IA e emprego: Alarme global não encontra eco imediato no Brasil

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A inteligência artificial tornou-se, em poucos anos, um dos principais vetores de ansiedade econômica. Discursos sobre substituição em massa de trabalhadores ganharam espaço no debate público, muitas vezes antes que evidências empíricas sólidas estivessem disponíveis. É justamente esse descompasso entre narrativa e dados que o relatório Evidence of an AI-driven shakeup of job markets is patchy, da Oxford Economics, procura corrigir e cuja lógica se estende, com nuances próprias, ao caso brasileiro. A principal conclusão do estudo é direta: até o fim de 2025, o impacto observável da IA sobre o emprego agregado ainda é limitado e fragmentado.

Nos Estados Unidos, apenas cerca de 55 mil demissões foram atribuídas diretamente à adoção de IA entre janeiro e novembro de 2025, o que representa aproximadamente 4,5% do total de desligamentos no período. A maior parte das perdas de emprego continuou associada a fatores clássicos, como desaceleração econômica, ajustes pós-pandemia e excesso de contratações anteriores. Se a IA estivesse substituindo trabalhadores em escala significativa, seria razoável esperar um salto consistente da produtividade algo que, até agora, não se materializou de forma robusta.

Essa leitura mais cautelosa ajuda a enquadrar o debate brasileiro. O país combina elevada informalidade, forte heterogeneidade setorial e níveis desiguais de qualificação, o que torna qualquer extrapolação automática do cenário internacional imprecisa. Ainda assim, estimativas amplamente citadas indicam que entre 35% e 37% dos empregos no Brasil estão potencialmente expostos à automação associada à IA, algo em torno de 35 a 37 milhões de trabalhadores. O ponto central, porém, é que “exposição” não equivale a “eliminação”. Na maior parte dos casos, o risco se concentra em tarefas específicas, não na extinção completa das ocupações.

A própria Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial reconhece esse desafio estrutural ao projetar que, sem políticas de requalificação, dezenas de milhões de trabalhadores formais poderão ter suas funções profundamente transformadas até 2050. O documento, no entanto, não aponta para um colapso iminente do emprego, mas para a necessidade de adaptação gradual, sobretudo por meio de educação técnica, requalificação contínua e integração entre tecnologia e capital humano.

Os dados conjunturais reforçam essa leitura. Em 2024 e 2025, o Brasil registrou uma das menores taxas médias de desemprego de sua série histórica recente, em torno de 6% a 6,6%, mesmo com o avanço do uso de tecnologias digitais e soluções baseadas em IA em setores como serviços financeiros, agronegócio e logística. Não há, até o momento, evidência estatística de deterioração do mercado de trabalho que possa ser atribuída diretamente à IA.

Do lado das empresas, a percepção é de transformação, não de ruptura imediata. Pesquisas com executivos mostram que a maioria dos CEOs brasileiros espera mudanças relevantes na forma de criar valor nos próximos anos, impulsionadas pela IA, mas essas mudanças estão mais associadas a ganhos de eficiência, reorganização de processos e apoio à decisão do que a cortes massivos de pessoal.

Assim como no diagnóstico da Oxford Economics, o caso brasileiro sugere um processo evolutivo, não revolucionário. A IA já influencia decisões de contratação, desenho de funções e organização do trabalho, mas seus efeitos permanecem desiguais, setoriais e condicionados ao contexto econômico mais amplo. O verdadeiro risco, no Brasil, não é um apagão de empregos no curto prazo, e sim a ampliação de desigualdades caso a transição tecnológica ocorra sem políticas consistentes de qualificação e inclusão produtiva que funcionem e saiam do papel.

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Em síntese, os dados recomendam menos alarmismo e mais pragmatismo. A inteligência artificial está redesenhando o trabalho, mas ainda não o está destruindo em escala sistêmica. O desafio central no Brasil e no mundo é garantir que essa transição seja acompanhada por investimento em pessoas, e não apenas em algoritmos.

ARTUR MARQUES JR

É cientista de dados e especialista em IA aplicada, com sólida atuação em educação digital e inovação. Coordena a pós-graduação digital na Cruzeiro do Sul Educacional e é PhD em Ensino de Matemática, Mestre em Física Computacional e Astrofísica. Atua como palestrante, mentor, cofundador do Grape Valley, é VP Fiscal do Hospital do GRENDACC e já foi VP da DAMA Brasil.

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