquela sede de quem encontrou água no deserto. Dei a primeira golada e imediatamente procurei água. Minha mãe, percebendo a situação, usou a regra dos três avisos. Eu, mais teimoso que burro empacado em dia de procissão, fui escondido até o filtro de barro tomar água sem ela saber.
Resultado: uma laringite que me deixou completamente mudo por sete dias.
A família adorou.
Os professores da quinta série do antigo ginásio do SESI 179 adoraram mais ainda.
Acho que alguns chegaram a fazer promessa para Santo Antônio.
Até hoje não consigo nem sentir o cheiro do quentão sem lembrar daquele episódio. Meu relacionamento com a bebida terminou antes mesmo de começar. Foi namoro de uma golada só.
E essa paixão pelas festas juninas continuou, só que mais comportada. Porém, na segunda gestão do prefeito André Benassi, o Fundo Social de Solidariedade, comandado pela primeira-dama Neide Benassi, organizou uma grande festa junina com as entidades assistenciais da cidade, na Praça do Coreto, atrás da Catedral Nossa Senhora do Desterro.
Eu já trabalhava no Jornal da Cidade.
Era um típico fim de semana de junho, com aquele friozinho convidativo e o Centro de Jundiaí tomado pela animação. Como bem lembrou nesta terça-feira, 2 de junho, a jornalista e amiga Denise Oliveira:
— Com direito a pesca, roleta, cadeia, bola na lata, barraca do beijo e dança de quadrilha.
E foi justamente no último quesito que entrei nessa festa.
Mas não fui sozinho.
Meu amigo e também jornalista Luiz Ricardo da Silva, o Ricardinho, proprietário de um verdadeiro bólido sobre duas rodas — uma Turuna — também arrastou as botas por lá me levando na garupa e sem capacete. Éramos radicais (a lei só veio anos depois kkkk).
Aliás, o Luiz Alberto Lessi, meu chefe de reportagem do JC, sempre dizia quando nos via chegando na moto:
— Lá vai o Ratinho e a Girafa!
Eu era a Girafa, naturalmente, por causa da altura e da magreza. O apelido era tão justo quanto cruel.
Quando chegamos, Denise estava no coreto como mestre de cerimônias. Dava avisos, informações públicas e, claro, improvisava como ninguém.
De repente, ela anuncia:
— Vamos dar início à nossa dança de quadrilha!
Eu comecei a procurar os casais devidamente caracterizados. Vestido caipira para cá, chapéu de palha para lá…
Foi quando ouvi:
— Eu vou formar os casais do arraiá! Meu amigo Édi Gomes vai fazer par com a primeira-dama Neide Benassi!
Antes que eu pudesse reagir:
— O Ricardinho dança com a Vera Pisápio, que trabalhava com a Neide Benassi no Fundo Social!
E assim foi convocando a seleção brasileira do levanta-poeirão junino.
De cabeça, Denise foi narrando a evolução dos passos: balancê, anarriê, caminho da roça, caracol, túnel e aquele tradicional “olha a cobra!”
— É mentira!
Na nossa conversa de hoje, a Deh — como eu a chamo — soltou uma pérola:
— Deve ter sido tudo de improviso. E ainda colocamos a dona Neide e a Vera nessa roubada!
Como assim “colocamos”?
Ela convocou a seleção do arrasta-pé, escalou o time titular e agora quer me promover a vice-técnico da quadrilha? Aí já é exagero digno de pescaria de festa junina.
Também lembramos da brincadeira da cadeia, em que mandamos muita gente “presa” naquela noite. O castigo de poucos minutos rendia gargalhadas intermináveis.
— Tempo bom! Éramos muito felizes — comentou Denise.
E eu concordo.
Até debatemos como naquela época não existiam redes sociais, algoritmos, vídeos de 15 segundos nem a famosa técnica TikTok de comunicação.
Tudo era divulgado na raça.
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— Era no boca a boca, no rádio, nos carros de som pelos bairros e nos cartazes espalhados pelo comércio. E a gente lotava os eventos — lembrou a Deh.
Era uma época em que o convite passava de mão em mão, a informação corria pela cidade e a alegria não precisava de Wi-Fi para viralizar.
Nas festas juninas de antigamente bastavam uma fogueira acesa, uma sanfona afinada, um pedaço de bolo de milho e gente disposta a celebrar….
Eita tempo bão, sô!

MIGUEL ÉDI GOMES
É jundiaiense, tem 54 anos. É formado em jornalismo pela UniFaccamp e atualmente faz parte da equipe da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
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