Há uma pergunta que insiste em me acompanhar pelas ruas de Jundiaí, especialmente quando passo diante de casarões antigos ou escuto histórias de antigos moradores: o que faz de um bem, patrimônio?
Não me refiro ao tombamento, à inscrição em livros oficiais ou às decisões de conselhos, mas àquilo que pulsa no cotidiano, na memória que se transmite entre gerações, no afeto que une pessoas e lugares.
Quando escrevemos o artigo Reflexos de uma herança indireta de Lisboa sobre aspectos essenciais do patrimônio cultural de Jundiaí, buscamos justamente deslocar o olhar do monumento para o processo.
O patrimônio não é coisa, é relação. Não está dado, constrói-se permanentemente na experiência dos fruidores, aqueles que, como ensina Carlos Nelson Ferreira dos Santos, são os verdadeiros guardiões da herança cultural – “pardieiros sim, mas vivos, funcionando”.
Jundiaí carrega em sua formação as marcas de múltiplas presenças: indígenas que aqui estavam muito antes da chegada dos colonizadores, africanos sequestrados para o trabalho escravo, imigrantes italianos que transformaram a paisagem com a videira, ferroviários que construíram um dos mais importantes complexos do Estado. Essa multiplicidade, contudo, nem sempre encontra espaço nas narrativas oficiais sobre o patrimônio local.
A herança portuguesa, em particular, chega até nós de maneira indireta, mas profundamente estruturante. Não apenas na arquitetura ou na legislação, mas sobretudo na forma de compreender a preservação como compromisso coletivo.
Lisboa nos ensina, há mais de um século, que o bem cultural não pode ser ônus exclusivo do proprietário particular: o Estado deve intervir, apoiar, garantir que a memória não sucumba aos interesses imediatos do mercado.
O que vemos em Jundiaí, entretanto, é um tensionamento constante entre o valor cultural e o valor de troca. A Casa Rosa, tombada, destombada, novamente protegida, resiste como símbolo dessa disputa.
O Museu da Companhia Paulista, com suas locomotivas silenciosas, aguarda políticas efetivas de acesso.
A casa da Rua Senador Fonseca, desprovida de atributos arquitetônicos excepcionais, permanece no imaginário afetivo de quem por décadas ali viveu histórias.
Meneses nos oferece ferramentas precisas para pensar esses dilemas ao propor os valores culturais – cognitivos, formais, afetivos, pragmáticos, éticos – como componentes indissociáveis. Não se trata de escolher entre materialidade e imaterialidade, entre especialista e fruidor, mas de compreender como esses elementos se combinam e se sobrepõem, por vezes entram em conflito.
A gentrificação que avança sobre Jundiaí, impulsionada pela expansão metropolitana e pelo capital imobiliário, ameaça justamente essa complexidade. Ao higienizar espaços, expulsar moradores originais, gourmetizar tradições populares, o processo de enobrecimento urbano produz não apenas exclusão social, mas também empobrecimento cultural. A cidade torna-se cenário, não experiência, com os diversos equipamentos públicos que surgem às vésperas de eleições e acumulam sujeira e ferrugem durante o mandato.
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É urgente, portanto, recolocar o fruidor no centro do debate. O patrimônio não existe para ser contemplado à distância, mas vivido, habitado, ressignificado. Não há preservação efetiva sem pertencimento, sem que as comunidades reconheçam nos bens culturais a extensão, as existências de si mesmas.
A herança que recebemos de Lisboa e de tantas outras matrizes formadoras, não é um fardo nem um ornamento. É matéria viva, processo em aberto, convite à permanente negociação entre passado e futuro. Cabe a nós garantir que essa conversa continue, que as micro-histórias não sejam soterradas pela macro-história dos vencedores, que a cidade permaneça sendo, acima de tudo, território de encontro das identidades, culturas e memórias. (Foto: @CasaRosaJundiaí)

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE
Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.
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