Vivência de ouvir a VIDA

Escrever sobre a vivência de ouvir a vida me veio de uma fala do Papa Francisco, em sua homilia no domingo retrasado, no encerramento do Sínodo dos Bispos dedicado aos jovens.

Ao comentar sobre o Evangelho daquele dia, da cura do cego Bartimeu, o Papa propôs como três passos fundamentais no caminho da fé: “escutar, fazer-se próximo e testemunhar”. Chama-me sempre a atenção o apostolado do ouvido: escutar, antes de falar. Incontáveis vezes interrompo quem se expressa, para opinar, mesmo sem saber o final do assunto. É um horror. Mas já melhorei um pouco nisso. Os que estavam em volta de Bartimeu, enquanto ele gritava, o repreenderam, mas Jesus, ao contrário, o ouviu. E Francisco afirma: “Como é importante, para nós, escutar a vida! Os filhos do Pai celeste prestam ouvidos aos irmãos: não às críticas inúteis, mas às necessidades do próximo. Ouvir com amor. (…) Deus nunca Se cansa, sempre Se alegra quando O procuramos. Peçamos, também nós, a graça dum coração dócil a escutar, exortou Francisco”.

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Ouvir o outro, amplia o coração e o olhar. Recordo-me sempre de, nos primórdios da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena, no suporte de meu orgulho, considerava que tinha muito a dizer às excluídas que vagavam pelo centro da cidade. Foi assim por algum tempo. Até que escutei uma das histórias de sofrimento intenso, a da mocinha,na época com 15 anos, abusada desde os sete por um profissional gabaritado da cidade, que trabalhava próximo ao carrinho de pipoca de sua mãe. Ao saber, em lugar de se indignar, a mãe considerou um risco de perda, pelo companheiro,e empurrou a menina para São Paulo onde, aos 12, de trombadinha na Praça da Sé, passou a se prostituir. Aos 17, após um ano de Febem, com o seu bebê levado, de lá mesmo, para adoção, contra a vontade dela, mergulhou nas drogas e na doença. Partiu aos 21, de sapatos brancos – pedido seu -, para superar os pés que o mundo enlameou.

Quanto aprendi com a história dela em suas idas e vindas. Desmoronou o meu pedestal de verdades. E, hoje, embora continue atropelando, em alguns momentos, quem fala, recolho-me para ouvir realidades que não são minhas, mas que ajudam a me humanizar. (Foto: http:reflexoesparavida.com)


MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE

Com formação em Letras, professora, escreve crônicas, há 40 anos, em diversos meios de comunicação de Jundiaí e, também, em Portugal. Atua junto a populações em situação de risco.