Pega um café e senta aqui comigo. Hoje ele está amargo. O primeiro turno passou e, junto com os votos, deixou uma lembrança pouco confortável: direitos nunca estão tão garantidos como parecem, como é o caso das mulheres. Basta mudar a correlação de forças para aparecer alguém explicando, com a maior tranquilidade, que determinados degraus da cidadania talvez sejam um exagero. O Brasil elegeu um Senado mais conservador, com o PL formando a maior bancada da Casa, e segue para o segundo turno da eleição presidencial. Não é o voto que quero discutir aqui. É o que acontece depois dele, quando discursos sobre costumes, família e o “lugar da mulher” deixam o palanque, encontram uma caneta e descobrem que podem virar política pública. É aí que algumas contradições ficam especialmente saborosas.
Há mulheres ocupando tribunas, disputando eleições, administrando patrimônio, escolhendo profissão, casamento, divórcio e maternidade enquanto anunciam, com orgulho, que são antifeministas. Podem ser. Esse também é um direito, inclusive conquistado por feministas. A ironia quase se escreve sozinha: usufruem da colheita enquanto amaldiçoam quem plantou. Porque nenhuma dessas liberdades apareceu numa cesta de café da manhã acompanhada de um bilhete escrito: “Com carinho, patriarcado”. Mulheres tiveram de brigar por elas, e é justamente aí que o assunto deixa de ser engraçado.
Antifeminismo não é apenas uma opinião sobre mulheres que queimaram sutiãs, odeiam homens ou qualquer outra caricatura conveniente inventada para não discutir poder. Quando essa lógica orienta o Estado, ela alcança orçamento, educação, saúde, segurança pública, direitos sexuais e reprodutivos e políticas de enfrentamento à violência.
Violência de gênero não começa no feminicídio. Começa quando controle vira cuidado, submissão recebe o nome de valor familiar e autonomia feminina passa a ser tratada como ameaça. Começa quando igualdade vira “ideologia”, políticas de gênero são ridicularizadas e ensinar meninas a reconhecer violência incomoda mais do que a própria violência. Depois, uma mulher morre e todo mundo pergunta como ninguém percebeu. Percebeu. Só preferiu chamar de amor, ciúme, briga de casal, temperamento difícil ou problema de família.
Entre janeiro e julho deste ano, o Brasil registrou 848 vítimas de feminicídio. Houve redução de 3,2% em relação ao mesmo período de 2025. É uma queda que merece ser reconhecida, mas 848 mulheres assassinadas não combinam exatamente com a tese de que estamos exagerando na proteção feminina.
OUTROS ARTIGOS DE ANDRÉIA MELO CLICANDO AQUI
Por isso me intriga ouvir que mulheres conquistaram direitos demais. Demais em relação a quê? À época em que o marido decidia? Àquela em que violência doméstica era assunto para ser resolvido dentro de casa? Sempre fico curiosa para saber qual passado maravilhoso algumas pessoas gostariam de recuperar e, principalmente, se pretendem voltar para ele pessoalmente ou se a nostalgia vale apenas para a vida das outras mulheres.
Direitos não são decoração constitucional. Proteção contra violência não é mimo. Igualdade não é gentileza concedida pelo Estado. E direito que desaparece quando muda quem segura a caneta nunca foi tratado como direito, mas como favor. Mulheres passaram séculos vivendo de favores enquanto outros decidiam até onde elas poderiam ir.
A escada custou caro demais para ser construída. Cada degrau carrega uma conquista que alguém, antes de nós, precisou arrancar de uma estrutura que preferia mulheres no térreo. Algumas chegaram ao alto dela e parecem ter esquecido o preço da subida. O café? Não sei dizer. Talvez tenha derramado em algum degrau. O curioso é vê-las procurando onde apoiar a serra, como se o corrimão já não estivesse bambo o bastante.(Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

ANDRÉIA MELO
É guarda municipal há 14 anos, especialista em atendimento humanizado às mulheres em situação de violência. Idealizadora e presidente da Casa de Alices – Centro de Atendimento e Acolhimento à Mulher. Atuou como vice-presidente do CAIS Jundiaí. Idealizadora do Programa Guardiã Maria da Penha onde atuou como coordenadora por 2 anos, instrutora na formação de profissionais da segurança pública em violência de gênero e direitos humanos, unindo experiência prática e reflexão jurídica no enfrentamento das desigualdades estruturais. E-mail: [email protected]. Telefone: 11 975559986. Conheça a Casa de Alices clicando aqui.
VEJA TAMBÉM
PUBLICIDADE LEGAL É NO JUNDIAÍ AGORA
ACESSE O FACEBOOK DO JUNDIAÍ AGORA: NOTÍCIAS, DIVERSÃO E PROMOÇÕES











