A chegada de Fábio Furlan à equipe de jornalismo do Jornal da Cidade coincidiu — quase que profeticamente — com o lançamento mundial do primeiro filme da franquia ‘Missão Impossível’, estrelado por Tom Cruise. A semelhança física era grande. Fábio(foto abaixo), no entanto, sempre desconversava. Discrição, afinal, era sua marca registrada.

Cheguei a comentar certa vez que ele havia participado de uma campanha publicitária inspirada no filme que estava em cartaz — aquela famosa cena em que o personagem desce por uma corda e para, rigidamente, a centímetros do chão. Mas calma: ninguém precisou pendurar o Fábio no teto da redação. O truque foi bem mais simples — posicioná-lo perto de uma parede e deixar o resto por conta de um discreto Photoshop. Missão cumprida com sucesso digno da agência IMF (Impossible Missions Force).
Quem diria, porém, que por trás daquele moço calado moravam duas outras personalidades: o nerd e o roqueiro. A descoberta nerd me pegou desprevenido. Eu sempre deixava alguma revistinha na mesa para os momentos de folga forçada — aquelas pausas estratégicas no meio da correria de apurar matérias. Em uma dessas ocasiões, Furlan passou, viu uma das HQs e fez comentários com categoria e conhecimento de causa.
Eu quase caí da cadeira. E olha que ele era nerd nível hard. Fã do universo Marvel, assim como eu. A diferença é que ele já estava na transição para a vida adulta — processo que, confesso, eu ainda não finalizei, mesmo aos 54 anos.
Naquela época eu tinha mais de 5 mil títulos de HQ. Conversa vai, conversa vem, começamos a trocar ideias sobre enredos, traços, personagens, poderes… aquele típico papo nerd dos anos 90, quando X-Men dominavam o imaginário da juventude.
Mas a segunda revelação foi ainda mais surpreendente. Fábio Furlan roqueiro? Com aquela cara de bom moço, cabelo perfeitamente penteado com gel e camisa meticulosamente colocada para dentro da calça? Pois é.
A descoberta aconteceu quando cheguei à redação ouvindo meu walkman — tecnologia de ponta da época — e arrisquei um assobio da música “Tonight, Tonight”, da banda norte-americana The Smashing Pumpkins, grupo de rock alternativo fundado em Illinois em 1988. Ele reconheceu a melodia imediatamente.
Comentei que tinha visto o clipe na saudosa MTV e que pretendia comprar o CD. Fábio Furlan perguntou se eu tinha certeza, já que as outras músicas não eram tão conhecidas. Respondi com a convicção típica de quem ainda não sabe que está prestes a cometer um erro financeiro:
— Se uma música é boa, as outras devem ser melhores ainda.
Para meu azar, tratava-se de um álbum duplo. Mais caro, claro. No dia seguinte, após a compra, cheguei à redação profundamente arrependido. Confessei que só tinha gostado mesmo da faixa dois — justamente a bendita “Tonight, Tonight”. Perguntei, meio sem cerimônia:
— Quer de presente?
Fábio, que estava pensando em passar adiante algumas revistinhas clássicas dos X-Men, sugeriu uma troca. Aceitei na hora.
Entre os tesouros do acervo dele estavam o mapa da Mansão X e o raio-X dos principais mutantes comandados por Charles Xavier. Até hoje lembro alguns detalhes absolutamente inúteis para a vida prática, mas essenciais para a cultura nerd: Ororo Munroe, a Tempestade tem 1,80m. Scott Summers, o Ciclope, 1,90m. Logan, o Wolverine, modestos 1,63m.

