IA não conseguiu fechar essa conta…

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Demitir para automatizar parece óbvio. Porém, os números mostram que a equação é mais cara, e mais constrangedora,  do que os CEOs imaginavam. Em 2026, um padrão silencioso se repete nos bastidores das maiores corporações. As empresas que anunciaram demissões em massa (layoff) em nome da IA estão recontratando as mesmas pessoas que dispensaram. Quase sempre com salários menores. Sempre com o mesmo trabalho que a máquina prometeu e não entregou. Isso é fato e não adianta tapar o sol com peneira!

O relatório Previsões para 2026, da Forrester, é direto, metade das demissões atribuídas à IA provavelmente será revertida. E o dado seguinte deveria tirar o sono de qualquer executivo que caiu nesse conto de fadas: 55% dos empregadores que fizeram esses cortes já se arrependeram, porque os ganhos prometidos pela automação não se materializaram na velocidade nem na escala que os modelos financeiros previam, as vezes ficaram mais caros. A Gartner reforça que mais de 40% dos projetos de IA com agentes autônomos devem ser cancelados até 2027, vítimas de custos elevados e falhas de governança que ninguém havia colocado na planilha.

Os casos concretos são reveladores. A Salesforce cortou 4 mil vagas de suporte ao cliente e teve que realocar parte dos profissionais porque o atendimento automatizado não dava conta dos casos reais. A startup Mercor, parceira da OpenAI e da Anthropic, demitiu e recontratou trabalhadores para treinar a própria IA que os substituiria pagando menos, com monitoramento rigoroso, e ainda assim enfrentou processos judiciais por violação de dados. Um estudo do MIT completa o quadro: apenas uma em cada quatro tarefas tecnicamente automatizáveis é economicamente viável de substituir na prática. O que parecia economia vira custo, mais difuso, mais difícil de medir, mas igualmente real.

O nosso país não observa de longe. Estudo do FGV IBRE revela que, no terceiro trimestre de 2025, quase 30 milhões de trabalhadores brasileiros estavam em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa, isso é algo como 29,6% da população ocupada. Desse total, 5,2 milhões estavam no nível mais alto de exposição, com tarefas altamente substituíveis. Os mais vulneráveis têm rosto definido e viés também são, mulheres, jovens e trabalhadores de serviços financeiros e de tecnologia, exatamente onde a pressão por automação é maior. Em paralelo, o Barômetro Global de Empregos em IA 2025 aponta que o agronegócio brasileiro registrou alta de 600% nas vagas aumentadas por IA, sinal de que a tecnologia também reconfigura, não só elimina.

O Brasil carrega agravantes próprios como, desigualdade estrutural que transforma demissões em exclusão permanente, marco regulatório da IA ainda em consolidação e concentração de talentos em São Paulo, Campinas e Belo Horizonte que aprofunda disparidades regionais. Empresas que demitem no interior não encontrarão os mesmos profissionais requalificados quando precisarem recontratar.

Boa parte das demissões motivadas por IA não foram decisões operacionais, foram decisões de sinalização. Anunciar cortes associados à automação valoriza ações e posiciona o executivo como visionário. O Goldman Sachs identificou, ao analisar resultados do S&P 500, que empresas que mencionam IA no contexto de força de trabalho cortaram vagas mais agressivamente que seus pares. A causalidade é explícita, entre discurso de IA e redução de headcount.

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O ciclo demitir-automatizar-recontratar, além de caro, destrói o ativo mais difícil de repor: o conhecimento tácito das equipes. Quando você dispensa quem conhece os clientes, os processos e as exceções, o que não está no manual nem no prompt, descobre tarde demais que a máquina não tinha esse contexto.

Então, se sua empresa tivesse que demonstrar, com dados operacionais reais, sem projeções de consultoria, sem influência de Big Tech, sem narrativa criativa para o board, que a substituição de pessoas por IA gerou mais valor do que destruiu, em quanto tempo você teria esse número pronto? E se não tiver, quem na sua organização está sendo pago para fazer essa pergunta antes que você precise respondê-la?(Foto: Brey/Unplash)

ARTUR MARQUES JR

É cientista de dados e especialista em IA aplicada, com sólida atuação em educação digital e inovação. Coordena a pós-graduação digital na Cruzeiro do Sul Educacional e é PhD em Ensino de Matemática, Mestre em Física Computacional e Astrofísica. Atua como palestrante, mentor, cofundador do Grape Valley, é VP Fiscal do Hospital do GRENDACC e já foi VP da DAMA Brasil.

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