Jundiaí, em 1872, se destacava pela presença de ofícios urbanos: sapateiros, ferreiros, carpinteiros e comerciantes, que garantiam dinamismo econômico e diversificação. A circulação de tropeiros e carreteiros também mantinha a cidade como ponto de passagem.
Para compreender melhor a posição de Jundiaí, é preciso compará-la a localidades vizinhas:
- Campinas: polo cafeeiro em expansão, dependente da escravidão (mais de 30% da população em cativeiro).
- Itu: centro tradicional de açúcar e política paulista, com forte presença escravista até a década de 1870.
- Sorocaba: cidade das feiras de muares, mais comercial e voltada para o transporte, semelhante a Jundiaí, mas em escala maior.
- Atibaia: desmembrada de Jundiaí em 1769, manteve perfil agrícola diversificado, mas com menor integração à ferrovia.
Jundiaí se colocava em posição intermediária: não era tão dependente da escravidão como Campinas e Itu, mas também não tinha a vocação comercial como se verificou em Sorocaba. Sua força residia justamente na posição logística, diversidade e adaptabilidade.
A partir da década de 1880, a imigração italiana ganhou destaque em Jundiaí. Diferente de regiões onde a transição do trabalho escravizado para o trabalho livre foi abrupta, em Jundiaí ela ocorreu de forma mais gradual. A economia diversificada e a baixa dependência do cativeiro facilitaram a incorporação dos imigrantes ao campo e ao comércio.
Os italianos não apenas trabalharam nas lavouras de café, mas também fundaram associações culturais, clubes e sociedades de ajuda mútua. Trouxeram novas tradições culinárias, festas e modos de sociabilidade, que se mesclaram às práticas locais e afro-brasileiras (em sua maioria, apagadas da história), dando origem a uma identidade plural.
Jundiaí também exerceu papel central na formação de outros municípios. De sua antiga freguesia se emanciparam: Atibaia (1769); Campinas (1797); Itatiba (1857); Jarinu (1959); Várzea Paulista (1965); Campo Limpo Paulista (1965) e Louveira (1965). Esse processo demonstra a importância de Jundiaí como matriz de povoamento e de organização regional.
O Censo de 1872 nos permite compreender Jundiaí como um espaço em transição. Nas paróquias de Desterro e Bethlem, conviviam a escravidão residual, uma economia de base policultora, a produção de aguardente, o café em crescimento, a ferrovia como símbolo da modernização e a imigração em embrião.
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JUNDIAÍ NO SÉCULO XIX: O CENSO DE 1872(PARTE 2)
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Mais do que números, o recenseamento revela a complexidade de uma sociedade plural, formada por brancos, pardos, pretos e caboclos, articulada em torno do trabalho livre, mas ainda marcada pela presença simbólica da escravidão.
Comparada a Campinas, Itu e Sorocaba, Jundiaí destacou-se por sua diversidade e adaptabilidade, características que lhe permitiram atravessar as mudanças do século XIX sem rupturas bruscas e consolidar-se no século XX como centro industrial e urbano de grande relevância.(Aquarela de Diógenes Duarte Paes: Rua do Rosário)

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE
Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.
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