Existe uma coisa curiosa que acontece quase toda vez que começo a conversar com alguém que está descobrindo minha cegueira. Em algum momento, o assunto aparece. E eu, sinceramente, adoro conversar sobre isso. Gosto de explicar, responder perguntas e acabar com algumas ideias malucas que as pessoas têm sobre deficiência visual. Afinal, muitas vezes sou o primeiro cego com quem elas convivem. O problema é que, depois que descobrem que sou cego, parece que algumas pessoas também descobrem que existe um dicionário especial para conversar comigo. E nele, aparentemente, três palavras são banidas: “enxergar”, “olhar” e “vi”. Cria-se uma fiscalização do verbo ‘ver’
Se eu digo “olha, eu vi aquele filme”, imediatamente aparece alguém para me corrigir: “Você ouviu o filme, né?”. Se falo que estou assistindo a uma série, vem a segunda fiscalização: “Mas você não vê!”. Eu sei, meu amigo! Se eu estivesse enxergando, provavelmente estaria procurando um emprego de piloto de avião, e não explicando pela décima vez que acompanho séries pelo áudio.
O mais engraçado é que ninguém faz isso por mal. A tal fiscalização é falta de costume mesmo. A pessoa fica tão preocupada em não falar a coisa “errada” que transforma uma conversa normal numa entrevista do Enem sobre deficiência visual. E o pior é que eu mesmo uso essas palavras o tempo todo. Se alguém me cumprimenta e eu não escuto, posso dizer: “Desculpa, estava olhando para o outro lado”. Se alguém faz uma besteira, mando aquele clássico: “Depois dessa, nunca mais olho na sua cara!”. E quando alguém me pede dinheiro emprestado, eu já tenho a resposta pronta: “Pode deixar. Quando eu te ver, eu dou”. Essa última, inclusive, deveria ser aceita como modalidade oficial de pagamento para pessoas cegas.
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A verdade é que a linguagem é cheia dessas expressões. Quando eu digo “olha isso”, não estou tentando convencer ninguém de que comecei a enxergar escondido. Estou apenas falando como todo mundo fala. Então, se um dia você estiver conversando comigo e eu disser “eu vi um filme ontem”, não precisa entrar em pânico. Não precisa corrigir. Não precisa chamar a NASA para investigar o fenômeno. Pode simplesmente continuar a conversa.
Porque talvez a gente precise dar um tempo nessa fiscalização e parar de pensar tanto em quais palavras uma pessoa com deficiência pode ou não pode usar e começar a prestar mais atenção no que ela realmente está querendo dizer. No fim, eu posso não enxergar com os olhos, mas ainda sei muito bem quando alguém está enxergando apenas a minha cegueira… e não a pessoa que está conversando com ela.(Foto: Eren Li/Pexels)

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA
É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.
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