A última vez que trabalhei com o Furlan foi no meu final de jornada no JC. Ele era o chefe de reportagem da noite. Às sextas-feiras, trocava turno com Solange Spiandorin, responsável pelas pautas da manhã, por conta da pós-graduação que ela fazia. Naquela época eu estava na faculdade — fiz o caminho inverso: primeiro trabalhei na redação, depois fui cursar jornalismo. Longa história.
Num intervalo de aula, em 1º de abril de 2008, Fábio me ligou:
— Édi, amanhã você vai direto para o velório no Centro (Adamastor Fernandes). O Carlitos morreu hoje.
Na verdade, quem havia falecido era Milton Domingos, o artista que deu vida ao Carlitos jundiaiense, inspirado no personagem de Charles Chaplin e presença constante em inaugurações e eventos públicos da cidade. Respondi que estaria lá às 8h. Mas, ao desligar, comentei com colegas do curso. João Paulo Polo, o JP — hoje referência em comunicação de diversidade e grande amigo — soltou:
— Primeiro de abril, Édi. Sempre “matam” alguma personalidade nesse dia. Seu chefe está te zoando.
A dúvida foi plantada. Liguei de volta e disparei:
— Fábio, se eu chegar no velório e não tiver o corpo do Carlitos… vai ter o seu!
Ele apenas riu. Conhecia bem o doido que habita em mim. No dia seguinte, às 6h30, Solange Spiandorin me ligou para confirmar: a pauta era real. O fotógrafo Alessandro Rosman também iria direto ao velório. A matéria saiu com biografia do artista, depoimentos de admiradores e várias fotos do Alê. Missão cumprida.
Mas o episódio mais memorável com o Fábio Furlan ainda estava por vir. Era uma sexta-feira — dia naturalmente mais leve na redação, especialmente quando não havia plantão no fim de semana. E eu, que naquela época funcionava permanentemente em 220 volts, estava particularmente irritante.
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Dividia a baia com o repórter policial Fábio Chauh. Meu problema crônico em dividir espaço é simples: eu não sei dividir. Em casa sou bagunceiro — em minha defesa, moro sozinho. Já no trabalho, minha mesa é milimetricamente organizada. Quando termino o expediente, parece até que cometi um crime perfeito: não deixo vestígios.
Chauh, por sua vez, acumulava boletins de ocorrência e pilhas de papéis. Comecei a reclamar da bagunça da baia compartilhada, sugerindo soluções nada diplomáticas — desde fazer uma fogueira até esconder tudo no armário do colega. Depois de organizar o espaço, continuei falando… e falando… e falando. Comentários sobre matérias, piadas, provocações.
Na minha frente estavam Regiane Cavagni e Gabi — cujo sobrenome infelizmente não me recordo, falha imperdoável de um jundiaiense raiz — ora rindo, ora provavelmente considerando a hipótese de me amordaçar.
Furlan chegou, sentou na mesa dele — de frente para Alcir de Oliveira, que só chegava no final da tarde, nosso editor-chefe — e começou a ler as notícias. Eu tinha o hábito de inclinar a cadeira para trás, já que havia uma parede logo para garantir a segurança nas minhas costas. Erro estratégico.
Em um movimento mais empolgado que o necessário, a cadeira escorregou por baixo da baia. Resultado: caí. Bati a cabeça, as costas, a cadeira fez uma manobra acrobática inexplicável, atingiu minhas joias da coroa e meus pés foram parar sobre a mesa — numa posição digna de mesa ginecológica.
Silêncio na redação e depois uma explosão de gargalhadas. Fábio não mexeu sequer uma sobrancelha. Apenas decretou, com a serenidade de um cronista do caos:
— Se as baias fossem vazadas embaixo e o Édi estivesse de vestido, eu teria visto as amígdalas dele.
Não houve alternativa senão rir entre lágrimas e dores nas partes mais sensíveis da anatomia masculina. As meninas me ajudaram a levantar. Trabalhei quietinho pelo resto da manhã, escrevi minhas matérias e às 14 horas bati o cartão.
Fui para casa com o orgulho ferido — e não apenas ele — refletindo que talvez fosse prudente reduzir um pouco a voltagem para o bem do ambiente de trabalho… e da minha própria integridade física. Fábio, grande abraço!(Foto: álbum pessoal/Ilustração Chat GPT)

MIGUEL ÉDI GOMES
É jundiaiense, tem 54 anos. É formado em jornalismo pela UniFaccamp e atualmente faz parte da equipe da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
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