JUNDIAÍ IMIGRANTE(3): Uma herança que não podemos ignorar

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Hoje, ao caminhar pelas ruas de Jundiaí e ouvir o sotaque carregado de italianidade, ao provar o vinho ou comer a polenta, somos lembrados da resiliência e do trabalho daqueles que vieram de além-mar. Sua história é legítima e merece ser contada. A força da comunidade italiana, que construiu igrejas como a do Sagrado Coração de Jesus e manteve vivas suas tradições, é inegável. Não se trata de negar essa herança, mas de compreendê-la em sua totalidade, com suas luzes e, principalmente, com suas sombras.

A imigração europeia foi, para muitos, a promessa de uma vida nova. Para os cofres do café paulista, foi a salvação econômica. Mas, para a população negra e indígena, foi a sentença de uma marginalização que perdura até hoje. Não podemos mais celebrar a “Terra da Uva” sem lembrar que suas raízes estão fincadas em um solo regado por lágrimas e sangue. A política de embranquecimento não é uma página virada de um livro antigo; é um capítulo vivo que ainda influencia as desigualdades raciais e sociais do Brasil.

Como historiador, minha função não é apenas datar fatos, mas interpretá-los, questioná-los e, acima de tudo, ajudar a devolver a voz àqueles que foram silenciados. Jundiaí, São Paulo, o Brasil, são o que são por causa de todos que aqui viveram, não apenas de uma parcela que foi escolhida para ser a “face” da nação.

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A crítica ao passado não é um ato de ingratidão, mas de justiça. É o único caminho para que possamos, enfim, construir uma sociedade que não precise mais embranquecer sua história para ser vista como civilizada. Pois uma nação que nega suas próprias cores, nega suas culturas, suas identidades, suas memórias e suas próprias almas.(Foto: acervo professor Maurício Ferreira)

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE

Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.

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