Em 1991, final de maio, fui contratado pelo hoje quase saudoso Jornal da Cidade, o JC. O convite veio no início da noite do dia 27 de maio, por um telefonema do fotógrafo Nilson Cologni, que havia migrado do Jornal de Jundiaí junto com o chefe de reportagem Luiz Alberto Lessi e o repórter Marco Antonio Sapia, hoje editor deste portal.
Eu havia saído do JJ uma semana antes e, naquela segunda-feira, a herança de enxaquecas da minha mãe tinha me pegado de jeito. Tomei um paracetamol, fui para o quarto escuro e consegui dormir. Acordei no solavanco da dona Elisabete, minha mãe, que, apesar da pouca estatura, crescia uns três metros quando precisava pegar alguém pelas orelhas.
— Acorda! Telefone! O Nilson quer falar com você! Disse ela naquele jeitinho fofo que a dona do quartel (somos oito irmãos) tinha para dar o clássico presta atenção na tropa.
Já no telefone, ouvi Nilsinho me perguntar:
— Édi, tá a fim de trabalhar no JC? O Lessi está chamando você aqui agora!
Foi melhor que paracetamol. Corri para o banho para tirar a cara de amassado e, às 19h, cheguei à redação. Tudo conversado e acertado com o Lessi e o editor-chefe Alcir de Oliveira. Eu entraria às 14h, cumpriria as pautas e depois faria o fechamento na diagramação. Foi tão aleatória aquela segunda-feira que acabei dançando lambada com uma jornalista que estava no estágio — coisa que definitivamente não constava no contrato de trabalho.
Na terça-feira, 28 de maio, cheguei até cedo. A pauta estava no meu gancho, na lousa de feltro, escrita com a letra impecável do Lessi, em lápis dermatográfico vermelho. A primeira matéria era no 12º Grupo de Artilharia de Campanha (GAC), que desde 15 de julho de 2025 passou a ser 12º Grupo de Artilharia Antiaérea (12º GAAAe). Assunto: festa junina. Uma das melhores da região. Observação do Lessi: muitas fotos. Então, com o fusquinha branco do JC, pilotado pelo “seo” Alexandre, eu e Nilson fomos para o GAC.
Como toda área militar exige autorização, o Lessi já havia solicitado pela manhã. A pauta que o Luiz deixava era praticamente a matéria pronta — o chefe sempre foi meticuloso para o repórter não cometer gafes. A orientação era clara: avisar que o coronel Cláudio Roberto Corrêa de Sá e Benevides Neves esperava por nós.
A festa acontecia na Vila Militar, o complexo de residências dos oficiais em serviço no GAC, ao lado do quartel. Benevides nos recebeu em seu gabinete. Sorriso cativante, aperto de mão firme, ofereceu café ou suco, mas fez a ressalva de que o café era melhor, pois “se algum recruta não gostasse de nós, o calor do café liquidava qualquer ingrediente extra”. Foi paixão à primeira piada pela figura do coronel Benevides.
Seguimos para a área do evento pela avenida interna do quartel. Eu e Nilson no veículo oficial com o coronel, e o fusquinha do JC nos acompanhando fielmente. No local, a movimentação era intensa: soldados montavam barracas, serravam bambus, penduravam bandeirinhas, cortavam o gramado e instalavam sinalizações. A festa era aberta à população, e o acolhimento, além da segurança eram essenciais.
Tenho um probleminha desde criança — na verdade, vários — que é espelhar a pessoa ao meu lado. Se alguém fala com sotaque, eu imito, por exemplo. E ali, cada soldado que cruzava o caminho do coronel prestava continência. Claro que eu precisava segurar firme a mão para não retribuir o cumprimento militar. Benevides percebeu e só ria.
Entrevistas feitas, festa anotada, voltamos para a redação. Concluí a matéria e mais duas, e a noite seguiu tranquila no fechamento — quer dizer, na alegria organizada e no caos criativo que eram a marca registrada da redação do JC.
No dia seguinte, assim que cheguei, Marquinho Sapia avisou:
— Benevides ligou e está puto com você por causa da reportagem.
Ali, gelou o quentinho — expressão que só aprenderia anos depois com a amiga Vera Lúcia Engholm. Tinha que ligar. O soldado de serviço passou imediatamente para o coronel:
— Édi Gomes (o Miguel só surgiria em 2022, com a transição de gênero nominal), boa tarde! Rapaz, que matéria foi essa, hein?!
Naquele momento, minha alma já ensaiava pedir exoneração do corpo.
— Ficou muito bem escrita. Meus parabéns.
E foi ali que, pela primeira de muitas vezes, o coronel Benevides disse:
— Antevejo um futuro brilhante para você!
Como ensinou Luiz Lessi: se receber um elogio, agradeça humildemente, vá ao banheiro, tranque a porta, apague a luz e grite “mudo”. Fiz exatamente isso — e ainda fumei dois cigarros seguidos.
Depois desse dia, virei o “correspondente oficial” do 12º GAC na redação do JC. Benevides, sempre bem-humorado, sugeria pautas, aprovadas pelo Lessi, e lá ia eu. Cheguei a ser homenageado com desfile da tropa. Vergonha gigante. Eu, no círculo pintado das autoridades, de tênis, jeans, camiseta, a bendita pochete e absolutamente sem saber o que fazer com os braços. Continência? Posição de sentido? Ou avestruz no asfalto?
No fim de 1991, Benevides comentou que em janeiro um novo coronel assumiria o 12º GAC, pois ele concluiria seus dois anos de comando. Convidou-me para um almoço para conhecer o sucessor: coronel Leslie Antônio Alcoforado, que assumiria em janeiro de 1992.
No final de janeiro, outro convite para a troca de comando. Eu vivia um momento delicado: meu pai, “seo” Valdeci, havia sido internado dias antes, em estado crítico. Se não falha a memória, a cerimônia ocorreu no dia 22 pela manhã, e à tarde fui visitar meu pai no antigo GAMe.
Agradeci o convite para o almoço no Cassino dos Oficiais e segui para o compromisso familiar. No dia 29 de janeiro, meu pai partiu às 11h04. Avisei os amigos e, claro, o coronel. Já no velório, Benevides chegou em traje civil. Nunca o havia visto sem uniforme verde oliva. Com um guarda-chuva na mão — caía um pé-d’água —, cumprimentou-me, foi até meu pai, fez uma prece e sentou ao meu lado. Disse pouco, mas a presença dele ali foi imensa.
Guardo com muito carinho a lembrança do coronel Benevides: o bom humor, as repetidas vezes em que me disse “antevejo um futuro brilhante para você” e, depois, a frase que agregou à primeira:
— Você é o filho que eu não tive.
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Ele era casado com dona Marinês, que também tive o prazer de conhecer, e pai da Cláudia, sua única filha. Sobre o nome dela, dizia ter sido especialmente criativo na escolha.
Em 6 de agosto de 2022, o coronel Cláudio Roberto Corrêa de Sá e Benevides Neves faleceu — ou melhor, cumpriu sua última missão na Terra.(Foto: Nilson Cologni/1991)

MIGUEL ÉDI GOMES
É jundiaiense, tem 54 anos. É formado em jornalismo pela UniFaccamp e atualmente faz parte da equipe da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
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