Igreja do Rosário: Demolição e apagamento da memória negra(2)

igreja

As atas da própria Irmandade, registradas entre 1912 e 1956, documentam esse processo com uma frieza burocrática que contrasta brutalmente com a dimensão humana do que estava em jogo. Em 2 de outubro de 1922, o provedor Affonso Roveri comunicou em assembleia que a Câmara Municipal havia manifestado interesse no terreno para o prolongamento da rua, condicionando a desapropriação à construção de um novo templo em outro local. A linguagem é seca, objetiva, como se estivesse tratando da venda de um imóvel qualquer. Não há registro de como os irmãos se sentiram ao ver sua igreja – construída com o suor e o sacrifício de gerações – ser reduzida a um obstáculo urbanístico. O documento registra que “as imagens sacras e os objetos de culto foram trasladados para a Capela de Santa Cruz, no alto da Vila Arens”. Os corpos, por sua vez, foram exumados e transferidos para o cemitério local. O aviso para o translado dos corpos foi expedido em 15 de junho de 1922. Uma semana depois, a igreja veio ao chão. Não há registro de que os familiares tenham sido consultados. Não há menção a qualquer cerimônia de despedida. Os mortos foram removidos como se fossem meros obstáculos físicos, e não pessoas que um dia habitaram aquela comunidade.

Há algo profundamente revelador no modo como o documento trata o assunto. As atas da Irmandade, que registram com minúcia as decisões financeiras, os balanços, as eleições e as festas, são notavelmente lacônicas quando se trata do impacto emocional e social da demolição. O que os irmãos sentiram ao ver sua igreja ser demolida? O que significou para aquela comunidade perder seu espaço de pertencimento? As atas não dizem. Talvez porque os irmãos, muitos deles analfabetos ou com pouca instrução, não tivessem voz nesses registros formais. Talvez porque o secretário que lavrava as atas – geralmente um homem branco e letrado – não considerasse relevante registrar os sentimentos daqueles que não tinham poder de decisão. O silêncio das atas é, ele mesmo, um testemunho eloquente da violência simbólica que se abateu sobre aquela comunidade.

A demolição da Igreja do Rosário não foi um acidente ou uma necessidade incontornável. Foi uma escolha – a escolha de priorizar o fluxo de automóveis sobre a memória de uma comunidade; a escolha de valorizar o centro urbano sobre o direito dos mais vulneráveis a terem um lugar na cidade; a escolha de um modelo de “progresso” que, como tantas vezes na história brasileira, passou por cima dos corpos e das histórias da população negra. A Rua Major Sucupira, que hoje passa onde a igreja ficava, não tem nenhuma placa, nenhum monumento, nenhuma indicação de que ali, por mais de um século, existiu o coração da comunidade negra de Jundiaí. A memória foi apagada como se nunca tivesse existido.

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O que se perdeu naquela demolição vai muito além de um prédio antigo. Perdeu-se o testemunho material da presença negra na cidade – não apenas como força de trabalho escravizada, mas como comunidade organizada, com sua fé, suas tradições, sua solidariedade. Perdeu-se um espaço que, por mais de um século, foi palco de celebrações, lutos, encontros e resistências. Perdeu-se a oportunidade de contar a história de Jundiaí a partir de quem realmente a construiu.

O cemitério anexo à igreja guardava os restos de gerações de irmãos. Ao ser removido, sem consulta, sem cerimônia, sem respeito, aquelas vidas foram mais uma vez apagadas – como se nunca tivessem existido. A nova igreja, inaugurada em 1938 na Praça da Bandeira, é bonita. Tem vitrais e elementos do estilo gótico primitivo. Mas não é a mesma. Não está no mesmo lugar. Não carrega a mesma história.(Foto: acervo professor Maurício Ferreira)

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE

Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.

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