Igreja do Rosário: Demolição e apagamento da memória negra(3)

igreja

É verdade que a Irmandade conseguiu, a duras penas, um novo local para sua igreja. Mas a nova igreja jamais seria a mesma. Não estava mais no coração da cidade, no Largo do Pelourinho, onde a comunidade negra de Jundiaí havia se reunido por mais de um século. Estava deslocada, como a própria população negra deslocada pelas reformas urbanas que a empurravam para as periferias. O que aconteceu em Jundiaí foi a materialização de um racismo estrutural que não precisa de leis explícitas para operar: basta que o “interesse público” seja definido por quem tem o poder de definir o que é público e o que é privado, o que é progresso e o que é atraso, o que merece ser preservado e o que pode ser demolido.

O documento que analisei, as atas da Irmandade entre 1912 e 1956, ainda que superficialmente, é, ele mesmo, um ato de resistência. Ao registrar as reuniões, as decisões, os nomes dos irmãos, os secretários da Irmandade estavam criando um arquivo, uma memória escrita que sobreviveria à demolição da igreja. Hoje, essas atas são um dos poucos vestígios que nos permitem reconstituir a história daquela comunidade. Elas nos contam sobre Affonso Roveri. Sobre Lourenço Tavares, o secretário que lavrou inúmeras atas. Sobre o Cônego Hygino de Campos, que mediou a relação com a hierarquia eclesiástica. Sobre os irmãos anônimos que pagavam suas anualidades, participavam das festas, enterravam seus mortos. Mas o documento também nos mostra o que não foi dito: as dores, as perdas, os silêncios daqueles que não tinham voz nos registros oficiais.

Ao passar pela Rua Major Sucupira, poucos sabem que ali existiu uma igreja. Poucos sabem que ali existiu um cemitério. Poucos sabem que ali existiu uma comunidade que amou, rezou, sofreu e resistiu. Saber isso é o primeiro passo para reparar, ainda que simbolicamente, a violência daquele ato.

A memória é a única forma de resistência que os mortos ainda têm. E nós, os vivos, temos o dever de não deixar que ela seja mais uma vez demolida. O progresso não precisa ser assim. Cidades podem se modernizar sem apagar suas memórias. Ruas podem ser alargadas sem que igrejas centenárias sejam demolidas. Obras públicas podem ser feitas com diálogo, com respeito, com indenização justa e com o reconhecimento de que o patrimônio histórico e cultural de uma comunidade não pode ser simplesmente varrido pelo “interesse público” de uma elite que nunca precisou lutar para ter um lugar na cidade.

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A história de Jundiaí, como a história de tantas cidades brasileiras, é uma história de violências silenciadas, de memórias apagadas, de corpos que foram removidos para que o progresso pudesse passar. Mas a história também é feita de resistências, de documentos que sobrevivem ao tempo, de memórias que se recusam a ser completamente apagadas. As atas da Irmandade do Rosário são um desses documentos. Elas nos lembram que, sob o asfalto da Rua Major Sucupira, ainda há história. Ainda há dor. Ainda há resistência. E enquanto houver quem se lembre, a memória não terá sido completamente demolida.(Foto:Iba Mendes/acervo professor Maurício Ferreira)

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE

Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.

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