A IA, o trabalho e o irreplicável

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O silêncio nos escritórios corporativos é enganoso. Em sedes de Big Techs, startups e bancos de investimento, há menos ruído humano, menos teclados, menos telefonemas, mas não menos trabalho. Ao contrário: a produção aumentou. O que diminuiu foi a “biologia da execução”. Pessoas foram substituídas por sistemas. Esse movimento compõe o que economistas já descrevem como um paradoxo da transformação da IA: investimentos recordes em infraestrutura digital convivendo com cortes expressivos de postos de trabalho. Não se trata apenas de automação industrial, mas de algo mais profundo, uma obsolescência cognitiva. A promessa da inteligência artificial como “copiloto” foi sedutora enquanto parecia auxiliar. Mas, do ponto de vista corporativo, um copiloto é dispensável quando se pode ter um piloto que não dorme. Surge, então, a chamada economia da ubiquidade, sustentada por dois conceitos que parecem semelhantes, mas não são: o Gêmeo Digital e o Duplo Digital.

O Gêmeo Digital é uma réplica funcional de algo físico, alimentada por dados em tempo real. Indústrias utilizam essa tecnologia para simular fábricas antes de construí-las; atletas modelam seus corpos para otimizar desempenho. A Tesla mantém representações digitais de seus veículos para prever falhas e testar soluções sem tocar no carro real. Trata-se de engenharia de dados, sensores, modelagem matemática. A inteligência artificial aqui é instrumento analítico: prevê, otimiza, reduz risco. O Duplo Digital é outra categoria. Não replica sistemas. Replica pessoas. É a reconstrução hiper-realista de imagem, voz e comportamento, um avatar convincente, alimentado por IA generativa. Inicialmente usado em publicidade ou entretenimento, evolui rapidamente para algo mais sofisticado: agentes autônomos capazes de negociar, interagir e representar indivíduos em múltiplos contextos simultaneamente.

A fronteira que se atravessa é delicada. Quando voz, imagem e estilo decisório podem ser dissociados do corpo físico e convertidos em ativo licenciável, o indivíduo deixa de ser indivisível. Passa a ser um portfólio. Consultorias globais já projetam contratos executivos com cláusulas de “direitos de réplica”, autorizando empresas a utilizar versões digitais de seus líderes além das 40 horas semanais, ou além do próprio vínculo empregatício. A questão jurídica é apenas a superfície. O problema mais profundo é ontológico: onde reside a autoria em um mundo estocástico? Se um Duplo fecha um contrato bilionário ou comete um erro grave, quem responde? O original biológico ou o modelo treinado em seus vieses?

O historiador Yuval Noah Harari alertou para o risco de fracionamento econômico do ser humano. A advertência ganha concretude quando deepfakes sofisticados contaminam fluxos financeiros, fraudes biométricas e até debates públicos. Casos recentes envolvendo manipulações digitais de figuras como Mark Carney demonstram que a tecnologia de síntese já supera, em muitos contextos, nossa capacidade forense. A consequência é corrosiva: a verdade deixa de ser verificável e se torna disputável. E, na dúvida, instala-se a paralisia social.

Há ainda um aspecto ético raramente discutido. Humanos falham de modo irregular e algoritmos falham de modo consistente. Um executivo cansado pode errar, e também pode reconsiderar. Um modelo enviesado escala seu preconceito com precisão matemática. Troca-se a falibilidade que admite exceção pela rigidez de um viés codificado. Diante disso, a máxima de que “o futuro pertence a quem sabe usar IA” soa ingênua. Ferramentas são transitórias. O que não é replicável, julgamento contextual, intuição ética, capacidade de formular perguntas inéditas, permanece escasso. Como escreveu Leonard Mlodinow em O Andar do Bêbado, nossa relação com o acaso é imperfeita, mas é precisamente nessa imperfeição que reside a adaptabilidade humana.

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Se uma competência pode ser descrita como processo lógico, ela será convertida em agente. O que resta ao humano é navegar o ambíguo, o não linear, o que escapa ao treinamento estatístico. Em 2026, carreiras dependerão menos da produção de respostas e mais da formulação de perguntas que nenhum modelo antecipou. O Duplo Digital pode ser o empregado mais eficiente de alguém, mas não deve ser seu mestre. Preservar a própria agência talvez seja, paradoxalmente, o ato mais estratégico desta década.

ARTUR MARQUES JR

É cientista de dados e especialista em IA aplicada, com sólida atuação em educação digital e inovação. Coordena a pós-graduação digital na Cruzeiro do Sul Educacional e é PhD em Ensino de Matemática, Mestre em Física Computacional e Astrofísica. Atua como palestrante, mentor, cofundador do Grape Valley, é VP Fiscal do Hospital do GRENDACC e já foi VP da DAMA Brasil.

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