Jundiaí, a PORTA DO SERTÃO(2)

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Uma segunda versão, que ganhou força a partir da década de 1960, atribui a fundação de Jundiaí a Rafael de Oliveira (filho), o “Moço”, que em 1640 teria comandado uma expedição com 250 pessoas: 38 descendentes de portugueses e cerca de 220 indígenas para povoar a região indicada por seu pai. Esta versão é atualmente a mais aceita, tanto que o aniversário da cidade é comemorado em 14 de dezembro, data da elevação a vila em 1656.

A recente localização, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, do auto de elevação de Jundiaí à vila, datado de 14 de dezembro de 1656 (e não 1655, como se supunha), trouxe novos elementos ao debate. O documento descreve o cerimonial de fundação: os moradores reunidos à porta da igreja com o estandarte real, o governador assentando com as próprias mãos o pelourinho de madeira cabreúva, a moeda de cruzado lançada ao solo como símbolo da jurisdição portuguesa(ilustração acima). Curiosamente, a aclamação foi feita a Dom João IV, que já havia falecido há mais de um mês, detalhe que revela a defasagem nas comunicações entre a colônia e a metrópole.

Estas divergências, longe de fragilizarem a história, enriquecem nossa compreensão sobre a complexidade do processo de ocupação territorial, revelando que a gênese de Jundiaí foi resultado de múltiplas iniciativas e não de um ato fundacional isolado. Além de reforçar a importância e a necessidade de um estudo crítico e atento sobre a história, seja de Jundiaí, seja de qualquer outro lugar.

É interessante observarmos como esta vocação de “entrada” não se esgotou com o declínio das agressivas bandeiras. Quando o ciclo do café avançou sobre o oeste paulista, na segunda metade do século XIX, Jundiaí readquiriu seu protagonismo. Porém, não mais como porta para o sertão desconhecido, mas como portal de escoamento da riqueza produzida.

A inauguração da Ferrovia Santos-Jundiaí em 1867, a São Paulo Railway, consolidou este novo papel. Toda a produção cafeeira das prósperas regiões de Campinas e arredores convergia para Jundiaí, de onde seguia por trilhos (construídos por força de trabalho escravizada) até o porto de Santos. A cidade transformou-se em um colossal entreposto comercial, atraindo posteriormente outras ferrovias, a Cia. Paulista (1872), a Ituana (1873) e a Bragantina (1891) e, com elas, as primeiras indústrias e levas de imigrantes.

Neste contexto de “crise do escravismo” e o absurdo do processo de embranquecimento da sociedade brasileira, os grandes produtores rurais passaram a buscar novos trabalhadores, iniciando-se o amplo processo de imigração. Os primeiros foram os italianos, instalados no Núcleo Colonial Barão de Jundiaí, implementado pelo então presidente da Província de São Paulo, Antônio de Queiroz Telles (Conde de Parnaíba). A Figueira, árvore lendária que serviu de abrigo aos recém-chegados, tornou-se símbolo deste período.

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Assim, é passível concluir que a alcunha de “porta do sertão” não é mero floreio literário. Jundiaí desempenhou, ao longo de mais de dois séculos, a função material e simbólica de fronteira, limite do conhecido e princípio do sertão, último suspiro da ordem colonial e primeiro passo para a epopeia bandeirante. Esta condição forjou uma identidade marcada pela vocação logística que, modernizada, ainda hoje caracteriza o município como um dos mais dinâmicos do estado.

Contudo, uma análise criticamente orientada não pode prescindir de reconhecer as violências constitutivas deste processo: a expropriação territorial dos povos originários, a escravidão indígena e africana, os silenciamentos impostos pela documentação oficial e a imposição de uma pseudoidentidade italiana. O Arquivo Histórico Municipal, ao custodiar documentos como os Livros de Registros de Óbitos de Escravizados, revela uma sociedade profundamente arraigada na escravidão e, simultaneamente, a constante resistência de homens e mulheres escravizados em sua luta pela liberdade.

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE

Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetrasPara saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.

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