Retorno nesta quinzena para falarmos de assuntos que ainda pouco se fala de uma conexão importantíssima. O que o meio ambiente sadio e equilibrado tem a ver com saúde mental? “As condições ambientais influenciam diretamente o bem-estar psíquico das populações, seja por vias biológicas, seja por estresse crônico causado por exposição contínua a poluentes ou ruídos”, diz Jorge Henna, psiquiatra e coordenador do curso de Medicina da PUC-SP.
E o que o psiquiatra quis dizer com esse pensamento? Seja pela poluição do ar, seja por metais pesados, ruído, radiação, pesticidas, poluição difusa das cidades, ou até mesmo a forma como usamos e ocupamos nosso território, temos afetado não só nosso corpo, mas também a nossa mente.
Desde a alimentação, com os ultraprocessados, que levam a população à subnutrição, até o impacto visual e mental de um território sem beleza cênica, com clima extremo (áreas de mata, arborizadas e não cinza, cimentada), são fatores que contribuem para o adoecimento mental.
Existem violências contra o meio ambiente que ocorrem de forma rápida e existem aquelas que chamamos de violências lentas. Ambas com grande impacto na vida, no corpo e na mente daquelas pessoas que as vivenciam, porém com respostas sociais diferentes.
Rob Nixon, em Violência Lenta e o Ambientalismo dos Pobres(tradução livre, de 2011, define violência ambiental lenta como um processo de destruição gradual e frequentemente invisível, cujos impactos se acumulam no tempo e se distribuem de forma desigual, afetando mais intensamente populações vulneráveis e ecossistemas frágeis.
Comunidades favelizadas sentem o estresse climático, tendo pouco ou nada de acesso à áreas naturais, arborizadas, que regulam o clima e fornecem sombra. Se constituem em áreas de encosta de morros, por ausência de políticas de moradia, habitação, sendo atingidas por deslizamentos e soterramentos.
Essas comunidades não possuem acesso a saneamento básico, ficando também expostas a enchentes e alagamentos, e, com isso, à doenças, zoonoses, advindas desses processos. Além disso, as indústrias mais poluentes são estrategicamente colocadas mais próximas dessas comunidades, tendo impacto direto na saúde desses povos, a curto, médio e longo prazo.
Acrescento ainda que a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) já reconheceu a ansiedade climática como sendo uma questão de saúde pública, e destaca a necessidade de abordar suas implicações psicológicas. Naturalmente os povos que mais sentem diariamente os efeitos do colapso climático ambiental estarão mais suscetíveis à seus impactos e resultados.
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Pensemos o seguinte: o aumento de emergências em saúde mental ocorrem quando o lugar significativo, como a casa, o rio ou o trabalho, é destruído, causando assim sentimentos de impotência e rupturas de identidade. Então, o patrimônio ambiental, ecológico, é fator imprescindível de ser tratado como prioridade, para que a espécie animal humana se entenda novamente como natureza, se conecte e caminhe para soluções com justiça social, ambiental e climática.
Concluo o texto desta quinzena com frase de Ana Maria Primavesi, engenheira agrônoma, pesquisadora e professora universitária austríaca radicada no Brasil, precursora da agroecologia no Brasil: O segredo da vida é o solo, porque do solo dependem as plantas, a água, o clima e a nossa vida. Tudo está interligado. Não existe ser humano sadio se o solo não for sadio.(Foto: Comunidade Ilha Bela/Ivoturucaia – Coletivo Japy)

JULIANA OLIVEIRA
É advogada, orientadora social, alfabetizadora popular e presidente do Coletivo Japy, movimento social fundado em 2021 para atuação no território nas pautas socioambientais.
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