Na sala de espera, o tempo não corre: se arrasta. O paciente chega cedo, cumpre burocracias, preenche fichas repetidas que poderiam ter sido digitalizadas há décadas, mas não — ali, a caneta ainda é o instrumento mais moderno do sistema. E o paciente espera, porque ser paciente é também aprender a ser invisível.
Quando, enfim, é chamado, o ritual se repete: uma porta se abre, um nome mal pronunciado ecoa, e o sujeito se levanta, ansioso, acreditando que encontrará no consultório um espaço de escuta e cuidado. Ledo engano. O que o espera é um doutor apressado, olhar colado à tela do celular ou ao monitor do computador, incapaz de erguer os olhos para reconhecer no outro um ser humano.
Começa então o espetáculo da desumanização. O médico fala com pressa, usa palavras infantis para diminuir quem está diante dele: “vovozinho”, “tiozinho”, “tiazinha”. Como se, ao reduzir o paciente à condição de criança ou idoso caricatural, pudesse também reduzir a gravidade de sua dor. É uma forma imbecil de infantilizar quem já carrega em si o peso da doença, como se o sofrimento precisasse ainda ser tratado com condescendência.
E o exame? Ah, o exame… quando acontece, é feito com a ponta dos dedos, de longe, quase como quem toca em algo contaminado. O corpo do paciente parece repelir o toque do médico — não pela doença, mas pelo nojo disfarçado de assepsia. É como se a simples aproximação fosse uma ameaça, e não a essência da própria medicina. Ora, se mesmo diante de uma chaga aberta o médico não é capaz de enfrentar o humano em sua fragilidade, de que adianta toda a pompa da formação acadêmica?
As consultas duram cinco minutos. Às vezes menos. Nesse tempo, decide-se o destino do paciente: cirurgia. Não importa se o caso é complexo, se há dúvidas, se há alternativas. Não há espaço para perguntas. O paciente fala, mas não é ouvido. Quando arrisca questionar, a resposta vem curta, atravessada, com um tom de superioridade que cala qualquer possibilidade de diálogo. O consultório, que deveria ser lugar de confiança, vira um tribunal em que o médico é juiz, promotor e carrasco, e o paciente, réu sem direito de defesa.
E há quem diga que o problema é do paciente: “falta instrução”, “não sabe se comunicar”. Mas mesmo aqueles que estudam, que buscam informações, que chegam com perguntas claras e objetivas, enfrentam o mesmo muro: um silêncio arrogante e lacônico. A medicina, em muitos casos, tornou-se um monólogo técnico, onde a escuta é artigo de luxo e a empatia, uma peça de museu.
Hipócrates, o Pai da Medicina, se levantasse da tumba, talvez cuspisse no chão ao ver como alguns de seus “descendentes” transformaram o cuidado em desdém. Formados nas melhores faculdades, exibem títulos e diplomas como medalhas de guerra, mas esquecem o básico: olhar no rosto de quem sofre. Hoje, muitos médicos parecem mais atentos às notificações do celular do que às palavras que escapam com dor da boca de seus pacientes.
E o sistema colabora com esse descaso. Entre remédios caríssimos, farmácias populares emperradas em burocracia e a longa fila de autorizações, o paciente se perde em um labirinto kafkiano. A doença não é apenas a enfermidade do corpo, mas também a da espera, da falta de atenção, do desprezo. O tratamento custa caro não só no bolso, mas na dignidade.
No fim, resta ao paciente a ironia do próprio nome: ser paciente. Paciente porque espera horas para ser atendido. Paciente porque engole em silêncio o menosprezo de quem deveria aliviar sua dor. Paciente porque engole o medo de retrucar, de perguntar, de exigir ser tratado como gente. Paciente porque aceita, resignado, a sentença apressada do doutor.
Mas há um limite para a paciência. Porque paciência, ao contrário do que pensam os doutores, não é sinônimo de submissão eterna. E talvez um dia, quando o silêncio for finalmente rompido, os médicos descubram, tarde demais, que a autoridade sem escuta não cura: adoece ainda mais.
No fim das contas, o paciente é tratado como estorvo, quando na verdade é ele quem sustenta todo o sistema de saúde — público ou privado. É o corpo dele que vira estatística, é o dinheiro dele que alimenta planos e consultórios, é a dor dele que mantém viva a engrenagem. E, no entanto, é justamente ele quem menos importa. O médico sai do consultório com status e autoridade; o paciente, com a sensação de ter implorado por migalhas de atenção. Que ironia cruel: aquele que paga a conta é o mesmo que não tem direito nem à escuta. Hipócrates teria vergonha; o paciente tem apenas que engolir o escárnio e, mais uma vez, ser paciente.
Nunca se viu tanta formação médica, tantas pós-graduações, cursos, MBAs, mestrados, doutorados, pós-doutorados ou especializações que pululam em congressos luxuosos e certificados que brilham nas paredes dos consultórios. Mas essa pompa acadêmica não confere ao paciente o que ele mais precisa: segurança e humanidade. O paradoxo é evidente — quanto mais títulos se acumulam, menos tempo resta para olhar no rosto de quem sofre.
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O teatro das especializações impressiona pelas siglas, mas falha no essencial: escuta, acolhimento, vínculo. De que adianta dominar a mais recente técnica cirúrgica, ou recitar estatísticas internacionais, se não se é capaz de ouvir uma pergunta simples ou enxergar no paciente mais do que um caso clínico? No lugar de vínculo, instala-se a distância; no lugar de confiança, a desconfiança. O paciente, infantilizado e tratado como objeto, não encontra motivo para aderir ao tratamento, porque não há adesão possível sem diálogo humano.
E assim, o consultório se transforma em palco de vaidade: diplomas reluzem nas paredes, celulares apitam sobre a mesa, e o paciente, ali sentado, torna-se figurante da própria doença. Quem deveria ser protagonista da consulta se torna coadjuvante sem fala, engolindo prescrições apressadas e diagnósticos lacônicos. O resultado é cruel: a medicina trai a si mesma, e o paciente, em silêncio, sustenta a engrenagem fria do sistema de saúde — pagando a conta com seu dinheiro, sua dignidade e, muitas vezes, com a própria vida.(Tânia Rêgo/Agência Brasil)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO
É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.
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